quinta-feira, 28 de junho de 2012

A Bíblia é Homofóbica? (Um anti-contra-argumento)

Por Paulo Stekel



Este artigo, a despeito de seu subtítulo, pretende ser um complemento e uma contribuição ao debate mais do que algum tipo de contestação aos dois artigos anteriores publicados neste blogue com o mesmo título (os quais recomendamos que se leia antes do nosso):




Um argumento pretende defender uma ideia lançando mão de algumas premissas iniciais. No caso em questão, consideramos como argumento a ideia de que a Bíblia é homofóbica.

Um contra-argumento ou retribuição é uma objeção a uma objeção, podendo ser usado para rebater uma objeção a uma premissa. Ele pode pretender lançar dúvida sobre a veracidade de uma ou mais premissas iniciais de um argumento, ou mostrar que os argumentos iniciais não se seguem a suas premissas de maneira válida, ou pode dar pouca atenção às premissas e simplesmente tentar demonstrar a verdade de uma conclusão incompatível com o que é estipulado no argumento inicial. No caso em questão, o contra-argumento é a ideia de que apenas partes da Bíblia são homofóbicas, enquanto outras parecem enaltecer a homo-afetividade (casos Davi-Jônatas, Rute-Noemi).

Com o que chamamos de anti-contra-argumento pretendemos lançar uma terceira ideia: a de que a Bíblia não é um texto coeso, de que entre o Antigo e o Novo Testamento há muitas contradições, de modo que querer defini-la no seu todo como sendo homofóbica ou não-homofóbica é esquecer que a homofobia depende mais da interpretação que se a dá HOJE.

Se se lhe dá uma interpretação literalista, conectada de modo radical a um momento histórico (o levítico-deuteronomista, por exemplo) e sem qualquer recontextualização para com o nosso tempo atual, isso pode ser entendido como uma interpretação homofóbica.

Por outro lado, se se lhe dá uma interpretação contextualizadora e moderna, que considera as mudanças históricas dentro do próprio texto bíblico (as mudanças de costumes e aplicação de leis entre o Antigo e o Novo Testamento, por exemplo) e as adaptações do homem ao longo do tempo, bem como os novos conceitos biológicos, sociais e tecnológicos, isso pode ser entendido como uma interpretação não-homofóbica e naturalmente inclusiva.

João Marinho no texto que abriu este debate deixou claro que mesmo após o surgimento da Teologia Inclusiva a homofobia dentro do texto bíblico não pode ser maquiada: “Mesmo com a teologia inclusiva e supostas passagens pró-homossexualidade, não devemos maquiar a homofobia e demais preconceitos de certos textos bíblicos. (…) Na verdade, a questão do embate entre as diferentes formas de teologia inclusiva e as vertentes mais conservadoras, para mim, é mais profunda do que escolher um lado ou outro.”

Com certeza. E, ao termos dividido acima a interpretação bíblica entre a literalista e a contextualizadora, não estamos falando, no caso da segunda, em Teologia Inclusiva. Estamos falando em uma interpretação naturalmente inclusiva. Qual a diferença? No caso da Teologia Inclusiva, frequentemente, sua consequência é a criação de “igrejas” alcunhadas de “inclusivas” que nem sequer são aceitas pela maioria dos grupos cristãos como sendo igrejas cristãs. Já, uma interpretação naturalmente inclusiva deveria estar disponível em todos os grupos cristãos, o que seria muito mais producente para a inclusão da pessoa LGBT que escolheu para sua vida religiosa o Cristianismo.

Provavelmente o surgimento das Igrejas Inclusivas tenha se dado pela resistência dos grupos cristãos existentes até então em se permitirem a uma interpretação contextualizadora como descrita acima. Para alguns, incluindo muitos gays cristãos, tais Igrejas Inclusivas são uma aberração dentro do Cristianismo, já que este deveria acolher a todos sem distinção, sem preconceito e sem demonização. Para outros, elas são algo legitimamente cristão, embora o texto de que se valem apresente dificuldades exegéticas consideráveis no caso do tema homossexualidade e homo-afetividade. Em nosso anti-contra-argumento dizemos que tais Igrejas são um mal necessário enquanto a inclusão do indivíduo LGBT precisa ser algo “negociável” com relação à maioria cristã.

Walter Silva, no segundo artigo desta polêmica, escreveu algo aparentemente óbvio, mas que não custa relembrar, dada a sua gravidade: “(…) questionar se a bíblia é homofóbica pode parecer mesmo uma grande ingenuidade, quando não uma pilhéria grotesca.”

É o que parece. E, muitos comentários recebidos pelos dois artigos até aqui evidenciam exatamente esta certeza: a de que a Bíblia é homofóbica.

Mas, João Marinho, ao citar Davi e Jônatas, já havia argumentado: “Agora, porém, assumamos que realmente tenha havido um relacionamento gay entre Davi e Jônatas, que a história contada seja essa – uma homofilia bíblica, em vez de seu oposto, a homofobia. Isso descartaria a existência da mesma homofobia na Bíblia?

Não é porque os livros de Samuel, Reis e Crônicas exaltam o relacionamento entre Davi e Jônatas e ambos trocaram declarações carinhosas que o Levítico e suas injunções a certas práticas homoeróticas deixam de existir.”

Realmente, não. Contudo, há uma polarização moderna evidente quando os teólogos inclusivos tendem a argumentar (conforme o artigo de João Marinho) que “a Bíblia não é, ou talvez não seja, toda homofóbica classicamente falando, como os cristãos conservadores tanto gostam de retratá-la” e os teólogos conservadores dizem que “a Bíblia não é nada homofóbica”.

Para João Marinho “o que é producente, portanto, é tomar a Bíblia pelo que ela é: um livro histórico-religioso, com um sem-número de contradições, inclusive com relação à homossexualidade”. Isso nos leva ao terceiro argumento: a Bíblia está desconectada de nossa realidade moderna exatamente por ser um livro histórico-religioso escrito ao longo de milhares de anos. Isso explica as inúmeras contradições que apresenta no tocante a vários assuntos.

Um dos argumentos mais usados pelos defensores de Levítico para atacar os homossexuais é o de que, segundo estes, não apenas o Antigo Testamento condena os atos homossexuais, mas também o Novo Testamento. As demais leis judaicas de Levítico e Deuteronômio que não aparecem no Novo Testamento teriam sido “abrandadas” pelo Cristianismo, como as proibições alimentares, por exemplo. Mas, como Coríntios ataca os gays, nada feito. Será? A posição inferior da mulher diante do marido, seu status de propriedade do homem, de que deve calar-se, etc, aparece em ambos os Testamentos da mesma forma que as críticas aos eunucos, efeminados e sodomitas. Contudo, qual cristão hoje imagina dizer para sua mulher manter-se calada numa conversa porque Deus assim manda na Bíblia? A misoginia foi “abrandada”, mas a homofobia não? Conveniências? Talvez. Mas, que muitos cristãos machistas gostariam de poder calar suas mulheres em público sob a autoridade bíblica, ah, isso sim!

O que fazer então? Continuar cristão gay em meio a homofóbicos, aderir a Igrejas Inclusivas ou deixar de ser cristão? João Marinho: “(...) não posso esperar que todos se tornem ateus apenas por serem LGBTs (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais), quando eu mesmo, por sinal, não sou.”

Não há necessidade de gays cristãos deixarem de ser cristãos. Por que? Porque todo e qualquer trecho bíblico sobre homossexualidade está sujeito a interpretações diversas. E, isso tem um motivo simples, mas crucial: na época bíblica ninguém tinha consciência de orientação sexual, de que uma delas é a homossexual, de que isso é natural e de que não pode ser mudada. Se tivessem tal consciência, as orientações LGBT estariam na conta do que foi criado por Deus e não estariam sujeitas às leis mosaicas e deuteronomistas, que são mais tentativas de regrar a vida privada dos israelitas e judeus que preceitos divinos universais. Em suma, não são pecado, mas interdições, a maioria delas, inclusive, dirigidas aos heterossexuais. E, interdições, não levam ao Inferno. Apenas o pecado não remido pelo arrependimento leva ao Inferno, segundo as crenças cristãs.

Como bem pontuou Walter Silva, na época bíblica nem sequer havia a consciência de existirem heterossexuais e homossexuais. Só se tratava do sexo como entre macho e fêmea. Não havia a diferenciação entre sexo biológico, gênero, identidade e orientação sexual. Para os antigos semitas tudo se resumia no macho-fêmea, e pretendiam que era assim também no reino animal. A Ciência moderna colapsou tal ideia ao descobrir animais andróginos, hermafroditas, e espécies que podem até mudar de sexo sob certas circunstâncias. Com que animais estas espécies se alojaram na Arca de Noé???

O que quero deixar claro com meu anti-contra-argumento é que, antes de alcunharmos o livro inteiro chamado “Bíblia” como homofóbico, devemos declarar que a Bíblia ignora tudo o que sabemos hoje sobre a sexualidade humana. Então, a Bíblia é ignorante quanto à pessoa LGBT e, por tal contraste com nossa realidade atual, figura como homofóbica. Além disso, no momento em que fanáticos preconceituosos desvirtuam os textos e traduzem termos antigos com palavras modernas – como quando se traduz “sodomita” por “homossexual” -, a ideia “mastigada” e falaciosa lançada para a maioria é a de que a Bíblia condena os gays.

Mas, como pode um texto que sequer concebe a existência de gays condená-los? Tudo no texto bíblico é escrito numa ótica homem e mulher, macho fêmea. Ele não concebe sexo entre homens além da noção de algo não-natural que deve ser interdito; não concebe o amor entre pessoas do mesmo sexo que não seja o amor paternal-filial-fraternal pois não acredita que tal amor seja possível em sua visão normativa homem-mulher; não concebe a união/casamento entre pessoas do mesmo sexo porque não percebe uma pessoa que mantém relações com outra do mesmo sexo como alguém que possa amar esta outra pessoa e desejar viver toda a vida com ela de modo equivalente a um homem e uma mulher.

Este argumento parece simples, mas tem implicações importantes já apresentadas por Walter Silva ao citar John Richard Boswell, autor do livro “Cristianismo, tolerância social e homossexualidade’’: "(…) Boswell foi celebrado ao expor uma interpretação revolucionária, argumentando que a igreja no início da sua trajetória e ao longo de uma parte do medievo, conviveu com a homossexualidade de forma pouco conflituosa, possibilitando inclusive o emergir de uma subcultura gay, expressando-se através de primorosos poemas e cartas eróticos de amor e amizade do mesmo sexo, escritos por bispos e clérigos cristãos.”

