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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Assim diz a Bíblia!


Por Toni Souza


Definitivamente, um dos temas mais polêmicos na contemporaneidade cristã é a Homossexualidade. Por isso, antes mesmo de escrever este, fui motivado pela curiosidade a consultar um dicionário bíblico com o propósito de obter informações referentes a este assunto e a Bíblia. E entre tantas coisas, dizia o verbete do dicionário:

Pessoa que se atrai sexualmente por pessoas de mesmo sexo. O comportamento homossexual é proibido nas Escrituras (Lv 20,13) e foi uma das principais causas do juízo divino contra Sodoma e Gomorra (Gn 19, 4-5, 12-13) (YOUNGBLOOD, 2004, p 669 e 670).

Todo conceito traz consigo uma superficialidade, revelando-se em uma definição pobre e incapaz de comprovar uma inteireza. Observem que o significado a Homossexualidade é circunscrito numa atmosfera de negação e condenação, como se os homossexuais fossem “vítimas” de uma atração perigosa e funesta e condenatória.

Mas, “assim diz a Bíblia!” admitiram aqueles que não têm muita intimidade com as Escrituras. Porém, os fiéis cristãos não hesitariam em ‘engrossar o coro’ concordando com eles.

O fato é que apesar das constatações bíblicas carregarem uma névoa de verdade, há vários argumentos convergindo à Homossexualidade que dividem, inclusive, muitas denominações e pessoas religiosas. Isso, é claro, está muito relacionando a questão da interpretação dessas passagens.

Estudiosos da área afirmam que cerca de 15 textos bíblicos fundamentam essa discussão. O propósito aqui não é escrever um tratado de fé com todas suas páginas e citações, de modo, que valerá a pena recorrer à Bíblia para conferir as menções bíblicas na sua extensão e contexto. Cientes do objetivo deste artigo, façamos um passeio breve, por conseguinte, reflexivo por alguns recantos da Bíblia que são pertinentes a nossa conversa.

Comecemos pelo princípio de tudo: Gênesis. O livro da origem do mundo e da humanidade, oferece-nos duas narrações referentes ao mito da criação dos primeiros ancestrais de todos os povos que habitam o planeta (Gn 1,27-28 e 2,18-25). A partir desses trechos bíblicos, muitos discorreram sobre como deveriam se estabelecer às relações sexuais, afinal de contas, Deus havia criado Adão (HOMEM) para Eva (MULHER); logo, o diferente significaria ir de encontro aos desígnios de Deus.

A questão não é tão simples assim. Se formos estudar as demais mitologias, algumas até mais antigas do que a história mítica de Adão e Eva, como as africanas, de pronto perceberemos uma forte semelhança entre as mitologias. Algumas se assemelham por ter um deus supremo e criador ou pela cronologia temporal das demais criações e por fim, pela criação do homem que por estar cansado de viver sozinho ganha a companhia da mulher para ser uma idônea companheira e, fundidos “numa só carne”, pudessem cumprir a missão de serem fecundos e zelosos das coisas de Deus.

Deste modo, a união em casal de Adão e Eva representa o objetivo de multiplicar e exercer o domínio sobre a terra.

Prossigamos nossa viagem, ainda no mesmo livro dos Gênesis, mas por outros capítulos.

A história de Sodoma e Gomorra (Gn 19, 4-5, 12-13) é sobremaneira uma das mais intrigantes da Bíblia, pois traz em seu bojo uma mensagem para a religião cristã, bem como a humanidade. Em contrapartida, muitos têm feito uma interpretação equivocada. No início dessa conversa, recorremos à definição bíblica que entrelaçava o sentido da palavra Homossexualidade com o pecado de Sodoma e Gomorra, ou seja, como um pecado sexual. Mas, qual seria o verdadeiro pecado cometido por essas duas cidades?!

Conforme a leitura dos textos, é notório que Sodoma e Gomorra vivam embriagadas pela soberba e mesquinhez. Deus, vendo aquilo, enviou anjos à cidade, chegando lá foram surpreendidos por homens. É conveniente explicar que o termo ‘homens’, nesse contexto, sugere uma amplitude, ou seja, os anjos foram abordados por toda a população, (homens, mulheres, crianças e idosos) “sem exceção”. Sodoma ao invés de acolher os estrangeiros, ameaçou os visitantes atentando contra eles com todo tipo de abuso:

“Mas, antes que se deitassem, os homens daquela cidade cercaram a casa, os homens de Sodoma, tanto os moços como os velhos, sim todo o povo de todo o lado, e chamaram Ló e lhe disseram: onde estão os homens que, à noitinha, entraram em tua casa? Traze-os fora a nós para que abusemos deles”, (Gênesis 19:4-5).

