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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

[Evento] Participe do Primeiro Grupo de Encontro em Porto Alegre – RS


Por Espiritualidade Inclusiva


Um convite a toda a comunidade LGBT e simpatizantes da região metropolitana de Porto Alegre!

A primeira reunião do Grupo de Encontro do Movimento Espiritualidade Inclusiva em Porto Alegre – RS, ocorrerá no próximo dia 25 de setembro, uma terça-feira, a partir das 19h30min. O local será o auditório do Instituto Equilibrium (R. Coronel Vicente, 382 – sobreloja – sala 05 – centro), mais recente parceiro do Movimento.

Este reunião não será apenas a reunião de Porto Alegre, mas uma reunião estadual, pois estão sendo convidados interessados de toda a região metropolitana de Porto Alegre e de outras cidades do RS.

Esta primeira reunião será conduzida por Paulo Stekel, coordenador geral do Movimento, e terá a seguinte pauta:
  • Apresentação do Movimento Espiritualidade Inclusiva;
  • Apresentação dos presentes e/ou entidade que representam;
  • Compartilhamento de experiências sobre homofobia e inclusividade;
  • Apresentação da camiseta oficial do Movimento;
  • Definição de propostas específicas de ação para Porto Alegre e RS;
  • Formação do núcleo de representantes do Grupo de Encontro de Porto Alegre;
  • Assuntos gerais propostos;
  • Considerações finais.
Todos são convidados: LGBTs, simpatizantes, representantes de ONGs, religiosos em geral, ativistas, coordenadores de diversidade municipais e estaduais, espiritualistas, terapeutas holísticos, assistentes sociais e defensores dos direitos humanos.

Aproveite para encomendar sua camiseta com a logomarca oficial do Movimento Espiritualidade Inclusiva (clique aqui para ler os detalhes da promoção de lançamento, tamanhos e valores).

Então, agende-se:

Reunião do Grupo de Encontro do Movimento Espiritualidade Inclusiva de Porto Alegre, em parceria com o Instituto Equilibrium (http://equilibriumsite.com.br).

Horário: 19h30min

Local: Rua Coronel Vicente, 382 – sobreloja – sala 05 – centro – Porto Alegre – RS

Informações: (51) 9217-5164 (Stekel) e (51) 3084-5225 (Alexandre)


IMPORTANTE: A participação nos Grupos de Encontro é totalmente gratuita, livre e espontânea. Todos têm direito a voz. O Movimento é suprapartidário e defende a inclusividade em todas as religiões, sem apoiar apenas uma em detrimento das demais. Religiosos e ateus humanistas são bem vindos, bem como todos os que desejam contribuir para um Brasil sem homofobia.

Se você quer saber mais sobre o Movimento Espiritualidade Inclusiva, leia o texto abaixo e, se sentir afinidade, participe da reunião do dia 25:


O Movimento Espiritualidade Inclusiva possui 2 objetivos principais:

1º – Enfrentamento, crítica e denúncia da homofobia em geral e da homofobia religiosa em especial, por entender que a “demonização” do outro por conta de sua religião, sexo, gênero, raça ou orientação sexual é inadmissível num país laico que aceite a Declaração Universal dos Direitos do Homem;

2º – Enaltecimento, visibilidade e apoio às ações inclusivas advindas do meio religioso-espiritual, sejam as advindas de religiões/espiritualidade consideradas inclusivas, sejam ações pontuais advindas de religiões historicamente homofóbicas.


O trabalho dos Grupos de Encontro do Movimento se baseia em 5 propostas: Inclusividade ou inclusão (Inclusão dos LGBT em todas as áreas da sociedade em condições de igualdade, em especial no meio religioso e espiritual); Combate à Homofobia (especialmente a homofobia religiosa); Formação do Cidadão LGBT (um cidadão LGBT consciente de seu lugar no mundo saberá lutar por seus direitos com muito mais propriedade); Movimento LGBT Amplo (Crítica, auto-crítica e afinação do discurso sempre que possível e lógico no que concerne às deliberações do que chamamos de Movimento LGBT amplo nacional e internacional); Cultura LGBT (a Cultura LGBT é a cultura comum partilhada por lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros. Ela varia, naturalmente, de acordo com o espaço geográfico e a identidade do indivíduo em questão, no entanto, há certos elementos que são encontrados na maioria das comunidades LGBT).