Isso demonstra o que dissemos sobre a ignorância bíblica a respeito da pessoa homossexual! Tal ignorância, na Idade Média, serviu para uma evidente tolerância da Igreja Católica para com pessoas com tendências ao amor pelo semelhante, o mesmo sexo, enquanto que a mesma ignorância hoje tem servido aos setores fundamentalistas que traduzem a seu gosto o texto bíblico para condenar os LGBTs. Se isso não fosse verdade, não teríamos várias Igrejas Cristãs protestantes que não se consideram “inclusivas” aceitando LGBTs entre seus fieis, ordenando sacerdotes gays e celebrando casamentos entre homossexuais. É o caso da Igreja Luterana nos EUA (no Brasil, infelizmente, não é bem assim), da Igreja Presbiteriana (também nos EUA), da Igreja Anglicana, da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, de setores minoritários da Igreja Batista e Metodista, entre outras.

Walter Silva: “De modo contraditório os literalistas afirmam que Deus não reconheceu a categoria dos homossexuais (então qual o sentido de dizer que Deus não condena a pessoa gay?), que Deus criou somente o “macho’’ e a “fêmea’’; indivíduos gays, portanto são machos e fêmeas que se recusam a cumprir com os desígnios de sua natureza verdadeira (heterossexual).”

A questão é mais ampla: o Deus bíblico não cita “gays”, “homossexuais” ou “LGBTs” simplesmente porque desconhece sua existência. Mas, dirão os beatos, como pode Deus desconhecer o que hoje conhecemos? E, dirão os teólogos beatos, como poderia Deus reconhecer o que não existe e é uma doença, uma aberração e uma imoralidade? E, dirão os 10% da humanidade que Deus “desconhece” ou que pensa não existirem, se Deus nos desconhece ou se cala sobre nós porque não existimos, por que seus adeptos colocam na boca do Criador uma condenação que não faz sentido, dados os argumentos? Alguns setores protestantes norte-americanos entenderam isso (anglicanos, luteranos, etc.) e deixaram de adotar posturas anti-gays. Quando os cristãos brasileiros vão acordar? Quando deixarão de ouvir o vociferante e infernal discurso de Malafaia, Magno Malta, Marco Feliciano e legião, e passarão a incluir os LGBTs em suas vidas sem ódio, sem preconceito e sem demonização?

Quando dizemos que a Bíblia é homofóbica, estamos alimentando um discurso falso de que todo o cristão e de que todos os grupos cristãos são homofóbicos e contra os direitos gays.

Quando dizemos que a Bíblia não é homofóbica, pois ama o gay mas condena o ato homossexual, estamos alimentando a hipocrisia violenta daqueles cristãos que se aproveitam deste argumento para condenar os gays ao Inferno e para tentar impedi-los de conquistar direitos básicos.

Porém, quando dizemos, equilibrando as coisas:

1 – Que a Bíblia desconhece as noções modernas de sexualidade, orientação sexual, identidade de gênero, heterossexualidade, homossexualidade e bissexualidade;

2 – Que a Bíblia condena comportamentos sob a perspectiva de que sejam efetuados por pessoas vistas dentro do padrão macho-fêmea, sem alternativa diferente;

3 – Que, mesmo a despeito de tais condenações, a Bíblia deve ser interpretada, contextualizada e tornada “viva” na modernidade, sem os arcaísmos embutidos;

Quando dizemos tudo isso, fica claro que não é a Bíblia que é homofóbica – por uma impossibilidade histórica de sê-la –, mas os que a adotam hoje para fazer uma interpretação arcaica, desconectada da vida humana, dos sentimentos humanos, da realidade interna do ser humano, trabalho este que tem sido feito pela Psicologia, mas no qual a Teologia moderna apenas engatinha.

Contudo, é certo que se a Bíblia não é homofóbica por ser antes ignorante da pessoa LGBT, também não é um livro inclusivo pelo mesmo motivo!

O Novo Testamento apresenta uma noção um pouco menos ignorante da existência de uma alternativa à visão do padrão macho-fêmea (baseado na imprecisa observação dos animais pelos antigos) e homem-mulher (baseado unicamente nos gêneros evidentes física e mentalmente) ao referir-se aos “eunucos de nascimento”, como brilhantemente esclareceu Walter Silva em seu artigo: “(…) a Bíblia repudia a afeminação não natural nos homens heterossexuais, o sexo homossexual com prostitutos sagrados e a disposição de alguns heterossexuais para a luxúria ocasional com o mesmo sexo.”

A tendência “feminina” em eunucos era conhecida e aceita, portanto. O que não era aceito – ou conhecido, já que se desconhecia também a noção de orientação sexual desconectada de tendências masculinas-femininas – era um homem não-feminino que se desse ao mesmo sexo, como se “feminino” fosse. Novamente, uma tentativa sutil de encaixar mesmo os eunucos no padrão macho-fêmea, homem-mulher. Sem contar que a mulher no ato sexual, na visão judaico-cristã, é considerada como “submetida” ao homem, e não em caráter de igualdade, como hoje em dia. Então, como se considerada o submetido como inferior, assim também eram considerados, como as mulheres, os eunucos, os homens femininos e os prostitutos sagrados. Nesta noção machista-patriarcal é inadmissível um homem não-feminino deitar-se com outro não-feminino...

Já naquela época bíblica, portanto, se percebe uma tentativa de conter o fator gay (ainda nem considerado existente como hoje) dentro de uma categoria aceitável (o eunuco de nascimento), em oposição à não aceitável (o prostituto sagrado).

Atualmente, quanto ao tema, vemos radicalismos de ambos os lados: do lado fundamentalista, uma tentativa de “eugenia social”; do lado de alguns LGBT que não gostam de religião, uma tentativa de desqualificar todo e qualquer valor da espiritualidade para a vida LGBT. Extremos nunca se entendem. Podem se tocar, mas nunca se entendem.

O que desejam os “patrulheiros da moral e dos bons costumes” de origem cristã? Estes “patrulheiros” desejam que os gays voltem aos guetos, que amem seus iguais às escondidas, sem postular direitos, casamento, adoção, benefícios iguais aos dos heterossexuais... Querem, assim, promover no Brasil uma verdadeira eugenia social dos homossexuais aos moldes da proposta nazista? Jamais o permitiremos!

Quando uso o argumento da eugenia social contra gays, muitos dizem que essa comparação é um absurdo. Mas, não é. A eugenia (termo cunhado em 1883 por Francis Galton), significa “bem nascido” e é o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente. Ou seja, melhoramento genético. Hitler se baseou nisso ao imaginar que o arianos loiros heterossexuais eram mais puros e superiores aos judeus, negros, ciganos, deficientes e homossexuais.

Aplicando isso à noção de eugenia social contra gays, ela significaria a discriminação de pessoas por categorias sexuais, por orientação sexual, levando apenas a uma relativa aceitação dos gays mais “comportados”, mais semelhantes aos padrões heterossexuais, que seriam melhor aceitos na sociedade, mas nunca completamente integrados, incluídos. Contudo, continuariam sendo considerados não-aptos para a reprodução, como se, afinal, todos os gays e lésbicas fossem estéreis!!! Segundo esta eugenia social, os melhores gays seriam os do armário, os caladinhos, os que aceitam a ofensa, a demonização e a violência, de modo a nem serem percebidos pela sociedade e não constituírem qualquer ameaça a “família cristã”. Ledo engano! Não se joga para debaixo do tapete cerca de 10% da humanidade (se não for mais!) como Hitler tentou fazer com os que ele considerava inferiores.

Para finalizar, a Bíblia deve ser lida e interpretada como um livro antigo, escrito por muitos autores ao longo de milhares de anos e que não trata de todos os assuntos que interessam à vida dos fieis com a riqueza de detalhes e nos termos modernos, como se gostaria. É um livro sagrado – como todos os demais, aliás – para ser estudado, esmiuçado, esquadrinhado, e não usado como arma contra outros seres humanos por pessoas que, em geral, não entendem o que está ali escrito.

A propósito, tenho visto pastores semi-analfabetos vomitando preconceitos como certezas teológicas enquanto ouço dúvidas profundas e pertinentes de teólogos com décadas de estudos. Para os primeiros, estes analfabetos de Deus que se consideram Seus intérpretes, deixo alguns trechos do Livro da Sabedoria, atribuído a Salomão:

“O Senhor de todos não fará exceção para ninguém, e não se deixará impor pela grandeza, porque, pequenos ou grandes, é ele que a todos criou, e de todos cuida igualmente; mas para os poderosos o julgamento será severo.

Resplandescente é a Sabedoria, e sua beleza é inalterável: os que a amam, descobrem-na facilmente.
Os que a procuram encontram-na. Ela antecipa-se aos que a desejam.

Quem, para possuí-la, levanta-se de madrugada, não terá trabalho, porque a encontrará sentada à sua porta.

Fazê-la objeto de seus pensamentos é a prudência perfeita, e quem por ela vigia, em breve não terá mais cuidado.

Ela mesma vai à procura dos que são dignos dela; ela lhes aparece nos caminhos cheia de benevolência, e vai ao encontro deles em todos os seus pensamentos, porque, verdadeiramente, desde o começo, seu desejo é instruir, e desejar instruir-se é amá-la.

Mais ágil que todo o movimento é a Sabedoria, ela atravessa e penetra tudo, graças à sua pureza.

Embora única, tudo pode; imutável em si mesma, renova todas as coisas. Ela se derrama de geração em geração nas almas santas e forma os amigos e os intérpretes de Deus, porque Deus somente ama quem vive com a sabedoria!”