Para não incorrermos em imprudente interpretação e conseguirmos produzir uma boa exegese, será necessário estudar a presença dessa história em outros livros da Bíblia, como por exemplo: Isaías, Ezequiel, Amós, Sofonias, Lamentações, Deuteronômio, Mateus e Lucas. Vejamos a versão de Ezequiel: “Eis em que consistia a iniqüidade de Sodoma, tua irmã: na voracidade com que comia o seu pão, na despreocupação tranqüila com que ela e suas filhas usufruíam os seus bens, enquanto não davam nenhum amparo ao pobre e ao indigente” (16, 49).

De acordo com Ezequiel 16, 49 podemos concluir que o verdadeiro pecado de Sodoma e Gomorra foi a falta de hospitalidade para com o próximo, pois tinham riquezas e alimentos em abundância, conforto e bem-estar, mas apesar disso não foram capazes de ajudar os mais pobres e os indigentes, transgredindo a aliança com Deus.

Jesus, demonstrando ser conhecedor da história do pecado de Sodoma e Gomorra usa o exemplo dessas cidades para fazer recomendações no envio dos seus apóstolos para a evangelização. Jesus no Evangelho de Mateus (10,12-15) adverte:

“Ao entrares na casa, saudai-a. Se, porém, não o for, tornem para vós outros a vossa paz. Se alguém não voz receber, nem ouvir as vossas palavras, ao sair daquela casa ou daquela cidade, sacudi o pó dos vossos pés. Em verdade vos digo que menos rigor haverá para Sodoma e Gomorra, no dia do juízo, do que para aquela cidade”.

A interpretação coerente dessas passagens bíblicas perpassa pela prática de acolher o estrangeiro. Em Romanos 12, 13 o significado de ‘hospitalidade’ é o “amor de estrangeiro”. Já no Antigo Testamento, Abraão foi um generoso hospedeiro quando convidava para a intimidade de sua casa; oferecia comida e lavava os pés dos estrangeiros.

Assim sendo, antes de sairmos pregando em nossos templos, igrejas e púlpitos que o pecado de Sodoma e Gomorra era um pecado sexual, logo a ‘sodomia’ (perversão sexual, coito anal[1], pederastia), lembrem-se: toda forma de exclusão seja por cor, classe social, sexo, idade e orientação sexual configura-se como um abuso à pessoa humana. Aquele e aquela que ainda não aprendeu a acolher o diferente está cometendo um pecado abominável conforme os filhos de Sodoma e Gomorra.


Observação:

[1] COITO ANAL: “[...] Em primeiro lugar, nem todos os homens gays expressam sua relação sexual desta maneira, e lésbicas evidentemente não o podem. Em segundo lugar, muitos casais heterossexuais na verdade também usam esta forma de intimidade.” (BRASH, 1998, p. 60).

Referências:

BRASH, Alan A. Encarando nossas diferenças: as igrejas e seus membros homossexuais. Tradução de Walter O. Schlupp. – São Leopoldo: Sinodal, 1998.

SISTO, Celso. Mãe África: mitos, lendas, fábulas e contos. São Paulo: Editora Paulus.

YOUNGBLOOD, Ronald F.; co-editores F. F. Bruce & R. K. Harrison. Dicionário ilustrado da Bíblia. Tradução Lucília Marques Pereira da Silva. São Paulo: Vida Nova, 2004.


Sobre o autor



Toni Souza é baiano. Professor, Bacharel em Teologia, estudante de Serviço Social e especializando-se em Desenvolvimento Sustentável no Semi-árido.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

[Tradução] A Bíblia na verdade diz “com varão de tua família não te deitarás”

Por Ocio Gay (entrevista publicada originalmente em espanhol em http://www.ociogay.com/2012/05/03/la-biblia-en-realidad-dice-con-varon-de-tu-familia-no-te-acostaras e traduzida por Paulo Stekel)

(O polêmico e irreverente teólogo dinamarquês Renato Lings)

Nós conversamos com o tradutor e teólogo Renato Lings, autor de "Bíblia e Homossexualidade".