Quanto ao mecanismo de ação, os Grupos de Encontro sempre consideram as 3 atividades principais a ser desenvolvidas dentro e fora das reuniões:

1ª – Produção de material teórico para efeitos práticos: artigos, debates, ensaios,teses, etc. Tudo isso deve ser compartilhado em nosso blogue oficial para acesso de toda a sociedade e para melhorar a argumentação da comunidade LGBT. Todos aqueles que possuem o dom da palavra e da escrita são chamados a contribuir com o movimento.

2ª –Compartilhamento de experiências a respeito de inclusão, homofobia, descobrir-se LGBT, assumir-se, anseios espirituais, etc. Este compartilhamento pode ocorrer por escrito e publicado no blogue oficial na forma de relato e também durante as reuniões dos Grupos de Encontro, seminários municipais, regionais ou estaduais e outros eventos que venham a ser organizados.

3ª – Ações próprias ou em caráter de apoio do tipo organização de ou participação em palestras, seminários, encontros, intervenções, protestos, passeatas, auxílio a LGBTs em situação de perigo ou conflito de natureza religiosa, engajamento em políticas públicas ou campanhas do terceiro setor (ONGs LGBTs ou não) que tenham afinidade com as propostas do movimento, etc.



domingo, 12 de agosto de 2012

Espiritualidade e Identidade Gay


Por Paulo Stekel


Vou confessar a vocês! Tive a ideia deste artigo após consultar as estatísticas do blogue Espiritualidade Inclusiva e constatar que alguém pesquisou exatamente sobre isso. Tal indivíduo devia estar buscando alguma relação entre sua identidade gay e a espiritualidade, esperando encontrar algum alento para um conflito interno, talvez. Vamos ajudá-lo!

A primeira coisa a definir é “identidade gay” ou, como poderia ser mais amplamente nomeada, “identidade LGBT”. Depois, precisamos observar se esta identidade é em algo compatível ou incompatível com uma busca espiritual.

Identidade gay tem a ver, obviamente, com padrões de pensamento, formas do gay ver a si mesmo, o tipo de significado que atribui às suas atrações homossexuais e o que isso significa para ele.

A psicóloga Vivienne Cass (Austrália) desenvolveu um modelo de formação de identidade gay, o Model of Homosexuality Identity Formation, que pode ajudar a definir como se processa a formação de tal identidade, ainda que não explique em maiores detalhes como isso acontece.

Segundo esse modelo, a formação da identidade gay passa por seis estágios que, uma vez alcançados, o que não ocorre em todos os gays e nem é uma necessidade imperativa, determinam uma certa prontidão para a instalação de um repertório emocional/comportamental, tanto no nível pessoal como no social.


1. Confusão de identidade: nesse estágio o individuo começa a notar, a reconhecer e a aceitar sua atração sexual por outros homens. Mas não se imagina gay e identifica-se como heterossexual. Nem todos os indivíduos que estão nesse estágio irão passar para o estágio seguinte. Alguns aceitam suas fantasias homoeróticas, mas nem por isso consideram a possibilidade de se tornarem gays.

2. Comparação de identidade: durante esse estágio o indivíduo começa a considerar a possibilidade de que talvez seja homossexual. Ele provavelmente não emprega a palavra gay, uma vez que essa palavra está associada a um estilo de vida muito particular, com o qual ele não se identifica. É possível que aceite seu comportamento sexual, mas recuse a identidade. Ou que aceite a identidade, mas decida reprimir seu comportamento homossexual.