(Livro da Sabedoria, VI. 7-8, 12-17; VII. 24, 27-28)


Sobre o autor


Paulo Stekel é jornalista, escritor, músico, poliglota, especialista em religiões, tradições espirituais e línguas sagradas. Ativista LGBT focado na relação entre homofobia e religião, é o criador do Movimento Espiritualidade Inclusiva e possui quase uma centena de artigos sobre espiritualidade, orientação sexual, homofobia religiosa e espiritualidade inclusiva. Contatos: espiritualidadeinclusiva@gmail.com

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Dia do Orgulho Gay e da Consciência Homossexual

Por Luiz Mott


Todos os oprimidos têm um dia de luta: 8 de março, Dia da Mulher; 19 de abril, Dia do Índio; 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Faz sentido existir também um Dia dos Homossexuais? Sim! Os gays também têm seu dia - 28 de Junho. Os gays, lésbicas, travestis e transexuais representam mais de 10% da população mundial. No Brasil são mais de 20 milhões de seres humanos desprezados, discriminados, violentados, assassinados. Só nos últimos 30 anos mais de 3500 homossexuais foram barbaramente executados, vítimas da homofobia - a intolerância à homossexualidade. A cada novo dia um LGBT é assassinado no Brasil! Por que tanto desprezo e violência? Simplesmente porque os homossexuais são considerados marginais, doentes, pecadores, e nossa sociedade cristã legitima o terror contra os gays, lésbicas e transgêneros. As causas da homofobia já foram detectadas pelos cientistas sociais: de um lado a mentalidade machista que confere apenas ao "sexo forte" a hegemonia social, relegando para a condição de subumanos quem não é macho: as mulheres, tornadas "sexo frágil", e o "terceiro sexo", os gays. Do outro lado, explica-se a homofobia pela reconhecida insegurança dos machões face ao estilo de vida revolucionário dos gays, que vêm nos homossexuais perigosa ameaça a sua hegemonia, posto abdicarem do privilégio de dominar as fêmeas em função de viverem uma relação igualitária com outros machos. A moderna psicanálise ensina que todos aqueles que odeiam e querem a destruição dos homossexuais, no fundo, têm mal resolvida sua própria (homo)sexualidade, vingando-se nos homossexuais egosintônicos seus desejos homoeróticos reprimidos.

POR QUE UM DIA DA CONSCIÊNCIA HOMOSSEXUAL?

Os gays lutaram duro para ter um dia no ano. Tudo começou em 28 de junho 1969, em Nova York, quando os homossexuais, cansados de apanhar da polícia, que toda noite invadia seus espaços de lazer, reagiram e ganharam a batalha contra a prepotência policial. Nos anos seguintes, os LGBT do mundo inteiro adotaram 28 de junho como o "Dia do Orgulho Gay", também chamado de DIA DA CONSCIÊNCIA HOMOSSEXUAL. Nas principais cidades do mundo os gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e simpatizantes enchem as ruas proclamando: É legal ser homossexual! Em S. Francisco, Nova York, nas principais cidades do Canadá e da Europa, autoridades e políticos se juntam a milhões de homossexuais que saem às ruas para defender seus direitos de cidadania. No Brasil, desde 1981 o Grupo Gay da Bahia comemora esta data, e nos últimos anos, as paradas LGBT se espalharam pelo resto do país. Mais de um milhão de pessoas participam todos os anos das paradas de SP, RJ, Salvador, Fortaleza, Belém.

POR QUE NÃO TER VERGONHA DE SER E DEFENDER O HOMOSSEXUAL?

Foram necessários muitos anos de resistência, luta e contestação para que chegasse um dia, na década de 60, em que os negros pudessem declarar: "Negro é bonito!". Serão necessárias ainda quantas gerações para que todas as pessoas reconheçam que mulheres e homossexuais devem ter os mesmos direitos que os machões; que a cor escura da pele do índio ou do negro não implica em inferioridade? Não existe raça superior, não existe sexo superior, não existe sexualidade/gênero superior. Sexo é prazer, comunicação, vida. A livre orientação sexual é um direito inalienável de todo ser humano, seja homossexual, bissexual ou heterossexual. Ser homossexual não é doença: desde 1985 o Conselho Federal de Medicina, desde 1993 a Organização Mundial da Saúde e desde 1999, o Conselho Federal de Psicologia excluíram a homossexualidade da classificação de doenças. Ser homossexual não é crime e teólogos modernos defendem que o amor entre pessoas do mesmo sexo não é pecado. A discriminação sim é proibida pela Constituição.

O QUE QUEREM OS LGBTs?

O povo LGBT quer simplesmente ser tratado como ser humano, com os mesmos direitos e deveres dos demais cidadãos. Queremos cidadania plena! Os gays não desejam mudar a orientação sexual de ninguém mas também não aceitam que queiram "curá-los" ou "convertê-los" - do mesmo modo como os negros e índios lutam para que sejam respeitados na sua especificidade pluri-cultural. Neste Dia Mundial do Orgulho Gay e Consciência Homossexual, em todo o Brasil, nas Câmaras de Vereadores, Assembléias Legislativas e em Brasília, estão sendo lidos discursos como este, rompendo a conspiração do silêncio e do ostracismo que até hoje paira contra mais de 10% de cidadãos e cidadãs homossexuais, cujo único "pecado" é amarem seus semelhantes. Que chegue logo o dia em que não mais seja necessário que os negros, índios, homossexuais e mulheres tenham apenas um dia especial no ano para denunciar o preconceito e discriminação de que são vítimas. Que nos unamos contra o preconceito e a ignorância para que seja logo realidade o que nossa Constituição Cidadã prognosticou em seu Artigo 3o, parágrafos I e IV: "Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil construir uma sociedade livre, justa e solidária, promovendo o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação."

Equiparação da homofobia ao crime de racismo e casamento igualitário já! Direitos iguais, nem menos, nem mais!


Sobre o autor



Luiz Mott é antropólogo, historiador e pesquisador, e um dos mais conhecidos ativistas brasileiros em favor dos direitos civis dos LGBT. Estudou em Seminário Dominicano de Juiz de Fora. Formou-se em Ciências Sociais pela USP. Possui mestrado em Etnologia em Sorbonne e doutorado em Antropologia, pela Unicamp. Atualmente é professor titular aposentado do Departamento de Antropologia da Universidade Federal da Bahia, UFBA e é professor e orientador do programa de pós graduação em História da Universidade Federal da Bahia, UFBA. Assumiu sua orientação sexual em 1977. Luiz Mott é fundador do Grupo Gay da Bahia, uma das principais instituições que laboram em prol dos direitos humanos dos gays no Brasil. Conheça mais: http://www.ggb.org.br

quarta-feira, 20 de junho de 2012

A Bíblia é homofóbica? (Um segundo argumento)

Por Walter Silva


Essa questão foi colocada em debate em um fórum social e suscitou um interessante e provocativo artigo (ler o primeiro artigo em http://espiritualidadeinclusiva.blogspot.com.br/2012/06/biblia-e-homofobica.html), para cujo desenvolvimento do tema estou oferecendo uma contribuição aqui.

Vou me deter na exposição e análise de alguns argumentos das igrejas inclusivas bem como das igrejas cuja perspectiva chamarei de “literalista’’, e tentar apresentar o meu próprio ponto de vista a cerca do assunto.

A Bíblia sagrada se mantém como uma dolorosa espada de Dâmocles suspensa sobre a cabeça de homens gays e mulheres lésbicas, provocando a angustiante sensação de danação iminente e norteando também as políticas e atitudes sociais hostis para com pessoas LGBT ao longo dos séculos, independente de crença ou descrença.

Portanto, diante disso questionar se a bíblia é homofóbica pode parecer mesmo uma grande ingenuidade, quando não uma pilhéria grotesca. Apesar de tudo, proponho ao menos uma mudança ligeira e significativa de posição no sofá das convenções ideológicas durante as próximas linhas.

Os pressupostos morais estabelecidos firmemente durante gerações de cristãos no Ocidente foram desafiados com maior entusiasmo e elegante inteligência pela primeira vez quando John Richard Boswell, iminente professor de história da universidade de Yale, publicou no início dos anos oitenta o surpreendente livro “Cristianismo, tolerância social e homossexualidade’’.

A obra de Boswell gerou uma onda de intensa polêmica, ganhou prêmios, foi entusiástica e afetuosamente acolhida por gays cristãos e recebeu críticas ferrenhas tanto de ativistas LGBT quanto de fundamentalistas e grupos antigay.

O meio acadêmico, igualmente, reagiu de modo variado.

O dogma do construcionismo social despontava; a tese essencialista apregoada pelo professor gay de Yale não estava mais na moda (embora o próprio Foucault tenha elogiado o livro) e muitos ativistas LGBT se sentiram “traídos’’ por aquilo que eles entenderam como uma tentativa de “branquear’’ o cristianismo e retirar a culpa dos ombros da igreja por todos os crimes cometidos contra homossexuais.

Por outro lado, Boswell foi celebrado ao expor uma interpretação revolucionária, argumentando que a igreja no início da sua trajetória e ao longo de uma parte do medievo, conviveu com a homossexualidade de forma pouco conflituosa, possibilitando inclusive o emergir de uma subcultura gay, expressando-se através de primorosos poemas e cartas eróticos de amor e amizade do mesmo sexo, escritos por bispos e clérigos cristãos.

O professor John Boswell também se tornou pioneiro ao fazer uma exegese “inclusiva’’ de trechos bíblicos tradicionalmente considerados homofóbicos, causando uma controvérsia que dura até hoje, fornecendo o lastro sobre o qual repousa a assim chamada “teologia inclusiva’’.

Afinal, a bíblia é homofóbica? Não vou entrar no mérito de discutir a semântica apontada como a razão da condenação explícita a atos homossexuais, motivo de disputa ferrenha entre os adeptos da interpretação inclusiva e os adeptos da interpretação literalista.

Ao contrário, vou assumir aqui que a Bíblia de fato condena atos homossexuais, uma alegação com a qual Boswell também concordaria.

Uma assertiva bastante comum entre os cristãos literalistas homofóbicos é aquela que diz que “Deus não condena o indivíduo homossexual; Deus condena atos homossexuais’’.

Suspeito que essa afirmação contém inadvertidamente uma verdade oculta, fundamental e divergente da intenção com a qual é propagada, conforme veremos.

De modo contraditório os literalistas afirmam que Deus não reconheceu a categoria dos homossexuais (então qual o sentido de dizer que Deus não condena a pessoa gay?) que Deus criou somente o “macho’’ e a “fêmea’’; indivíduos gays, portanto são machos e fêmeas que se recusam a cumprir com os desígnios de sua natureza verdadeira (heterossexual).

Desconsiderando solenemente a teoria social construtivista (de viés Marxista) e os equívocos derivados da crença Foucaultiana de que a identidade gay é uma invenção moderna, é bastante razoável discordar da idéia de que Deus “limitou-se’’ a “criar’’ duas distintas classes de pessoas; com efeito, diversas escrituras jurídicas, literárias, religiosas e de medicina do mundo antigo se referem explicitamente a uma terceira categoria de pessoas, com estatus próprio naturalizado e normatizado, para além da nomeação de “homem’’ ou “mulher’’.

Essa classe específica de pessoas por vezes foi considerada um terceiro gênero, ou gênero neutro, ou uma combinação de ambos os gêneros.

A própria Bíblia confirma a existência de uma terceira classe de pessoas, não aptas para o casamento procriativo, nascidas exatamente desta forma desde o “ventre materno’’.