Com seu tom calmo e grande senso de humor, o autor dinamarquês explica durante sua visita a Madri que, depois de muitos anos de estudo, "A Bíblia" é para ele uma amiga, não uma fonte de medo, como muitos querem considerar. Doutor em teologia, tradutor de hebraico, grego e espanhol, Lings tem feito do estudo de textos sagrados com relação à homossexualidade uma de suas principais ocupações. Acaba de publicar “Bíblia e homossexualidade - erraram os tradutores?”, onde resume que os problemas da Igreja com os homossexuais são realmente uma questão de um "Lost in Translation" medieval.

- A partir da disseminação gradual do Cristianismo pelo Império Romano vem a necessidade de disponibilizar a totalidade dos escritos bíblicos em latim. Em resposta a essa demanda aparece a Vulgata em cerca de 400 d. C. É esta a origem dos males da homossexualidade para a Igreja?

- A Vulgata é importante sob vários pontos de vista: primeiro, porque a tradução é executada por um personagem muito importante para a Igreja Romana, Jerônimo, e em segundo lugar porque é a primeira versão que tem todos os livros da Bíblia em latim. Em grande parte, revisa as traduções existentes, mas também traduziu outras partes. Ele pensou que seria fácil traduzir da Septuaginta, que é a tradução para o grego antigo, mas percebeu que já naquele tempo teve muitos erros e não podia ser confiável, motivo pelo qual estudou hebraico e assim traduziu o Antigo Testamento também. Isso exigiu um grande esforço. Dito isto, convém notar que, devido à uniformidade que estava adquirindo a Igreja Romana, esta foi se impondo como a única versão da "Bíblia", ou seja, até que finalmente se tornou a verdade. Esta versão deu cor aos capítulos mais controversos.

Conforme avançava a Igreja, esta foi se fechando mais no latim e se perdeu completamente o grego e o hebraico, a ponto de, na Idade Média, o latim ter se tornado a língua de Jesus Cristo. Isso é problemático por várias razões, mas principalmente porque durante a Idade Média entre as correntes teológicas havia muita tendência ao ascetismo, à renúncia de prazeres carnais, estabelecendo-se assim os vícios, incluindo a sodomia.

- Na verdade, você aponta que a “sodomia” não aparece como termo até o século XI.

- De fato. Antes havia o vício da sodomia, mas não havia uma definição única do que isso significava. Havia uma variedade de definições, mas tinha a ver com a vida sexual das pessoas, já que em ambientes eclesiásticos ao fazer o voto de castidade não havia espaço para as relações sexuais.

Então rolou como uma bola de neve o perigo que são as relações homoeróticas, pois as heterossexuais não são mais um problema ao se entrar no mosteiro. Muitos interpretaram, então, o desejo homoerótico que sentiam como sendo uma inspiração demoníaca, pois, não entendiam que depois de entregar corpo e alma a Deus lhes surgiriam fantasias eróticas e sonhos com parceiros da comunidade.

- Outra das análises mais abrangentes que você faz no livro é sobre a famosa frase do Levítico: "Com varão não te deitarás" que na verdade é "com varão não terás repousos [lit. “jazer para relações sexuais”] de mulheres."

- Eu tenho minhas dúvidas, por várias razões. Praticamente toda a literatura que está incluída no que chamamos de "Antigo Testamento", que eu prefiro chamar de "A Bíblia hebraica", tem um alto nível de refinamento literário. Eu não acho que esses textos correspondem a mentes retrógradas em questões de antropologia. Por isso, é curioso que, no caso de "Levítico" há tantos séculos haja um debate sobre o que significa. A proibição de relações homoeróticas com base neste livro não aparece até o século IV D.C.; antes não há nenhum registro de que tenha sido interpretado nesse sentido, pelo menos no Cristianismo, porque no Judaísmo há todavia mais literatura sobre o assunto.