3. Tolerância de identidade: aqui, o individuo já começa a identificar-se como gay, embora ainda tenha dificuldades em se aproximar da cultura gay. Nesse estágio as experiências (positivas ou negativas) são determinantes para a continuidade (ou não) no processo de formação e para que ele se mova (ou não) ao estágio seguinte.

4. Aceitação de identidade: a passagem do estágio de tolerância para o de aceitação se dá a partir de um sentimento de pertencimento e de identificação com a comunidade gay. Nesse estágio o indivíduo tende a rejeitar os segmentos antigays da sociedade e a se aproximar cada vez mais de outros gays, adotando comportamentos, hábitos e linguagem própria do grupo gay com o qual se identifica.

5. Orgulho de identidade: nesse estágio o indivíduo identifica-se totalmente como gay, reforçando, sempre que possível, as diferenças entre gays e heteros. Podem surgir sentimentos de “nós contra eles” e uma necessidade de se assumir completamente. Esse costuma ser o estágio da maior parte dos ativistas.

6. Síntese de identidade: no último estágio prevalece a integração entre gays e heteros, e o indivíduo começa a compreender que nem todos os heterossexuais são antigays. O indivíduo reconhece e luta contra a homofobia e o preconceito, mas de uma forma mais tranqüila e sem sentir-se ameaçado. Consegue integrar sua afetividade e sua sexualidade a todas as áreas da vida.

O fato é que provavelmente conhecemos pessoas LGBT em todos esses estágios.

Alguns gays se consideram heterossexuais a vida toda, pois mesmo tendo “casos” rápidos com pessoas do mesmo sexo, consideram que, sendo casados com alguém do sexo oposto, não se consideram como tendo uma identidade diversa da maioria. Outros gays até se consideram como tais, mas evitam qualquer aproximação com a cultura gya, os assuntos relacionados, ficando a parte de qualquer ativismo pró-direitos LGBT.

No meio religioso, o que impera é o desenvolvimento tardio da identidade gay. Gays cristãos, por exemplo, só começam a desenvolver sua identidade após chegar ao ensino superior, convivendo com outros gays em estágio de desenvolvimento maior. Alguns padres cristãos gays aceitam sua identidade, mas reprimem seu comportamento, considerando-o pecaminoso.

Uma ressalva à expressão “orgulho” usada no quinto estágio da psicóloga autraliana. Ela diz que neste estágio o indivíduo reforça “sempre que possível, as diferenças entre gays e héteros” e que esse “costuma ser o estágio da maior parte dos ativistas”. Na verdade, isso não tem nada a ver com o tão comentado (e polêmico) Orgulho Gay, mote das Paradas Livres pelo mundo afora. O verdadeiro Orgulho Gay tem mais a ver com uma sensação psicológica de “normalidade, afinal!” causada pela percepção de que ser LGBT não é uma aberração, mas está presente na natureza humana e até na animal, do que com uma atitude de superioridade. O que as Paradas Livres procuram enfatizar é essa “normalidade” e naturalidade da diversidade sexual, e não uma divisão do mundo social em LGBTs e Não-LGBTs.

Em A Identidade Gay: Uma Construção Histórica (ver http://www.pucsp.br/clinica/publicacoes/boletins/boletim10_07.htm), Elcio Nogueira afirma:

“A homossexualidade sofreu e ainda sofre, grandes preconceitos e estigmas, o sujeito homoerótico, é bastante estigmatizado, e as religiões sejam elas quais forem, ainda o colocam como o “porta-voz” do demônio, ou a aberração que tem de voltar aos caminhos de Deus. O Lócus social em que o indivíduo homoerótico foi obrigado a construir sua rede de identificações, suas subjetividades, ou o que lhe foi permitido desejar, e mesmo construir como relação possível com o outro, influíram e tiveram preponderância, nas hoje chamadas relações homoeróticas.”