Quem são essas pessoas?

No Evangelho de Mateus, no verso que se refere ao divórcio e casamento entre homem e mulher (19,11-12) Jesus declara:

“Não tendes lido que o criador os fez, desde o princípio, homem e mulher, e que ordenou: Por isso deixará pai e mãe e unir-se-á com sua mulher, e será uma só carne?’’

Responderam-se os discípulos, opinando sobre a interdição de Cristo ao divórcio:

“Se tal é a condição do homem relativo à mulher, melhor não casar.’’

Jesus retrucou então:

“Nem todos podem entender esse ensino. Mas somente aqueles a quem isso foi dado.

Porque há eunucos que nasceram assim, e há eunucos que pelos homens foram feitos tais; e há outros que se fizeram eunucos por causa do reino dos céus.

Quem puder aceitar isso que aceite.’’

Jesus coloca a questão do repúdio da esposa, consentido pela lei de Moisés, e no final, excepcionalmente deixa claro que existem pessoas que não são aptas para se engajar no casamento heteronormativo prescrito por ordem divina.

Faris Malik, um pesquisador de concepções antigas de identidade de gênero e identidade sexual, entre outros defende a tese de que os “eunucos de nascimento’’ citados no evangelho de Mateus é a denominação primitiva genérica aplicada por vários povos da antiguidade aos homossexuais exclusivos.

A primeira objeção ao argumento é a mais óbvia: Jesus pode simplesmente estar se referindo a homens que nasceram com disfunções biológicas que impossibilitam a reprodução.

“Eunuco de nascimento’’ então se refere a homens estéreis naturalmente, em oposição aos esterilizados artificialmente e os que escolheram não procriar (celibatários).

Malik está consciente do problema e sua pesquisa aborda sem rodeios a busca pelo significado original do “eunuco de nascença’’; ele observa que apesar de quase todas as definições atuais de eunucos se encontrarem atreladas ao conceito de castração ou danos físicos à capacidade reprodutiva, seja por nascimento ou por algum tipo de emasculação, para os povos do passado, um eunuco se caracterizava essencialmente pela ausência de desejo sexual por pessoas do sexo oposto.

O mito Sumério da criação do eunuco diz que eles foram criados especificamente para não sentir desejo por mulheres; Asushunamir, o eunuco que vai para o reino dos mortos em missão de resgate da deusa Isthar, precisa ser imune à sedução da rainha do submundo, que mantém a deusa do amor prisioneira.

Clemente de Alexandria, comentando a respeito das crenças gnósticas dos adeptos de Basilides (Em Stromata) menciona a versão gnóstica do discurso de Jesus em Mateus 19: “Alguns homens, desde o nascimento, têm a natureza que os impele a afastar-se das mulheres, e deste modo fazem bem em não se casar. São os eunucos de nascença.’’

Em outras palavras, o eunuco de nascença não era necessariamente um homem estéril biologicamente; apenas era relativamente estéril, porque incapaz de sentir desejo por mulher.

Isso tem cabimento?

De acordo com o Sumário de direito romano, codificado por Justiniano, e reunindo os principais peritos da legislação romana (Papiniano, Ulpiano, Paulus e Juliano), a definição geral de eunuco engloba o “eunuco de nascimento’’ e faz distinção entre os eunucos castrados e os não castrados.

A lei romana prevê a possibilidade de um eunuco “não castrado’’ casar-se com uma mulher e consumar o casamento, restringindo o direito de casar de um eunuco castrado. O eunuco castrado não pode casar porque não pode procriar. O eunuco não castrado pode casar porque pode procriar.

Considerando ainda o termo “doença’’ uma condição natural física que prejudicava o uso do corpo para os fins aos quais ele se destinava, Ulpiano pondera que a situação dos eunucos naturais procriadores não condizia com a definição de doença, já que alguns eram capazes de procriar.

O direito romano reconhece que “eunuco’’ é um termo genérico, aplicado a diversos tipos de pessoas, inclusive homens que podem procriar, portanto.

O jurista Paulus confirma, por outro lado, que se alguém é um eunuco e lhe faltam os órgãos necessários para procriar, ainda que “internamente’’ então ele é incapacitado, um doente.

Nem todo homem que se engajava em sexo homossexual foi reconhecido como eunuco; há uma boa razão para isso.

A bissexualidade era mais amplamente aceita socialmente; a pederastia caracterizava-se como relação homofílica passageira e tinha aspecto transgeracional, e mesmo o “amor pelos meninos’’ foi alvo de intolerância e hostilidades. O pederasta não perdia o estatus de homem, a não ser de modo temporário, quando era Catamito e passivo.

Homossexuais exclusivos, naturalmente, não se encaixavam no estereótipo de gênero masculino naquela época.

Ser eunuco não era exatamente uma vantagem, embora não fosse crime; numa sociedade patriarcalista e misógina, que valorizava o poder do gênero masculino e a fertilidade, é compreensível o interesse de alguns eunucos pelo casamento heterossexual. O poderoso senhor do atraente José do Egito, Potifar, é um exemplo. O desejo licencioso da esposa de Potifar é sintomático e revelador, aliás.

Quem nunca ouviu falar em gays que se casam com mulheres para fugir do estigma social? E de mulheres de gays que se ressentem da falta de desejo dos maridos?

Dito isto, vamos examinar o contra argumento literalista que sugere que em todos os casos, um eunuco é ou um homem castrado, ou um homem estéril de nascença, ou um celibatário (alguém que escolheu manter-se casto).

Malik destaca o comentário do sumeriano Manual de Summa Alu (2500 antes de cristo) de prognósticos místicos: “Se um homem tem relações sexuais com um assinu (eunuco, prostituto sagrado), ao longo de um ano todas as suas aflições irão desaparecer’’;

Eliano, Orador grego do século terceiro, em “Histórias diversas’’ faz referência a um rei persa apaixonado por um lindo eunuco morto recentemente; Quintius Curtius informa que Dario tinha 365 concubinas, e Alexandre magno dispunha do mesmo número, contando ainda com um efetivo de eunucos, que “eram usados como as mulheres’’ (Curtius fala ainda da paixão de Alexandre pelo Eunuco Bagoas, que ganhou o respeito do rei oferecendo-lhe seu corpo para sexo); O historiador judeu Flávio josefo diz que Herodes teve muitos problemas por causa de um eunuco por quem ele era muito apaixonado por conta de sua beleza (Antiguidades judaicas); Suetônio deixa-nos saber a futrica sobre o imperador Tito, acusando-o de deleitar-se em excessiva luxúria com seus eunucos; o astrólogo do século quarto, Firmicus Maternus, descreve a luxúria de eunucos que desempenham o papel passivo no sexo.

Recapitulando, eunucos naturais eram fisicamente perfeitos (capazes de procriar), eunucos transavam com homens, eunucos não tinham interesse em mulheres.

Precisa mais de que para confrontar-se com a realidade de que “eunuco’’ foi uma denominação genérica que incluía pessoas homossexuais?

Voltando à questão inicial do debate, se as pessoas exclusivamente homossexuais eram consideradas um tipo de “eunuco’’ (existem documentos rabínicos que mencionam também a “mulher eunuco’’, o protótipo da lésbica machona), se o eunuco é uma criação de Deus (porque nasceu eunuco), se o eunuco não está apto para o casamento heteronormativo (porque é relativamente impotente e desinteressado do sexo oposto) para quem a Bíblia está dirigindo as suas reprovações e admoestações antigay em Levítico e outras escrituras?

De acordo com o professor John Boswell, para os heterossexuais.

Faz sentido.

O texto sumeriano do Manual de Summa Alu parece confirmar que o sexo homoerótico era proibido em alguns contextos e liberado em outras situações. O sexo entre um “homem’’ e um “eunuco’’ não era punido. Se um indivíduo considerado “homem’’ (naturalmente inclinado para as mulheres) relaciona-se com outro “homem’’ (sendo o passivo, por exemplo) havia o interdito.

O argumento de Boswell é que a Bíblia repudia a afeminação não natural nos homens heterossexuais, o sexo homossexual com prostitutos sagrados e a disposição de alguns heterossexuais para a luxúria ocasional com o mesmo sexo.

Entretanto, os apologetas literalistas rebatem questionando sobre qual é o sentido de se afirmar que Deus proíbe um pecado em uma circunstância e permite o mesmo pecado noutra?

Ora, Deus também proíbe a mentira e ainda assim induziu profetas a mentir e enganar o rei Acabe de Israel (“E disse o SENHOR: Quem induzirá Acabe, para que suba, e caia em Ramote de Gileade?’’; 1, Reis 22).

A Bíblia afirma, porém, que diante de Deus os eunucos podem encontrar graça e favor.

“Não fale o estrangeiro que se houver chegado ao SENHOR, dizendo: O SENHOR, com efeito, me separará do seu povo; nem tampouco diga o eunuco: Eis que eu sou uma árvore seca.

Porque assim diz o SENHOR: Aos eunucos que guardam os meus sábados, escolhem aquilo que me agrada e abraçam a minha aliança; Darei na minha casa e dentro dos meus muros, um memorial e um nome melhor do que filhos e filhas; um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará.’’ (Isaías 56)

A promessa de Deus para os eunucos em Isaías é auspiciosa e sugestiva em termos de salvação; afinal em Deuteronômio 23 está escrito que alguém com defeito nos testículos ou fisicamente castrado não entrará na congregação do senhor. Mais uma vez um indicativo de que a Bíblia fala diretamente para os “nascidos eunucos sem defeitos físicos que impedem a procriação’’.

Termino este texto com uma frase transcrita do Carmina Burana no livro “Cristianismo, tolerância social e homossexualidade’’ do professor Boswell:

“Love is not a crime; if it were a crime to love,

God would not have bound even the divine with love.’’


Sobre o autor

Walter Silva é ativista LGBT (assim o reconhecemos, dada a qualidade do material acima) e mora em mora em Belém (Paraíba).

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Entrevista polêmica com Paulo Stekel para o blogue Entrevistas & Debates

Por Espiritualidade Inclusiva (cfe. postado originalmente em http://blogentrevistas.blogspot.com.br/2012/06/paulo-stekel.html)


Nota de Espiritualidade Inclusiva: A entrevista foi concedida por Paulo Stekel à jornalista Sophia Sheimberg, do blogue "Entrevistas & Debates". Sua repercussão está valendo um debate entre Stekel e o autor do blogue "Críticas & Pensamentos", Hallison Liberato, que tem posicionamento oposto quanto aos LGBT. O debate irá ao ar nos próximos dias.