Como pode um versículo de uma linha e meia gerar tanto debate? Alguns acreditam que se fala da penetração anal, e dentro dessa tendência, há divergências, pois existem alguns que acreditam que o que é proibido é o contato do sêmen com fezes, outros dizem que se trata de proteger a procriação e evitar qualquer dispersão de sêmen em outro vaso que não seja a vagina. Uma terceira teoria diz que o que é censurado é a parte ativa da relação homoerótica, isto é, não deves penetrar a outro homem analmente. A quarta, porém, acredita que se refere à parte passiva: você não deve se comportar como uma mulher na frente de um homem deixando-se penetrar.

Eu sugiro uma quinta interpretação que não tem nada a ver com a penetração anal, e que já foi sugerida por David Stewart: a do incesto. Praticamente todo o capítulo em que isto está escrito, o 18, fala do incesto entre homem e mulher. Ele acha que esta proibição também se estende entre dois homens da mesma família. Mas, como é um texto altamente sofisticado continua a gerar debate. Eu tive que ir até o capítulo 20 para perceber que este versículo reaparece junto com outros que proíbem o incesto, com a pena de morte incluída. Acho interessante este achado porque também existe na tradição hitita uma proibição incestuosa deste tipo, expressa sem rodeios. Como existem muitos paralelos entre as passagens da "Bíblia", com outras tradições antigas do Oriente Médio, eu duvido que haja um povo tão radicalmente separados dos outros.

Há outra razão para pensar que o incesto, da segunda parte ("repousos de mulher") é difícil de interpretar, porque ele usa um vocabulário elaborado. A primeira parte diz: "com varão não te deitarás", não "com um homem" e isso é importante porque não se trata de dois sinônimos. "Varão" também inclui os jovens que não chegam a "homens", e os idosos. A segunda é fundamental, e grande parte da Igreja decidiu que queria dizer "com nenhum". E eu me pergunto, se todo o capítulo é destinado à família porque esta parte não? Também sempre se refere a "varões israelitas", não a todos do mundo. E também especifica "mulher", não "fêmea". David Stewart, de quem sigo a pista, define que a palavra "repousos" só aparece uma vez mais nesta parte da Bíblia hebraica e no segundo caso, está no livro de "Gênesis", onde Jacó fala para seu filho mais velho Ruben, que cometeu um ato de incesto com uma das esposas deste. Ele diz "Foste até os repousos de teu pai", o que reforça a minha teoria do incesto porque o "repouso" no singular ocorre com mais freqüência.

- Também “Sodoma” surge sob outro prisma depois de sua análise.

- Lhe dediquei sete anos, apesar de que só tem um capítulo e meio. Eu me sinto muito em paz porque eu o trabalhei de cima para baixo e de fora para dentro. Todos os profetas do Antigo Testamento, que eram testemunhas oculares que falavam hebraico e estão imersos na sua cultura, utilizam "Sodoma e Gomorra" como uma metáfora.

- Se algo fica depois de se ler o livro é a sensação de que se tem interpretado os textos sagrados a partir da literalidade absoluta, mesmo quando se fala em metáforas.

- Somos muito mais fundamentalistas que os antigos; nós tomamos a "Bíblia" ao pé da letra, enquanto que eles sabiam como interpretar os símbolos. Produziam um discurso altamente desenvolvido no literário e no teológico. Bem, os profetas usam o mito de Sodoma e Gomorra em contextos de injustiça social, se referem à raiva que sentem quando os poderosos maltratam os pobres, especialmente Isaías e Ezequiel (que critica por meio disso a idolatria dos israelitas que se lançam a adorar outros deuses). Não se referem a questões sexuais. Isso me deu a dica de que algo não sabíamos sobre esse texto, e continuamos prisioneiros da tradição medieval. É mais convincente a investigação a partir da perspectiva dos profetas, porque é mais fiel ao contexto original.