Como hoje em dia alguns grupos do movimento LGBT têm criticado a comercialização de uma identidade gay e os auto-impostos guetos das culturas LGBT, nos referimos a “identidade gay” como uma construção da pessoa LGBT a partir de dentro e não de uma imposição ou pressão social. Tem mais a ver com o próprio auto-conhecimento do indivíduo acerca de sua sexualidade do que com uma construção midiática ou de marketing segundo certas doutrinas ou ideologias.

Exatamente aqui pode entrar o conceito de Espiritualidade, e é este conceito que pode diferenciar umas identidade gay “pura” de uma identidade forjada na mercadologia do momento.

No desenvolvimento da identidade gay nos moldes não mercadológicos que definimos, a busca da espiritualidade pode ser um auxiliar incrível. Mas, para isso, a relação com a espiritualidade deve ser mais profunda e interior que uma relação com alguma religião formal, embora esse segundo aspecto não esteja descartado nem seja contraproducente. Afinal, não há qualquer incompatibilidade entre busca espiritual e orientação sexual. O que é contraproducente é a prática de uma religião naturalmente homofóbica numa postura homofóbica. Então, se for para praticar religiões formais, que se busque os grupos inclusivos dentro delas.

Contudo, se estivermos falando em Nova Espiritualidade, uma tendência crescente no mundo e que se define por uma busca espiritual/religiosa transcendendo a religião formal, então, tudo o que ajude no autoconhecimento pode ser proveitoso.

Os aspectos de culto ao feminismo de algumas espiritualidade pagãs podem ajudar gays e lésbicas numa autocompreensão a partir da dualidade dentro de si mesmos, levando a uma integração de polaridades sem a necessidade de relações sexuais com o sexo oposto, por exemplo.

As práticas espirituais “xamânicas” que enaltecem a integração do ser humano com a natureza também podem ser úteis, pois mostram que a diversidade é a tônica do cosmos. Assim, o LGBT se percebe como parte natural do todo e não como um acidente de percurso.

Os grupos de meditação (Budismo, Hinduísmo, etc.) geralmente são mais amigáveis aos gays, o que pode ser uma boa forma de equilibrar mentes geralmente bagunçadas pela pressão social, familiar, e pelo preconceito homofóbico diário, sem contar um pouco de homofobia internalizada, uma forma de auto-flagelação.

Nos Estados Unidos, há comunidades de gays praticantes da “nova espiritualidade” que trabalham com xamanismo, mediunidade, canalização e que até “incorporam” o gender queer, um tipo de entidade espiritual gay. O Candomblé brasileiro já conhece isso, pois existem Orixás com aspectos masculinos e femininos, como Oxumaré.

A principal função da prática espiritual de um indivíduo gay em processo de desenvolvimento de sua identidade deve ser o equilibrar sua vida, sem culpas ou rancores sobre a homossexualidade.
Deve entender que o ser gay ou LGBT é uma condição espiritual pré-existente no seu ser.

Hoje em dia temos observado que os adolescentes estão saindo mais cedo do armário que trinta anos atrás. Isso se deve muito provavelmente à Internet, que faz com que se sintam menos isolados, pois pesquisando e interagindo em redes sociais estão vendo modelos positivos nos meios de comunicação, bem como nos grupos e comunidades das quais participam, inicialmente com perfis falsos (os “fakes”), depois abertamente declarando-se gays. Entre estes modelos positivos se encontram as Igrejas Inclusivas, os grupos inclusivos em religiões formais mais antigas e as setoriais LGBT de partidos políticos.

De qualquer forma, o conflito pessoal sobre os sentimentos homossexuais cria sempre uma difícil luta interna. Depois de anos tentando encontrar respostas e sem sucesso na tentativa de mudar seus sentimentos, muitos pessoas se convenceram de que seus sentimentos homossexuais são inatos e imutáveis, e agora aceitam uma identidade gay que finalmente termina a luta interna que lhes causou tanta frustração e tanta dor. Aceitar uma identidade gay tem implicações enormes, uma vez que ser gay inclui não apenas sentimentos pessoais, mas também descreve uma identidade social e política. Essa identidade social e política está sempre em construção e sofre adaptações, já que a construção social e política dos povos também muda. A formação da identidade e do orgulho dos povos negros, seja na África ou na Escravatura, passou por fases muito semelhantes às que passam os LGBT na busca por aceitação na sociedade moderna.