Paulo Stekel

Nome: Paulo Stekel
Blog:
http://espiritualidadeinclusiva.blogspot.com
Religião: Budismo
Profissão: Músico, escritor, jornalista, prof. de línguas sagradas
Ideologia: Democrática


Introdução: Por Paulo Stekel

Paulo Stekel é escritor sobre espiritualidade, poliglota especializado em línguas antigas e sagradas, jornalista e músico. Paulo tem como principal atividade a música, sendo músico dos estilos new age/ambient/eletrônico. Nasceu em Santa Maria (Rio Grande de Sul - Brasil), em 1970. Filho de músico, começou a cantar aos 05 anos. De 1985 a 2005, Stekel voltou-se para outras áreas: literatura, jornalismo, línguas antigas.

Em 2005, ano em que morou em Brasília (DF), Stekel estudou canto tenor e sentiu que este era o momento de transformar tudo o que pesquisara por 20 anos em um trabalho "artístico-curativo" ou, então, de "entretenimento relaxante". Pensou em, aos poucos, aliar vários estilos da música eletrônica (New Age, Ambient, Trance, Progressive, Relax, etc.) a dois conceitos novos: o da música canalizada por inspiração e o da codificação de mantras hebraicos da Cabala e também de outras línguas sagradas (Latim, Sânscrito) em música. No caso dos mantras codificados, utilizaria as relações das letras sagradas com as notas musicais da escala cromática.

Em 2008, Stekel iniciou o projeto do primeiro álbum, "Qadosh". De lá para cá, produziu oito álbuns e mais de dezenas de singles, além de algumas trilhas sonoras para sites, blogues e web-séries.

Álbuns lançados: Qadosh (Música canalizada & Mantras codificados) – 2008; Galaktika (an internal space travel) – 2009; Fluindo Reiki... Natureza – 2010; Fluindo Reiki... Mantras – 2010;  Stekel (remixes & new song 2010) – 2010; Sacred Voices – 2010; The Planets (for XXIst Century) – 2011; Indigo (Cosmic Sounds for Activation) – 2011.

Além do trabalho musical, Stekel também escreveu nove livros sobre Cabala, línguas sagradas e espiritualidade: Curso de Cabala (2 volumes); Curso de Sânscrito (2 volumes); Elohê Israel – Filosofia Esotérica na Bíblia; Projeto Aurora – retorno a linguagem da consciência; Santo e Profano – Estudo Etimológico das Línguas Sagradas; Deuses e Demônios – verdades inauditas e mentiras anunciadas sobre os anjos; A Alma da Palavra.

Stekel também é ativista LGBT, tendo escrito mais de 60 artigos sobre o tema, especialmente envolvendo espiritualidade, religião e homofobia religiosa. Foi o autor da coluna “Impressões da Diversidade” no blogue “Gay Expression”. Tem 41 anos, vive em união estável há dez anos e é residente da cidade Canoas – RS.

Os artigos escritos por Paulo Stekel giram em torno da sexualidade e da religião, aliando experiências de sua vida visando promover a desconstrução dos velhos “clichês gays” que fazem com que as pessoas vejam os homossexuais como seres estranhos e não como seres humanos normais. Seus textos, a partir de um olhar crítico, geram percepções sobre a liberdade de expressão sexual, a vida diversa dos gays e sua relação com religião, ciência, política, arte, vida social e direitos humanos.

Atualmente administra e escreve para o blogue “Espiritualidade Inclusiva” e é o proponente e coordenador geral do Movimento Espiritualidade Inclusiva, criado em 2011.

BLOG / SITE / IDEIAS / IDEOLOGIA

Só se forem religiosos para serem considerados fundamentalistas


Qual o objetivo do seu blog?

O blogue http://espiritualidadeinclusiva.blogspot.com é o principal canal de comunicação do Movimento Espiritualidade Inclusiva com o mundo. Visa apresentar artigos sobre visão inclusiva nas diversas formas de espiritualidade; denúncias de preconceito religioso e fundamentalista contra LGBTs; dicas de blogues, sites, filmes e documentários; tradução de artigos; divulgação de eventos LGBT e os inclusivos; notícias do mundo LGBT; decisões legislativas e debates políticos relativos aos direitos LGBT; temas culturais relevantes.

Os gays se tornaram fundamentalistas?

Não. Só se forem religiosos para serem considerados fundamentalistas, o que não é o caso. Afinal, como escrevi em um artigo, o termo “fundamentalismo” se refere a movimentos (religiosos, ideológicos, políticos, econômicos, étnicos, etc.) cujos adeptos aderem de modo muito estrito aos princípios fundamentais. De modo pejorativo, o termo muitas vezes se refere a grupos religiosos intransigentes quanto aos princípios de suas fés ou a movimentos étnicos extremistas com motivações ou inspirações apenas nominalmente religiosas. No caso, os gays podem pertencer a quaisquer religiões, ideologias, partidos políticos, visões econômicas, grupos étnicos, etc. O “ser gay” em si não tem a ver com “princípios fundamentais” porque não é uma ideologia ou crença. Se é gay, e pronto. Então, não podemos dizer que os gays tenham se tornado fundamentalistas no sentido de serem gays. Gays são seres humanos, e isto está acima de qualquer fundameno, fundamentalismo ou ideologia. Todos merecem o mesmo respeito.

Por que chamar quem não concorda com o comportamento homossexual de homofóbico?

Não se pode “concordar” com algo ou “discordar” de algo que não constitui uma crença ou ideologia, mas simplesmente o como alguém é em seu íntimo. Um ser humano é muito mais do que seu comportamento sexual, seja hétero, homo ou bissexual. Reduzi-lo a sua sexualidade para inferiorizá-lo é uma atitude igual ao que padeceram as mulheres e os negros no passado recente. Considerando que homofobia é uma aversão, um ódio e uma intolerância a LGBTs que vem a se manifestar através da violência moral ou física contra esta minoria (cerca de 10 a 20% da humanidade), quem manifesta tal aversão, ódio ou intolerância que extrapola um simples “pensar” e exterioriza-se em atos de inferiorização, deve muito corretamente ser considerado “homofóbico”.

O que caracteriza alguém como homofóbico?

Como disse antes, quando a coisa extrapola o simples “pensar sobre”. Comparemos: todos sabemos que a lei anti-racismo impede que qualquer pessoa manifeste racismo abertamente. É crime inafiançável. Contudo, a lei não legisla sobre o pensamento íntimo de cada um. Há pessoas racistas em seu íntimo que, por não manifestarem isso publicamente e de modo a atentar contra a dignidade dos negros, não podem ser enquadradas na lei. Ou seja, a lei anti-racismo não acabou com os pensamentos racistas, embora coíba ações racistas. Com a homofobia é a mesma coisa, com a diferença de que ainda não temos uma lei anti-homofobia. Um homofóbico é alguém que não apenas pensa de modo aversivo com relação a homossexuais, mas que leva essa aversão a atos contra homossexuais. Este é o parâmetro para definirmos um homofóbico.

Vivemos num país livre. Criticar o comportamento homossexual faz parte dessa liberdade no seu ponto de vista?

Se a lei permitir criticar o “comportamento” heterossexual na mesma base, sim. Haverá uma polarização, e aí é que reside o perigo. Não podemos pensar que se tem todo o direito de criticar “comportamentos” não heteronormativos, mas ao criticarmos a própria heteronormatividade sermos acusados ignorantemente de estarmos tentando impôr nossa condição a outros. A homossexualidade, muito mais que um “comportamento”, é uma orientação. Não é opção, decisão consciente nem algo que se possa “curar”. É tão natural quanto a heterossexualidade.


SOCIEDADE / EDUCAÇÃO / CULTURA

Não existiu um projeto denominado “kit gay”. Este nome foi alcunhado de forma cafajeste pelos opositores cristãos fundamentalistas, os covardes membros da bancada evangélica


Há pouco tempo houve um projeto denominado “kit gay” que colocava material de apologia gay dentro de sala de aula para o público infanto-juvenil. Qual a sua opinião sobre esse material?

Não existiu um projeto denominado “kit gay”. Este nome foi alcunhado de forma cafajeste pelos opositores cristãos fundamentalistas, os covardes membros da bancada evangélica, a mesma que chafurda na lama com denúncias de corrupção, já que dizem ser de Deus, mas aliam-se ao Diabo na política corrupta de nosso país. O objetivo original do projeto era o de incluir os LGBT no ambiente escolar, onde são frequentemente vítimas de homofobia e bullying, com a consequente evasão escolar. Para isso, os alunos e professores deveriam conhecer os “diferentes”, os diversos da heteronormatividade corrente. Sem conhecê-los, não há como sequer respeitá-los, quanto mais incluí-los com todos os direitos de qualquer cidadão heterossexual. Portanto, não houve apologia alguma. Esta interpretação errônea foi criada pelos opositores do projeto.

Há preconceito contra o homossexual hoje no Brasil? Explique.

Se não houvesse preconceito contra o homossexual e todos os membros da comunidade LGBT no Brasil, os 112 direitos básicos que lhes são negados já teriam sido corrigidos, entre eles: não podem casar no civil; não adotam sobrenome do parceiro; não somam renda para alugar imóvel; não participam de programas do Estado vinculados à família; não têm a impenhorabilidade do imóvel em que o casal reside; não têm garantia de pensão alimentícia em caso de separação; não têm garantia à metade dos bens em caso de separação; não adotam filhos em conjunto e não podem adotar o filho do parceiro; não podem ser inventariantes do parceiro falecido; não têm garantida a permanência no lar quando o parceiro morre; não acompanham a parceira no parto; não podem ser curadores do parceiro declarado judicialmente incapaz; não podem declarar parceiro como dependente do Imposto de Renda; não têm suas ações legais julgadas pelas varas de família; não têm direito de converter união estável em casamento; não têm direito a assistência alimentar; não têm direito a pedir o afastamento temporário do companheiro da moradia do casal; não têm direito de eximir-se da obrigação de depor como testemunha contra o companheiro; não tem direito a não produzir prova contra o companheiro militar; entre outros. Atualmente, alguns destes direitos vem sendo assegurados na justiça e não por lei!

Fora isso, se não houvesse preconceito contra o homossexual no Brasil, a quantidade de assassinatos cometidos contra LGBTs em nosso país não teriam o requinte de crueldade que vemos, frequentemente com referências à sexualidade da vítima. A cultura do preconceito contra gays está arraigada na sociedade brasileira de um modo tal que parece perfeitamente normal fazer chacota, malhar, fazer piadas, denegrir a imagem e rebaixar a dignidade dos mesmos sem nem se perceber. O mesmo se fazia com os negros desde o período colonial, só tendo sido relativamente coibido a partir da lei anti-racismo. O mesmo se fazia com as mulheres até bem pouco tempo. Os gays, agora, parecem sofrer um preconceito que é um misto de racismo e misoginia, pois são considerados inferiores (como os misóginos consideram as mulheres) e uma categoria abaixo dos “normais” heterossexuais (como os racistas consideram os negros do ponto de vista étnico-racial).