- "Para a pessoa cristã o essencial é seguir a Cristo e não ser influenciada pelas pressões do ambiente social" você afirma, baseando-se em São Paulo: "Busco eu agora persuadir os homens ou a Deus? Se, todavia, tentasse agradar aos homens já não seria servo de Cristo". Isto tem sido completamente esquecido, e mais, às vezes a igreja é quem exerce a pressão social.
- Até mesmo, às vezes, forçando a seguir a igreja mais do que a Cristo.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

O que todo cristão deve saber sobre homossexualidade

Por Luiz Mott (Homossexualidade: Mitos e Verdades. Salvador, Editora GGB, 2003, p.101-108)


"E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará!" (João, 8:32)

I. NÃO HÁ O TERMO HOMOSSEXUAL NA BÍBLIA

Não há, na Bíblia, nenhuma só vez as palavras homossexual, lésbica ou homossexualidade. Todas as Bíblias que empregam estas expressões estão erradas e mal traduzidas. A palavra homossexual só foi criada em 1869, reunindo duas raízes linguísticas: Homo (do Grego, significando "igual") e Sexual (do latim). Portanto, como a Bíblia foi escrita entre 2 e 4 mil anos atrás, não poderiam os escritores sagrados terem usado uma palavra inventada só no século passado. Se em tua bíblia aparece o termo homossexual, está errada. Elementar, irmão!

II. ANTIGUIDADE DA HOMOSSEXUALIDADE

A prática do amor entre pessoas do mesmo gênero, porém, é muito mais antiga que a própria Bíblia. Há documentos egípcios de 500 anos antes de Abraão, que revelam práticas homossexuais não somente entre os homens, mas também entre os Deuses Hórus e Seth. Segundo o poeta e escritor Goethe, "a homossexualidade é tão antiga quanto a humanidade". Certamente, cada tempo com sua experiência singular homossexual, mas com o mesmo direcionar de desejo: o sexo igual.

III. CONDENAÇÃO DA IDOLATRIA

No antigo Oriente, a homossexualidade foi muito praticada. Entre os Hititas, povo vizinho e inimigo de Israel, havia mesmo uma lei autorizando o casamento entre homens (1.400 anos antes de Cristo). Como explicar, então, que, entre as abominações do Levítico, apareça esta condenação: "O homem que dormir com outro homem como se fosse mulher, comete uma abominação, ambos serão réus de morte" (Levítico, 18:22 e 20:12). Segundo os mais respeitados Exegetas contemporâneos, (estudiosos das escrituras sagradas), fazia parte da tradição de inúmeras religiões de localidades circunvizinhas a Israel, a prática de rituais religiosos homoeróticos, de modo que esta condenação do Levítico visava fundamentalmente afastar a ameaça daqueles rituais idolátricos e não a homossexualidade em si. Prova disto é que estes versículos condenam apenas a homossexualidade masculina: teria Deus Todo Poderoso se esquecido das lésbicas ou, para Javé, a homossexualidade feminina não era pecado? Considerando que, do imenso número de leis do Pentateuco, apenas duas vezes há suposta referência à homossexualidade (e só à masculina), concluem os Exegetas que a
supervalorização que alguns judeus e cristãos mais fundamentalistas (que querem interpretar as Escrituras ao pé da letra) conferem a este versículos é sintoma claro e evidente da intolerância machista que permeia as sociedades regidas pela tradição abraâmica, um entulho histórico a ser desprezado, e não um desígnio eterno de Javé, do mesmo modo que inúmeras outras abominações do Levítico, como os tabus alimentares (por exemplo, comer carne de porco ou camarão) e os tabus relativos ao esperma e ao sangue menstrual, hoje foram completamente abandonadas e esquecidas. Por que católicos e protestantes conservam somente a condenação da homossexualidade, enquanto abandonaram dezenas de outras proibições decretadas pelo mesmo Senhor? Intolerância machista e ignorância que Freud explica!

IV. DAVI E JÔNATAS: O AMOR HOMOSSEXUAL

Se a homossexualidade fosse prática tão condenável, como justificar a indiscutível relação homossexual existente entre Davi e Jônatas?! Eis a declaração do santo rei salmista para seu bem-amado: "Tua amizade me era mais maravilhosa do que o amor das mulheres. Tu me eras deliciosamente querido!" (II Samuel, 1:26). Alguns crentes mais intolerantes argumentarão que se tratava apenas de um amor espiritual, ágape, quando muito de “homo-afetividade”. Preconceito primário, pois só as coisas materiais e sensuais costumam ser referidas com a expressão "delicioso", e não resta a sombra da menor dúvida que Davi, em sua juventude, foi adepto do "amor que não ousava dizer o nome". Não foi gratuitamente que o maior escultor de nossa civilização, Miguel Ângelo, ele próprio, também homossexual, escolheu o jovem Davi, nu, como modelo de sua famosa escultura de Florença, na Itália: um gay retratando o mais famoso gay do Antigo Testamento. Negar o amor homossexual entre Davi e Jônatas ("amizade mais maravilhosa que o amor (Eros) das mulheres") é negar a própria evidência dos fatos. "Tendo olhos, não vedes? E tendo ouvido, não ouvis?!" (Marcos, 8:18). Importantes e respeitados Exegetas identificam igualmente como homossexual/lésbica, a relação íntima de Ruth e Naomi. Confira Livro de Ruth, 1:16.