Hoje, a formação não apenas de grupos de apoio aos LGBT em processo de desenvolvimento da própria identidade, mas também de grupos envolvendo espiritualidade numa perspectiva LGBT (não para LGBTs) se mostra muito salutar na medida em que se percebe que alguém que saiu do armário tem muita necessidade de ser ouvido, acolhido e orientado.

Antes de sair do armário, a maioria dos gays não sabe quem é, se desconhece por completo, não consegue se ver no espelho sem um olhar de reprovação, mesmo que não consiga especificar o motivo. O moralismo das religiões formais tem muito a ver com isso, e esse moralismo contamina as famílias dos gays, chegando, ao final, a causar a pressão interna que vemos em quem demora a assumir-se. Este seria o momento ideal para a Nova Espiritualidade agir, acolhendo o LGBT em conflito sem fazer qualquer juízo moral, pois esta não é uma função original da religião – sua função original é levar o homem à felicidade, ao autoconhecimento e a uma vida de harmonia com o todo.

Gays saindo ou já completamente saídos do armário aderem ao “tribalismo”, buscando seus iguais, para compartilhar vida social, amizades e encontrar seu lugar num mundo que os exclui. Uma espiritualidade inclusiva, onde achamos que deva se inserir a Nova Espiritualidade, sempre orientará o indivídio LGBT a não afastar-se das pessoas, mas a integrar-se a elas, em todos os ambientes da sociedade, para não reforçar a “guetificação” LGBT. Se, antigamente, essa “guetificação” foi positiva na organização do movimento LGBT, hoje a ideia mais producente deve ser a integração, favorecendo a conquista de direitos igualitários.

A relação óbvia entre a Identidade Gay e a Espiritualidade está no autoconhecer-se. Primeiro, nos autoconhecemos como seres diversos numa variedade de orientações sexuais disponíveis na natureza. Percebemos nossa orientação como algo comum em outros, ainda que manifestando-se de modo muito peculiar – cada um vive sua sexualidade de modo próprio. Depois, nos autoconhecemos como seres humanos iguais ao demais, com os mesmos sofrimentos, anseios, momentos felizes e objetivos. Então, buscamos a transcendência. Isso é espiritualidade! Se uma religião formal – qualquer uma – não conduz o indivíduo (gay ou não) a isso, não tem qualquer proveito. E, o que não existe, deve ser criado, ou antes, percebido como natural e potencialmente existente...

sábado, 14 de janeiro de 2012

[Tradução] Uma religião muito “queer”*

(Por Toby Johnson** – acesse o site do autor: http://tobyjohnson.com)

* Nota do Tradutor - Em Inglês, o termo “queer” é usado para referir-se aos gays. Significa “estranho” ou “esquisito”. Apesar de seu uso pejorativo – a ponto de ser por vezes traduzido por “bicha” – Toby Johnson não o usa com conotação pejorativa, mas inclusiva.
** Tradução de Paulo Stekel

Uma religião queer não pode significar algo como fazer as bichas serem religiosas, ou seja, fazer-nos voltar para a igreja/sinagoga/templo/mesquita, etc, para acreditarmos nos mitos populares e aceitarmos a autoridade de líderes religiosos.

Uma religião queer deve significar o reconhecimento da multiplicidade de vozes e perspectivas em todo o mundo, o elevar-se acima da religião de origem para observá-la como mais uma tradição entre muitas.

Para muitos de nós tal tradição tem sido o Cristianismo, e, nesse sentido, com uma maior e mais elevada perspectiva, - o que é chamado de "espiritualidade" - permite uma resposta simples sobre a história da Igreja e a opressão baseada na Bíblia: é tudo mito de qualquer maneira, tome o que é significativo para você e deixe o resto para trás.