Um dos entrevistados do meu blog escreveu sobre o “ismo” no final de uma palavra demonstrando que a palavra terminada em “ismo” não se trata, necessariamente, de doença e eu concordei com ele. Em várias partes do seu blog encontrei a palavra “cristianismo”. Se homossexualismo é doença, dizer que os religiosos se encaixam no cristianismo não seria também uma forma de preconceito?

Isso é desconhecer a Língua Portuguesa, o que é deplorável num país em que a educação claudica e se definha cada vez mais. O sufixo nominal “-ismo” serve para denominar doutrina, escola, teoria, sistema, modo de proceder ou pensar, ação: socialismo, capitalismo, comunismo, romantismo, ostracismo, realismo, anarquismo, terrorismo, exorcismo, homossexualismo. Então, o termo “homossexualismo” refere-se a uma ação e, assim, foi considerado doença pela antiga Psiquiatria, pois se referia à ação de se fazer sexo com alguém igual, isto é, do mesmo sexo. Pela mesma lógica, “cristianismo” é a ação de se fazer parte de uma doutrina religiosa que tem Cristo como o centro. Simples!

A cultura brasileira expressa que o homossexual é promíscuo. As paradas gays que ocorrem no Brasil e que são o maior meio de visibilidade dos homossexuais confirmam essa visão do brasileiro, basta procurar no youtube e no google. No carnaval a libertinagem é geral, tanto com homossexuais como heterossexuais. Os mesmos setores que criticam a devassidão no carnaval criticam também a devassidão nas paradas gays. Por que tentar mudar essa visão de parte da sociedade se é essa visão que os homossexuais oferecem a eles?

Como você mesmo evidenciou, se no Carnaval a libertinagem é geral, tanto com homossexuais como heterossexuais, a quem se deve atribuir a promiscuidade? A todos os seres humanos, sejam gays ou héteros? Se for assim, afirmar que homossexuais são promíscuos é um sofisma terrível. Da mesma forma, quem se prostitui nas ruas? Alguns heterossexuais e alguns homossexuais. Seria certo, neste caso, dizer que os seres humanos se prostituem ou nos referimos a alguns deles? Assim, podemos dizer que no universo homossexual há um pouco de tudo o que existe no universo heterossexual, e que generalizar apenas para o universo homossexual demonstra, ou ignorância, ou má intenção.

Se uma parcela de homossexuais vai às paradas gays, uma parcela muuuito maior não vai, e não se encaixa na proposta delas. A despeito de divergências entre os dois grupos, o que fica evidente é que toda a generalização é burra. A tendência de todo o moralismo é generalizar burramente!

Então, os homossexuais não são promíscuos, assim como os heterossexuais não são promíscuos. Mas, alguns homossexuais são promíscuos tanto quanto alguns heterossexuais o são.

Jair Bolsonaro lutou muito contra a aprovação da PL122 expondo todos os aspectos desse projeto de lei. Por que os gays querem uma lei específica se já se beneficiam das leis existentes como todo cidadão brasileiro?

Se nos beneficiássemos das leis existentes os 112 direitos que nos são negados estariam à nossa disposição sem precisarmos entrar na justiça e rezarmos para o processo não cair num juiz preconceituoso e fundamentalista. O mesmo disseram para os negros antes da lei anti-racismo, que também é uma lei específica e, hoje, contestada por quase ninguém, salvo os racistas. Por isso, precisamos de uma lei específica como a lei anti-racismo, a lei Maria da Penha, entre outras leis específicas de nossa legislação.

O Estado brasileiro é laico, mas não é ateu. Você concorda com a presença de religiosos na política brasileira?

O Estado brasileiro ser laico significa não ser nem teísta nem ateu. Significa simplesmente que o Estado não interfere na religiosidade de seus cidadãos, mas também não permite que a religião interfira no Estado, que deve governar para TODOS os cidadãos, independente da religião deles, ou do fato de não terem religião alguma, como no caso dos ateus. Neste caso, a política brasileira pode ter pessoas de quaisquer religiões ou de nenhuma, mas o que deve pautar as decisões políticas é o laicismo de estado (governar para todos) e a declaração dos direitos humanos.

Você concorda que toda sociedade precisa de moralidade?

Concordo, desde que possamos dar a chance da sociedade escolher sua moral de modo equânime. Por que devemos escolher uma moral especificamente cristã num país com diversas religiões? Concordo, desde que cada cidadão possa escolher sua moral – e, o faz, na base da liberdade religiosa constitucional -, mas sem impô-la a um outro cidadão por quaisquer meios, principalmente quando este professa outra religião ou nenhuma (no caso dos ateus), pois isso acaba com o princípio da isonomia e esfacela o estado laico. Portanto, moralidade impositiva, jamais!

A AIDS, desde o seu início, tem maior percentual de infecção nos gays. No Brasil, há campanhas direcionadas exclusivamente aos homossexuais. Há inclusive teorias que afirmam que os gays foram os disseminadores da doença como a vemos. O meio homossexual é um grupo de risco, embora o governo tenha retirado essa nomeação de “grupo de risco”?

O governo é quem teria que responder a essa pergunta, já que a arcaica noção de “grupo de risco” continua sendo apresentada mesmo após ter ficado claro que o que existem são “comportamentos de risco”, abrangendo heterossexuais, bissexuais e homossexuais.

Uganda, na África, é o país mais bem sucedido no combate à AIDS adotando uma política contra o homossexualismo e pela monogamia. Qual a sua opinião a respeito?

A pergunta foi mal-formulada e pode ser entendida como tendendo a levar a um sofisma quase nazistoide. Não foi o ataque aos gays em Uganda que diminuiu a infecção pelo HIV em Uganda e isso não é reconhecido pela Organização Mundial de Saúde. Esta mentira vil e tem sido afirmada pelos missionários cristãos e pelo governo daquele país há tempos e foi comprada em sua totalidade pelos missionários fundamentalistas brasileiros. Não esqueçamos que este país pretendeu varrer os gays de seu território do mesmo modo que Hitler quis varrer os judeus da face da terra por julgá-los responsáveis por tudo de ruim que a Alemanha passava na sua época. Além disso, monogamia não é garantia de não infecção, e é um juízo moral. Por que a infecção não é maior em países onde se adota a poligamia, como em repúblicas islâmicas?


RELIGIÃO

Jesus não ataca homossexuais em momento algum


Silas Malafaia é um grande combatente do movimento homossexual e com isso adquiriu mais admiradores e pessoas que se juntaram à sua causa contra os LGBT’s. Segundo ele, não faz críticas a pessoas envolvidas com a prática, mas a prática que envolve os gays. Toni Reis, um dos líderes do movimento homossexual o processou por criticar o movimento homossexual, no entanto, vemos gays abusarem da imagem da Igreja Católica como no exemplo da parada gay em São Paulo. Por que os gays podem criticar a religião mas a religião não pode criticar o homossexualismo?

Se a religião não estivesse podendo nos criticar, Malafaia já estaria preso há muito tempo. Os fundamentalistas deitam e rolam na crítica aos gays e o judiciário brasileiro é conivente com isso. A prova de que estão, sim, podendo criticar os LGBT à vontade sem qualquer ação em contrário do judiciário é exatamente o uso de imagens católicas na parada gay de São Paulo. Como assim? Simples e pérfido: o judiciário faz vistas grossas aos ataques que as comunidade LGBT recebe todos os dias de parte de pessoas como Malafaia, Bolsonaro, etc. Os organizadores LGBT da parada de São Paulo (não são o todo da comunidade LGBT) resolveram dar o troco para ver o que o judiciário faria. O que o judiciário fez? Simples, não quis cair na armadilha. Pois, se o judiciário se pronunciasse contra o que ocorreu na parada de São Paulo, estaria reconhecendo o embate e a coisa ia ficar mais feia, mas também mais equânime, com os dois lados podendo agora lutar na justiça em pé de igualdade. Poucos perceberam este detalhe “sutil”.

Há pouco tempo os gays perderam uma grande batalha que travaram contra o Pastor Silas Malafaia quando ele disse que a Igreja Católica tinha que descer de pau em cima dos homossexuais que profanaram as imagens sacras. O juiz que assinou o arquivamento do processo fez, inclusive, diversas críticas ao movimento homossexual dizendo até que quem deveria ser processado era quem profanou tais imagens. Qual a sua opinião a respeito?

Isso é a prova do que disse na resposta anterior: o juiz preferiu arquivar o processo contra Malafaia do mesmo modo que nenhum juiz se pronunciou em sentença contra o episódio das imagens católicas na parada gay de São Paulo. Na verdade, o judiciário está percebendo a palhaçada de Malafaia e dos seus, e está evitando dar pareceres definitivos para um dos lados, pois quando isso ocorrer, a coisa vai ficar muito feia, inclusive fora do Brasil, pois a imagem do país vai ser influenciada pela decisão. Ou o judiciário finalmente se pronuncia, ou equívocos dos dois lados vão continuar existindo.

Por que tentar fazer parte de um setor social (o cristianismo) que historicamente não aceita gays em suas fileiras? Não é uma maneira de forjar uma perseguição, já que outros grupos como comunistas na Igreja Católica (por exemplo) que são excomungados ou até mesmo quem não se coadune às regras que são necessárias aquele grupo?

Num país laico as pessoas têm o direito constitucional de pertencer a qualquer religião ou a nenhuma. Também têm o direito de que não se lhes exija nenhuma condição a mais por ser homossexual do que as que são exigidas de um heterossexual. Gays que querem ser cristãos estão no seu direito e, geralmente, atribuem o preconceito cristão aos cristãos, não à doutrina em si, que julgam mal-interpretada. Eu, particularmente, sou budista, e não tenho problemas em ser budista e gay, porque o Budismo não é uma religião que exclui LGBTs de suas fileiras. Já, o Movimento Espiritualidade Inclusiva é um movimento social que não apoia uma religião em particular em detrimento das demais. Não é um movimento cristão. É um movimento social laico que busca a inclusividade de todos no meio religioso de acordo com as bases de um Estado Laico.