V. É BOM DOIS HOMENS DORMIREM JUNTOS...

Pelo visto, embora o Levítico fosse extremamente severo contra “dois homens dormirem juntos”, (determinando igualmente a pena de morte contra o adultério e a relação sexual com animais), outros livros sagrados revelam maior tolerância face ao homoerotismo. O Eclesiastes ensina: "É melhor viverem dois homens juntos do que separados. Se os dois dormirem juntos na mesma cama se aquecerão melhor" (4:11). Num país quente como a Palestina, o interesse em dormir junto só podia ser mesmo erótico. Portanto, na teoria o Levítico era uma coisa e a prática, desde os tempos bíblicos, parece ter sido outra. "Deus nos fez ministros da nova aliança, não a da letra e sim a do Espírito. Porque a letra mata, mas o Espírito vivifica." (II Coríntios, 3:6)

VI. O PECADO DE SODOMA E GOMORRA NÃO ERA A “SODOMIA”

E a destruição de Sodoma e Gomorra? Lembrarão os fundamentalistas de coração mais duro. Oferecemos três informações fundamentais e cientificamente comprovadas que, em geral, são propositadamente escondidas e desconhecidas pelos cristãos: 1) não há evidência histórica ou arqueológica que confirme a real existência dessas e das mais cinco cidades que circundavam Sodoma e Gomorra e que tais cidades teriam sido destruídas por uma catástrofe; 2) este relato é obra dos "Javistas" (escritores bíblicos do século X a.C.), que se apropriaram de relatos mitológicos de outros povos pagãos anteriores aos judeus; 3) a própria identificação da suposta intenção homoerótica dos habitantes de Sodoma em relação aos três visitantes de Abraão (anjos ou homens?) apresenta sérias dificuldades de interpretação, pois quando os habitantes de Sodoma declararam desejar “conhecer” os visitantes, maliciosamente se interpretou o verbo "conhecer" como sinônimo de "ato sexual". Segundo os Exegetas, das 943 vezes que aparece esta palavra no Antigo Testamento ("yadac" em hebraico), em apenas 10 ela tem significado de cópula heterossexual - nenhuma vez o sentido homossexual. A associação do pecado dos "sodomitas e gomorritas" com a homossexualidade é um grave erro histórico, que tem sua oficialização pela igreja católica apenas na Idade Média, a "idade das trevas".

VII. O VERDADEIRO PECADO DE SODOMA: INJUSTIÇA E FALTA DE AMOR

A própria Bíblia e o filho de Deus nos dão a chave para corrigir esta maliciosa identificação da destruição de Sodoma e Gomorra com a homossexualidade. Segundo os mais respeitados estudiosos das Sagradas Escrituras, o pecado de Sodoma é a injustiça e a anti-hospitalidade, nunca a violação homossexual. Prova disto, é que todos os textos que aludem à Sodoma no Antigo Testamento atribuem sua destruição a outros pecados e não ao "homossexualismo": falta de justiça (Isaías, 1:10 e 3:9), adultério, mentira e falta de arrependimento (Jeremias, 23:14); orgulho, intemperança na comida, ociosidade e "por não ajudar o pobre e indigente" (Ezequiel, 16:49); insensatez, insolência e falta de hospitalidade (Sabedoria, 10:8; 19;14; Eclesiástico, 16:8). No Novo Testamento, não há qualquer ligação da destruição de Sodoma com a sexualidade e, muito menos, com a homossexualidade (Mateus,10:14; Lucas, 10:12 e 17:29). Só nos livros neotestamentários tardios de Judas e Pedro, é que aparece em toda a Bíblia alguma conexão entre Sodoma e a sexualidade (Judas, 6:7, Pedro, 2:4 e 6;10). Mesmo aí, inexiste qualquer referência ao "homoerotismo". Foi só na Idade das Trevas que os católicos passaram a identificar “sodomia” com cópula anal, seja entre pessoas do mesmo sexo, seja de um homem com uma mulher.