Isso é religião queer: deve-se compreendê-la, não "acreditar" nela. Ela liberta você da religião enquanto mostra o que ela realmente era, inicialmente, e assim "despertando" você para a natureza da consciência e a natureza de "Deus", como uma dica sobre quem você realmente é como entidade consciente inquirindo sobre a natureza de sua existência.

O cerne das tradições mitológicas é aumentar a visão das pessoas acima das preocupações cotidianas e egoístas e inspirar compaixão. O objetivo da religião não é estar certa, mas ser amorosa e gentil. Se a Bíblia diz que os homossexuais devem ser apedrejados, é evidência de uma bíblia ultrapassada e inadequada para abordar questões da vida contemporânea.

Você não precisa explicar "textos de horror", aqueles versículos da Bíblia que são citados fora do contexto, para justificar a condenação da homossexualidade como algo inevitável, porque é "a vontade de Deus." Você pode simplesmente rasgar as páginas do livro.

Na verdade, você pode achar que seria mais simples salvar apenas uma página, como uma regra de ouro de Jesus sobre isso e jogar fora todo o resto. Isso é provavelmente o que o próprio Jesus teria feito.

A mensagem a ser aprendida a partir da observação das atitudes anti-gays e do comportamento das igrejas cristãs é que é hora de seguir em frente. Vamos jogar fora o bebê com a água do banho, porque na verdade a água está suja, o bebê morreu e o corpo está em putrefação, merecendo um enterro respeitoso.

Não é suficiente para o Cristianismo Queer seguir buscando os significados originais, ou descobrir que Jesus teria sido pró-gay, ou se ele tinha as palavras para falar sobre tais questões - embora, naturalmente, isso seja verdade. A Cristandade é mais uma voz no diálogo sobre o significado espiritual - e ela tem um sotaque muito antiquado.

Você próprio precisa estranhar a religião. Todos nós, gays e heterossexuais, precisamos de um novo paradigma espiritual que faça sentido no mundo moderno e fale com uma voz moderna e esclarecedora. Isso, eu acho, é o que é "espiritualidade gay", é a direção para onde a raça humana está evoluindo.

O "novo mito" é o conto do que a religião e o mito têm sido na história da evolução da consciência. Podemos entender que estas coisas têm sido metáforas sobre a consciência.

Esta constatação é a seguinte: 1) um mito de ordem superior, 2) uma “queerização” real - no sentido de despojar - da religião e das noções tradicionais de autoridade religiosa, e 3), ironicamente, a salvação da religião como uma forma de alta cultura, arte.

Se a religião e o mito estão em concorrência com a ciência para descrever o mundo material externo, a religião necessariamente perderá. Se a nova compreensão da religião e do mito é a ferramenta científica para descrever as estruturas da consciência profunda no interior, no mundo "espiritual", então a religião e a ciência trabalham lado a lado, em prol da evolução e expansão da consciência.

Pois, tudo isto é fundamentalmente a respeito do Universo despertando para si. De um modo paralelo e profundamente significativo, eu acho que ser queer é despertar para si mesmo. Ninguém se identifica como gay ou “bicha” sem ter despertado de alguma forma, isto é, sem ter compreendido os indícios que suas vidas dão sobre sua própria experiência interior da consciência.

Ser queer, ser gay dá-nos o suporte notório para a compreensão e o movimento em direção ao novo mito que é a vanguarda da evolução da consciência. É ser um com o universo em evolução, sendo um com o Big Bang, sendo um com "Deus".

O caminho para a religião queer é ser Deus.


Sobre Toby Johnson

Toby Johnson, PhD, é autor de oito livros: três livros de não-ficção que aplicam a sabedoria de seu professor e "velho sábio", Joseph Campbell aos modernos problemas sociais e religiosos cotidianos, três romances do gênero gay que dramatizam temas espirituais no âmago da identidade gay, e dois livros sobre a espiritualidade de homens gay e a experiência mística da homossexualidade.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

[Tradução] Espiritualidade Gay - Identidade Gay e a transformação da consciência humana

Espiritualidade Gay
Identidade Gay e a transformação da consciência humana

A questão do porque os gays estão aqui!