Você diz em seu blog que se o Levítico fosse seguido à risca muita coisa precisaria ser mudada. No entanto, não vi você comentar que após o Levítico vieram outros profetas que modificaram algumas leis aplicadas aos hebreus, aliviando umas e endurecendo outras. Na cultura judaica há também o ensinamento oral, ou seja, a tradição. O homossexual está em pecado em todas elas. Por que criar uma interpretação diferente de uma interpretação que vem sendo feita há milhares de anos? Será que todos os profetas e rabinos, desde os tempos primeiros do judaísmo (milhares de anos) estão errados e alguns homossexuais que interpretaram agora estão certos?

Pois é. Algumas leis foram modificadas e outras não. Qual o critério? Critério de Deus ou critério dos homens? O ponto pacífico é que as religiões mudam, as prescrições religiosas mudam, e nada é tão estanque quanto se quer fazer parecer. Jesus não ataca homossexuais em momento algum, mesmo porque o termo “homossexual” é moderno. Naquela época não havia a noção da existência de orientações sexuais. Se pensava de modo reto em apenas uma versão de sexualidade, que é a macho-fêmea, homem-mulher. Não podemos culpar os antigos pelo desconhecimento, mas não podemos continuar em ignorância quando passamos a conhecer a realidade e a diversidade da formação da identidade sexual, da orientação e do gênero, conforme se tem demonstrado por inúmeras pesquisas científicas. Não se trata de quem está certo e quem está errado. Certa é a ciência à medida que vai desvendando os mistérios da sexualidade que os antigos sequer sonharam, embora se dessem na antiguidade às mesmas variações sexuais que nos damos hoje...

O Papa fala para os católicos. Os pastores falam para os evangélicos. Os rabinos falam para os judeus. Nenhum deles diz: “Saiam na rua e espanquem os homossexuais”. Pelo contrário, pedem orações por todos. Por que provoca-los dizendo que Cristo era homossexual se não há um só relato sobre práticas homossexuais em Jesus?

A rigor, não há provas históricas incontestáveis da existência nem de Jesus, nem do Buda, nem de Maomé, nem de Krishna, nem de Moisés. O que leva as religiões adiante é a fé dos praticantes, não uma suposta realidade histórica. Aí está todo o poder da religião, e vemos isso positivamente. Então, falar da sexualidade de figuras sobre as quais nem temos dados históricos suficientes é, realmente, uma provocação. No Movimento Espiritualidade Inclusiva não vemos as coisas desta forma no caso de Jesus. Contudo, há indícios de homossexualidade na Bíblia, em especial no caso de Davi e Jônatas, o que já foi pesquisado por inúmeros teólogos pró e contra.

O cristão Julio Severo teve sua família ameaçada por militantes homossexuais e teve que se exilar do Brasil. Não é uma prova da intolerância homossexual?

Se fosse verdade, seria prova do poder homossexual! E, se tal poder existisse, a tal ponto, nossos 112 direitos básicos negados já teriam sido conquistados. Mas, não é o caso. Ademais, se Julio Severo é cristão de carteirinha (sendo ateu!), Madonna é uma vestal!

A teosofia que você defende no seu blog está historicamente ligada ao controle de natalidade. Os homossexuais não podem estar sendo usados como um meio para a disseminação dos ideais da teosofia?

Não defendemos a Teosofia em nosso blogue. Pelo contrário, em alguns textos nossos a Sociedade Teosófica, que divulga o conceito de “teosofia” (sabedoria divina), é duramente criticada por ser elitista e sutilmente homofóbica. Então, como a Sociedade Teosófica não encara a questão homossexual de frente, mas põe isso para debaixo do tapete, é insensato imaginar que os gays sejam usados como meio para disseminar a Teosofia. (Risos)

O primeiro mandamento que Deus deu ao homem foi o de se multiplicar e encher a Terra, mandamento defendido por Cristo Jesus. Como você, enquanto homossexual que pertence a uma religião inclusiva pode se multiplicar? (note que “multiplicar-se” não se refere à adoção)

Não pertenço a nenhuma Igreja ou religião inclusiva. Os membros do Movimento Espiritualidade Inclusiva em particular são de várias religiões: Cristianismo, Espiritismo, Budismo, Umbanda, Judaísmo, Wicca, Paganismo, etc. Há ateus humanistas também.

Quanto a como eu e os demais homossexuais podemos nos “multiplicar”, a resposta é muito simples: a não ser que um homossexual seja estéril, ele pode se “multiplicar” como bem entender. Em geral, gays e lésbicas possuem a mesma taxa de fertilidade que heterossexuais. Então, não vejo problemas com a reprodução. Conheço vários casos de homens gays que tiveram filhos com amigas lésbicas e cuidam muito bem dos mesmos, sem que isso seja um problema. Conheço lésbicas que tiveram filhos por inseminação artificial e, mais uma vez, isso não foi um problema. Enfim, com estes casos vemos que mesmo sendo gays continuamos “multiplicando” outros seres humanos. Seres humanos, aliás, que não são necessariamente gays também. As pesquisas mostram que a taxa de homossexualidade entre filhos gerados por gays ainda é de 10 a 20%, como no caso de crianças geradas por casais heterossexuais.

Se algum entrevistado aceitar um debate, você estaria disposto a defender seu ponto de vista?

Faço isso todos os dias por conta do blogue e do Movimento Espiritualidade Inclusiva. Debato sempre com argumentos e na base do respeito, sem termos chulos ou generalizações. A honestidade dos próprios argumentos residem em nunca perder a calma ou a oportunidade de esclarecer. Quando o outro debatedor descamba para as ofensas, significa que já jogou a toalha e acabaram-se os argumentos. Então, nestas bases, aceito debater com qualquer pessoa.

Deixe uma mensagem para as pessoas que você considera homofóbicas.

Caros homofóbicos. Se estamos de modo tão profundo sempre nas mentes de vocês, é porque não conseguem dormir sem resolver o que representamos para vocês. Se nossos direitos incomodam vocês, é porque, mesmo tendo todos os direitos que não temos, ainda não se sentem livres e felizes. Então, resolvam-se primeiro, e o resto se solucionará por conta. Amem-se, queiram-se, tenham coragem de ser homens e mulheres verdadeiramente religiosos (se for o caso) ou, pelo menos, cidadãos pró-equanimidade (no caso de ateus), que reconhecem que a felicidade vem de dentro e não de como os outros são ou como se comportam em suas intimidades. Boa sorte... Vão precisar!

A Bíblia é homofóbica?

Por João Marinho

Mesmo com a teologia inclusiva e supostas passagens pró-homossexualidade, não devemos maquiar a homofobia e demais preconceitos de certos textos bíblicos.

A revista Superinteressante mais recente traz, em sua capa, a manchete para um texto que nos apresenta a “Bíblia como nunca lemos” – e que traz à tona parte daquilo que os cristãos adoram empurrar para baixo do tapete: Deus mandando matar, relacionamentos sexuais incestuosos, estupros, guerras sangrentas, etc.

Uma parte faz referência à homossexualidade e mesmo à abordagem de que havia relacionamentos homossexuais no texto sagrado que não sofreram condenação, mas louvor. Refiro-me aqui a Davi e Jônatas.

Sei que o tema não é consensual, mas, mesmo levando em conta o aspecto cultural e histórico, é impossível não observar que havia algo de especial entre esses dois personagens meio míticos, meio históricos (se não, totalmente míticos).

No entanto, será que, pelo fato de a Bíblia (supostamente) falar favoravelmente a certos aspectos da homossexualidade, isso é suficiente?

Houve um debate numa lista de discussão de militância LGBT da qual participo, e eu tomo a liberdade de divulgar, em forma de artigo, um comentário que fiz a um dos participantes sobre o porquê de minha resposta a essa pergunta ser não – e por que, a despeito da teologia inclusiva, permaneço longe da Bíblia e do retrato da divindade que ela apresenta, ainda que seja o retrato da T.I., que admite a homossexualidade a cristãos.

Questão de escolha

Na verdade, a questão do embate entre as diferentes formas de teologia inclusiva e as vertentes mais conservadoras, para mim, é mais profunda do que escolher um lado ou outro.

Mesmo que fosse, o que não é, consensual de que haveria um relacionamento gay entre Davi e Jônatas e que o autor, ou os autores da história, isso admirasse(m), é fato também de que, não à toa, ele, ou eles, teve (tiveram) de maquiá-la. Não fosse assim, haveria pouco ou nenhum espaço para o contraditório a respeito da relação entre os personagens.

Agora, porém, assumamos que realmente tenha havido um relacionamento gay entre Davi e Jônatas, que a história contada seja essa – uma homofilia bíblica, em vez de seu oposto, a homofobia. Isso descartaria a existência da mesma homofobia na Bíblia?

Minha resposta: evidentemente que não. Essa homofobia está lá, clara, exuberante e palpável na “Palavra”.

Não é porque os livros de Samuel, Reis e Crônicas exaltam o relacionamento entre Davi e Jônatas e ambos trocaram declarações carinhosas que o Levítico e suas injunções a certas práticas homoeróticas deixam de existir.

Não é porque Rute fez a Noemi uma declaração maravilhosa de amor, que é ouvida em certos casamentos sem que muitos saibam que foi de uma mulher a outra, que Josafá deixou de expulsar os homens efeminados da terra, se optarmos pela tradução de Almeida.

Não é porque o centurião (supostamente) tinha um caso com seu servo e Jesus nada condenou, curando o segundo, que Paulo deixou de se levantar contra, pelo menos, certas categorias de relacionamentos homossexuais.

As nem tão novas interpretações teológicas inclusivas, cujas bases remetem a antes dos anos 1950, trouxeram de bom o fato de que a Bíblia não é, ou talvez não seja, toda homofóbica classicamente falando, como os cristãos conservadores tanto gostam de retratá-la. No entanto, o exato oposto da posição desses conservadores, que é dizer que a Bíblia não é nada homofóbica, também é uma ilusão.

Mesmo as interpretações histórico-críticas mais avançadas nesse sentido concordam que, no mínimo, certas categorias de relações homoeróticas eram proibidas e/ou malvistas, notadamente as que se remetiam a contextos de prostituição e/ou paganismo, como no Levítico – e que, embora não fossem um mal em si mesmas, eram consideradas inadequadas (toevah).

Para os homossexuais, sobretudo os cristãos, claro que isso ameniza o problema – mas, para mim, não o resolve, à medida que permanece a condenação a certas práticas e a intolerância religiosa aos credos pagãos, muitos dos quais permanecem vivos ou se criaram posteriormente.

Dito de outra forma, do ponto de vista de uma alma libertária como a minha, há uma melhora, mas não uma cura – e isso é simplesmente insuficiente.