VIII. MÁ TRADUÇÃO DAS EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO

Dirão, agora, os crentes mais intolerantes: e as condenações de São Paulo aos homossexuais? Autorizados exegetas protestantes e católicos - como Macneill, Thevenot, Noth, Kosnik, e muitos outros, ao examinarem, cuidadosamente, na língua original, os textos das Epístolas aos Romanos 1:2, I Coríntios 6:9, Colossenses 3:5 e I Timóteo 1:10, textos usados pelos fundamentalistas para condenar o amor homossexual, concluíram inequivocamente que, até agora, os cristãos têm dado uma interpretação completamente errada e preconceituosa a estas passagens. Quando Paulo diz que certas categorias de pecadores não entrarão no Reino dos Céus - ao lado dos adúlteros, bêbados, ladrões etc... muitas Bíblias incluem nesta lista os "efeminados" e "homossexuais". Logo de início, há uma grave injustiça, pois muitos efeminados (assim como muitas mulheres masculinizadas no comportamento) não são necessariamente homossexuais. As mais modernas e abalizadas pesquisas exegéticas concluem que, se o ex-fariseu Paulo de Tarso quisesse condenar especificamente os praticantes do homoerotismo, teria empregado o termo corrente em sua época e de seu pleno conhecimento, "pederastas". Em vez desta palavra, Paulo usou as expressões gregas "malakoi", "arsenokoitai" e "pornoi" - que as melhores edições da Bíblia em português traduzem por "perversores", "pervertidos" e "imorais".

Portanto, foram estes pecadores que Paulo incluiu na lista dos afastados do Reino dos Céus, e não os "pederastas", e muito menos os "homossexuais", palavra desconhecida na Antiguidade. Segundo os historiadores, vivendo São Paulo numa época de grande licenciosidade sexual - tempo de Calígula, Nero e do Satiricon, esperando o próximo retorno do Cristo e o fim do mundo, ele condenou, sim, os excessos e abusos sexuais dos povos vizinhos, mas nunca o amor inocente e recíproco, tal qual o imortalizado por David e Jônatas. Há teólogos protestantes que chegam a diagnosticar Paulo de Tarso como homossexual latente (alusão feita por ele próprio ao misterioso "espinho na carne" que tanto o preocupava, além de sua manifesta e cruel "misoginia" ou desprezo pelas mulheres). E, se a condenação paulina inclui também os bêbados, corruptos, caluniadores, por que atirar tanta pedra somente nos homossexuais? Também aqui, Freud explica! Os “crentes” por não assumirem o padrão machista dominante, para “limpar a barra” e não serem acusados de pouco masculinos ou mesmo efeminados/homossexuais, atiram pedra nos gays como estratégia diabólica de auto-defesa. Aqui novamente, Freud ou um bom psicanalista ajudariam a solucionar tal neurose. E tem mais: o próprio Filho de Deus disse que "há eunucos que assim nasceram desde o seio de suas mães" (Mateus 19:12), ensinando, num sentido figurado, que faz parte dos planos do Criador que alguns homens tenham uma sexualidade não reprodutora biologicamente. Todos somos imagem de Deus e templos do Espírito Santo. Inclusive aqueles que hoje têm o mesmo gosto erótico do santo Rei Davi – que aliás, entrou em Jerusalém dançando em trajes sumaríssimos (II Samuel, 6:14)