(Tradução de partes da Introdução do livro "Gay Spirituality", de Toby Johnson - White crane Institute, 2000 - tradução de Paulo Stekel)

Existe um esclarecimento que acompanha o ser gay, uma compreensão do real significado e mensagem da religião. Nem todos os gays aproveitam-se deste esclarecimento. Alguns estão fechados a isto por atrações momentâneas da carne e pelo glamour de uma vida gay liberada. Alguns estão cegados pela culpa e confusão inseridas neles por uma sociedade homofóbica. E, alguns estão cegados pela desinformação perpetuada pela religião institucionalizada. No entanto, este esclarecimento espiritual está aqui para nós, se abrirmos nossos olhos.

A percepção dos gays vem, em parte, do fato de verem o mundo da perspectiva de um estranho. Ela advém também de se trazer um diferente e menos polarizado conjunto de suposições ao processo de se observar o mundo. E ela vem, para a maioria de nós, de eles não serem pais, portanto, não chegando ao ponto de criar prole ou manter as expectativas futuras de suas vidas. As várias formas do que é chamado "espiritualidade gay" nascem - e são facilitadas - a partir desta postura de percepção.

Uma vez que os gays estão condicionados a sair dos pressupostos da sociedade para verem a sexualidade de um modo mais expansivo, nós somos abençoados - e, por vezes, amaldiçoados - com esta visão de vanguarda. Se pudermos tratar desta visão satisfatoriamente, podemos cuidar de cada um na compreensão da real mensagem da religião.

De fato, é através de nossos questionamentos que os religiosos estão sendo testados na real mensagem de suas fés: Eles devem obedecer o mandamento de amar seu próximo ou devem ceder ao preconceito e à homofobia? A mentalidade religiosa pode acompanhar a mudança cultural?

É no que diz respeito a estes questionamentos que as Igrejas têm se afastado. Apelando para a homofobia, baseada em uma visão fora de moda da natureza humana - em vez de ajudar a curá-la para o bem de TODOS - elas demonstram sua falha no cumprimento dos ensinamentos básicos que proclamam sobre amor e compaixão, exemplificam a inabilidade para lidar com o mundo moderno, e demonstram (para nós, ao menos) que não estão sendo levados pela Orientação Divina.

O mundo mudou

A religião popular não faz mais qualquer sentido. Os mitos tradicionais descreviam o universo como um disco pequeno, não muito maior que a bacia do Mediterrâneo e com cerca de 4 mil anos, flutuando no centro de um firmamento aquoso, comandado por deidades personificadas com traços distintivamente humanos. A observação científica nos mostra um universo que se estende bilhões de anos-luz no espaço-tempo em expansão. Não há firmamento de águas, e os deuses míticos não poderiam ter começado a sondar o cosmos moderno. E nós só o estamos observando com instrumentos sofisticados há poucas décadas. Nós apenas começamos a ver que ele realmente é.

Os velhos mitos não abordam muitas das questões que impulsionam a consciência moderna: superpopulação, poluição, dinamismo ecológico, o bem-estar dos oceanos e florestas, armas de destruição em massa, exploração do espaço, câncer, televisão, automóveis, biotecnologia, computadores, globalização, evolução, liberdade, democracia, sofisticação psicológica, igualdade racial e, claro, orientação sexual.

Espera-se que a religião seja o condutor da sabedoria. Seus mitos se imagina serem descrições - metafóricas e simbólicas - de como a consciência opera. Mas, as operações da consciência se tornaram muito mais complexas para serem faladas pelos velhos mitos. Algumas coisas - coisas antes importantes, como sacrifício humano e pureza ritualística - nem sequer nos interessam hoje em dia.

O modo de reabilitar os aspectos positivos da religião - às vezes citados por religiosos revolucionários contemporâneos como "espiritualidade" - consiste em ascender a uma perspectiva mais elevada a partir da qual se compreenda a sabedoria escondida sob os mitos religiosos.