Eu jamais acharia que a Bíblia se tornou fantástica por exaltar os casamentos homossexuais estáveis, mas condenar ao inferno os garotos de programa, muitos dos quais são homossexuais como eu, apenas por serem prostitutos – ainda que não fossem homossexuais, como demonstram estudos que apontam erros de tradução e dizem que tais passagens se referem às prostitutas e prostitutos heterossexuais, porque, no fim, dá no mesmo: alguém vai para o inferno.

Jamais acharia que a Bíblia se tornou fantástica porque não apresenta Jesus condenando um centurião romano e seu moçoilo num relacionamento em moldes próximos ao da Grécia antiga, mas considera “toevah” um relacionamento gay dentro da Israel antiga.

No fim, isso é dizer, como sempre disse o cristianismo mais ferrenho, que uns são melhores que os outros, mesmo entre homossexuais. É “melhor” ser gay casado e “sério” do que garoto de programa ou prostituta, independentemente de ser ele ou ela hétero ou gay, sagrado (a) ou não. Também é “melhor” ser adepto da hebefilia do que um sacerdote de outra religião.

É mesmo essa a libertação que queremos? A liberdade de escolher entre “salvos” e “não salvos”, entre “melhores” e “piores”, entre “abençoados” e “condenados”? Levar para o céu os gays casados e condenar ao inferno os (as) prostitutos (as), quer seja tão-somente por venderem o corpo, quer seja por servirem a outros credos?

São essas reflexões que me mantêm afastado de todas as igrejas, mesmo as inclusivas, porque, afinal, eu não me contento com uma liberdade pela metade, com um respeito pela metade, com uma aceitação pela metade. Isso não confere com o que acredito ser o papel da divindade.

O que é producente, portanto, é tomar a Bíblia pelo que ela é: um livro histórico-religioso, com um sem-número de contradições, inclusive com relação à homossexualidade, e não a “Palavra de Deus” – e, finalmente, não dar uma de Alice (no País das Maravilhas) e levar em conta apenas uma de suas faces.

A Bíblia que (supostamente) exalta a relação gay do homem segundo o coração de Deus (Davi) e o mais velho Jônatas é a mesma que pode elogiar Josafá pela expulsão dos (as) prostitutos (as) sagrados (as) e que considera, no Levítico, uma coisa algo nojenta o sexo entre dois homens (toevah), embora não um mal em si (zimmah).

Julguem vocês mesmos.

Será que, na vida real, acharíamos “pior” lidar com um homofóbico que tem uma condenação espiritual permanente à homossexualidade do que um homofóbico do tipo “não tenho nada contra, mas tenho nojo”? No que um é exatamente melhor que o outro, se o nojo ou a condenação espiritual alimentam ambos a discriminação?

Então, por que vamos considerar a Bíblia diferentemente, apenas porque, no Levítico, ela não chama as relações homoeróticas de zimmah (maléficas, pecadoras), mas as chama de nojentas ou, pelo menos, inadequadas (toevah)?

Pior é dizer que ela, a Bíblia, não é homofóbica porque, afinal, ela não tem raiva e não condena a coisa em si (zimmah), “só tem nojo” (toevah)! Por favor... Isso é adotar para a Bíblia dois pesos e duas medidas que não empregamos nem para com seres humanos.

A questão de Deus e o papel sociopolítico dos inclusivos

Evidentemente, a questão de Deus, Deuses e da fé Neles não tem como ser resolvida facilmente, e, embora os cristãos mais fervorosos adorem dizer que “não acreditam em religião, acreditam em Deus”, a verdade é que a noção de divindade e a dimensão religiosa são indissociáveis em sua origem.

Mesmo que, posteriormente, uma pessoa opte por não seguir uma determinada religião como fiel, mas mantenha a fé em uma divindade, essa divindade terá as cores de algum credo ou soma de credos, seja o originário da pessoa, seja os que ela conheceu posteriormente e dos quais reuniu certos elementos.

Talvez descontado parcialmente o esforço de Aristóteles para definir Deus como o algo que movimenta o mundo, a causa primeira, uma causa não causada, a ideia de Deus é indissociável da herança religiosa. Na verdade, isso pode ser aplicado até ao filósofo grego, pois, se ele não houvesse recebido previamente alguma ideia do conceito do que é um Deus, por que teria dado àquela causa não causada justamente esse título?

Como pontuou sabiamente Alberto Caeiro, heterônimo do poeta Fernando Pessoa, “mas se Deus é as flores e as árvores e os montes e sol e o luar, então acredito nele, então acredito nele a toda a hora, e a minha vida é toda uma oração e uma missa, e uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos. Mas se Deus é as árvores e as flores e os montes e o luar e o sol, para que lhe chamo eu Deus?”.

Para além disso, no entanto, Deus (ou Deuses), para os que nele(s) creem, são tomados como realidade. O ateu não entende que o crente vive Deus como uma realidade palpável e, portanto, não entenderá o conceito de que Ele “não existe”, quando, para o crente, é existente.

A questão se essa realidade é ou não definitivamente palpável, se existe fora do olhar do sujeito, objetivamente, é mais difícil ainda de ser resolvida e remete a uma solução milenar que a filosofia busca e jamais encontrou. Será que a realidade existe fora do homem, só existe porque existe o homem, ou o que importa é o que o homem vê por meio da objetividade de uma redução eidética, como quer a fenomenologia? Como se vê, a coisa vai bem mais longe, e é a razão por que as discussões sobre a existência de Deus terminam em impasse.

Dito isso, não posso esperar que todos se tornem ateus apenas por serem LGBTs (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais), quando eu mesmo, por sinal, não sou.

Também sei que, para um bom número de pessoas, a dimensão religiosa reveste-se de extremada importância, de maneira que, se elas puderem viver sua sexualidade em harmonia com essa dimensão, tanto melhor – e, aqui, voltamos a falar da teologia inclusiva, que apoio sob uma perspectiva sociopolítica, reconhecendo exatamente o papel de benfeitora inegável que possui na vida dos cristãos que se descobrem LGBTs e que são tão injustamente escorraçados por outras vertentes.

Em termos de fé, porém, não adoto a teologia inclusiva: não por considerá-la mentirosa ou equivocada. Pelo contrário, se formos falar de equívoco, mais equivocados e mentirosos são os cristãos conservadores que, sob o manto do amor travestido que “ama o pecador, mas odeia o pecado”, defendem as piores barbaridades, insurgem-se contra outros humanos seus semelhantes e contra seus direitos e alimentam o preconceito e a discriminação, como se jamais houvessem ouvido falar da parábola do bom samaritano que ensina como identificar quem é nosso próximo real.

Minha crítica à teologia inclusiva e, por extensão, às igrejas inclusivas não se refere ao fato de que são inclusivas. Refere-se ao fato, simplesmente, de serem igrejas. Todo o cristianismo tem no seu DNA uma questão de escolha e divisão entre bem e mal, ímpio e justo, salvo e não salvo, abençoado e amaldiçoado – e sempre se escolhe alguém para estar no segundo grupo, “do outro lado”, em cima dos mais variados pretextos generalizantes e injustos.

Então, para uma alma libertária, incomoda que seja aceito um tipo de relacionamento homossexual, mas não a prostituição, por exemplo. Em relação ao cristianismo conservador, é certamente uma evolução, por se ter aumentado o escopo da inclusão, mas certos grupos permanecem inequivocamente excluídos de gozar das benesses celestiais e sob pretextos que pouco resistem a uma análise crítica, sincera e realista do mundo.

Aliás, sendo inclusivo ou não, é preciso ser sincero e realista. É positivo que a T.I. demonstre que a Bíblia não é de todo homofóbica e que é possível, pelas próprias ferramentas de que dispõe essa vertente, harmonizar religião e sexualidade homos/bissexual.

No entanto, é preciso ter cuidado para não cair no extremo oposto e contar uma mentira, pois simplesmente não é verdade que a Bíblia não seja nada homofóbica, como já pontuei. Mesmo que admitamos que a Bíblia não condena a homossexualidade em si, não há dúvida de que algumas categorias de interação homoerótica permanecem, no entanto, condenadas.

Curiosamente, a situação é a mesma para os heterossexuais, porque também nem todas as formas de interação heteroeróticas são admitidas. Por um lado, tem-se, portanto, o aspecto positivo de a teologia inclusiva igualar todas as realidades do espectro sexual. No entanto, de outro, isso demonstra a necessidade de ir mais a fundo no problema – e, fatalmente, nessa viagem, o resultado pode ser simplesmente o abandono da fé bíblica.

Respeito, portanto, os cristãos inclusivos que conseguiram harmonizar fé e sexualidade com base nas interpretações mais recentes e consolidadas da T.I. Respeito mais ainda os teólogos que não reconhecem na Bíblia a “Palavra de Deus”, mas um registro religioso com cores históricas das evoluções da fé de um povo específico. Até mesmo gosto das histórias de Davi e Jônatas e Rute e Noemi.

No entanto, me mantenho alegremente afastado dela, a Bíblia, porque não acho que é suficiente para minha felicidade uma coisa ou uma pessoa ser “mais ou menos homofóbica” e ser “mais ou menos homofílica”, aceitar “mais ou menos”, respeitar “mais ou menos”.

Não é, afinal, a própria Bíblia que diz, no Apocalipse, que, por ser morna, a Igreja de Laodiceia seria “vomitada” (“Oxalá fosses frio ou quente”)? No que tange à Bíblia, prefiro ser, então, um iceberg...

Sobre o autor

João Marinho é jornalista diplomado pela PUC-SP, turma de 2004. Atua há mais de 10 anos na elaboração de reportagens, entrevistas e artigos. É editor há mais de 5 anos, responsável por aproximadamente 20 títulos adultos, sendo os principais: Sexsites Extreme, Sex in the Box, Brasileirinhas, Sex Boys e Transites Especial. É o responsável pelo conteúdo editorial veiculado pelos sites www.sexsites.com.br, www.sexboys.com.br, www.transites.com.br, www.musadoporno.com.br , além do www.elassex.com.br.

Foi repórter da revista Geek e de outras revistas de conteúdo tecnológico, como Hacker, PC Brasil e Áudio e Vídeo Digital, e possui uma sólida produção na área de ciência e saúde, com destaque para reportagens elaboradas para a Revista do Coren-SP, site Mix Brasil, Athos GLS, site e revista A Capa e outros. Atuou como colaborador na reportagem do jornalista Clive Simmons sobre os sargentos Laci Marinho de Araújo e Fernando Alcântara de Figueiredo para a revista australiana DNA Magazine.