IX. JESUS NUNCA CONDENOU OS AMANTES DO MESMO SEXO


O maior argumento para se comprovar que as Escrituras Sagradas não condenam o amor entre pessoas do mesmo gênero, é o fato de Jesus Cristo nunca ter falado nenhuma palavra contra os homossexuais! Se o "homossexualismo" fosse uma coisa tão abominável, certamente o Filho de Deus teria incluído esse tema em sua mensagem, e Javé nos dez mandamentos. O que Jesus condenou, sim, foi a dureza de coração, a intolerância dos fariseus hipócritas, a crueldade daqueles que dizem Senhor, Senhor!, mas esquecem da caridade e do respeito aos outros (Mateus, 7:21). E foi o próprio Messias quem deu o exemplo de tolerância em relação aos "desviados", andando e comendo com prostitutas, pecadores e publicanos. E tem mais: Jesus Cristo mostrou-se particularmente aberto à homossexualidade, revelando carinhosa predileção por João Evangelista, "o discípulo que Jesus amava", o qual, na última Ceia, esteve delicadamente recostado no peito do Divino Mestre. Há teólogos que chegam a sugerir que Jesus era homossexual, pois além de nunca ter condenado o homoerotismo, conviveu predominantemente com companheiros do seu próprio gênero, manifestou particular predileção pelo adolescente João, “o discípulo amado”, nunca se casou, além de revelar muita sensibilidade com as crianças e com os lírios do campo, comportamentos muito mais comuns entre homossexuais do que entre machões. Mais ainda: ao lavar os pés dos discípulos, desempenhou um gesto que homem algum faria, posto que na divisão sexual dos papeis de gênero, lavar os pés de um homem era privativo das mulheres. E Jesus mandou que imitássemos seu exemplo, abençoando assim a diversidade e liberdade dos/as transgêneros e da transexualidade. Outro detalhe importante que mostra o apoio do Filho de Deus à homossexualidade: segundo respeitáveis Exegetas, quando o Evangelho diz que Jesus curou o “escravo do centurião”, na verdade, não se tratava de um escravo qualquer, mas do “escravo amante” do centurião romano (Mateus, 8;5-8), comprovando inclusive o apoio de Cristo à união entre pessoas do mesmo sexo! Neste sentido, o ensinamento do Discípulo Amado não podia ser mais claro: "Filhinhos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e tudo o que é amor é nascido de Deus e conhece a Deus" (I João, 4:4).

X. OS FUNDAMENTALISTAS DETURPAM AS SAGRADAS ESCRITURAS

A Bíblia é um livro muito antigo, repleto de imagens simbólicas, parábolas e figurações. Interpretar as Escrituras ao pé da letra é fundamentalismo, isto é, ignorância, fanatismo e grave pecado, pois o próprio Filho de Deus garantiu: "Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á a verdade" (João, 16:12). Do mesmo modo como os cientistas Galileu ensinou-nos a verdade de que o sol, e não a terra, é o centro do nosso sistema planetário, e Darwin a respeito da evolução das espécies, ambos corrigindo a Bíblia e opondo-se à crença errada dos cristãos de sua época, assim também hoje todos os ramos da Ciência, da biologia à genética, da antropologia à psicologia, garantem que a homossexualidade é um comportamento normal, saudável e tão digno ética e moralmente como a heterossexualidade ou a bissexualidade. Negar esta evidência científica é repetir a mesma ignorância intolerante do Papa que condenou Galileu. Não devemos temer a verdade que liberta, pois o próprio Jesus nos mandou imitar "o escriba instruído nas coisas do Reino dos Céus, que como um pai de família, tira de seu tesouro coisas novas e velhas" (Mateus, 13:52). Mesmo que o Papa ou grande parte dos rabinos e pastores continuem a negar os direitos humanos dos gays e lésbicas, mesmo que cristãos ignorantes continuem a repetir as ultrapassadas abominações do Velho Testamento e as traduções erradas das epístolas paulinas, para os verdadeiros crentes o que vale é o exemplo do Filho de Deus, Jesus Cristo,que nunca condenou os homossexuais. "E conhecereis a verdade, e a verdade vos  libertará!" (João, 8:32).

Sobre o autor


Luiz Mott é antropólogo, historiador e pesquisador, e um dos mais conhecidos ativistas brasileiros em favor dos direitos civis dos LGBT. Estudou em Seminário Dominicano de Juiz de Fora. Formou-se em Ciências Sociais pela USP. Possui mestrado em Etnologia em Sorbonne e doutorado em Antropologia, pela Unicamp. Atualmente é professor titular aposentado do Departamento de Antropologia da Universidade Federal da Bahia, UFBA e é professor e orientador do programa de pós graduação em História da Universidade Federal da Bahia, UFBA. Assumiu sua orientação sexual em 1977. Luiz Mott é fundador do Grupo Gay da Bahia, uma das principais instituições que laboram em prol dos direitos humanos dos gays no Brasil. Conheça mais: http://www.ggb.org.br