A consciência gay e o real significado da religião

Nos últimos 100 anos um novo modo de expressar e entender a identidade sexual se desenvolveu entre os seres humanos. Agora usamos palavras como "homossexual" e "heterossexual". Enquanto as pessoas obviamente tinham sexo homossexual no passado e formavam círculos de amizade e panelinhas sociais com outras pessoas como elas, até recentemente apenas alguns raros identificaram-se assim, ou experimentaram esse fato como uma fonte de traços de personalidade distintivos e positivos. Isso é algo novo. Isso nos conduz a uma nova perspectiva de vida.

A consciência gay está treinada desde a tenra idade para ver a vida de uma perspectiva de distância crítica. Os gays são hábeis em ver a mais, e além, e no exterior. Podemos tirar isso como modelo para o restante da humanidade sobre como entender a real sabedoria da religião.

Homossexualidade e religião são inextricavelmente entrelaçadas. A principal objeção à homossexualidade entre as correntes de pensamento nos EUA continua a ser a tradição religiosa e as prescrições bíblicas. Todavia, muitos homossexuais naturalmente incorporam os traços de sensibilidade e gentileza que a religião pretende ensinar. Os homens gays geralmente levam uma vida santa e moralmente exemplar. Apesar dos exemplos em contraposição que possam ser oferecidos, há uma bondade e virtude inerente à vida dos gays, além de uma demonstração de espiritualidade real que em muitos de nós resolve o problema de se dar sentido à religião no mundo moderno.

O conflito entre os ensinamentos da Igreja e a realidade dos sentimentos gays pode criar uma crise espiritual que leva os homossexuais a reavaliarem a religião e o significado de suas vidas. Esta crise espiritual conduz algumas pessoas a rejeitarem suas sensações religiosas/espirituais, muitas vezes fora da indignação com a cegueira e estupidez da religião convencional. Enquanto isso pode ser um ato de integridade espiritual, pode custar a estas pessoas uma parte importante da vida. Afinal de contas, a espiritualidade pode oferecer uma visão de esperança e sentido em um mundo que às vezes parecer estar em um miasma sem esperança de dor e sofrimento. No seu melhor, a espiritualidade concede visão e amor pela vida. Isso amplia nossa perspectiva. Isso nos sensibiliza para a beleza e a vitalidade - as mesmas coisas em que os gays se sobressaem.

Muitos gays, contudo, não rejeitam nem sua religiosidade - eles são bons, gentis e honestos em seu interesse nas coisas espirituais - nem sua homossexualidade e satisfação na sua vida gay.

O homem gay como um adepto espiritual

O estereótipo do homem gay é só isso - um estereótipo, não mais real do que qualquer outro. Ele se aplica somente a alguns homens gays. Outros homens gays podem sentir que nem mesmo entendem o que significa o estereótipo/arquétipo. Tudo ok. Articular e promover o arquétipo espiritual gay cria a profecia auto-realizável de que assim é como os homens gays são. Nesse sentido, a noção cria o que tenta descrever.

Todo o possível

Esta oportuna atitude de solução de problemas é baseada no modelo da psicoterapia gay. Central para esta orientação gay, ou centrada nos gays, a disciplina é a crença de que a maioria dos problemas que os homossexuais enfrentam está enraizada em "homofobia internalizada". Transformando o modo como pensamos a respeito de nossa homossexualidade, permitimo-nos descobrir que a culpa e a vergonha que sentimos são uma sombra que pertence ao conjunto da sociedade. Isso nos permite ver que os homossexuais são os bodes expiatórios para a vergonha e os pecados secretos da cultura. Descobrir que somos fundamentalmente inocentes nos permite superar a deformação de caráter, a auto-flagelação, as atitudes erradas que geram muitos de nossos problemas pessoais. Isso permite à personalidade gay saudável e adaptativa brilhar através disso.

Isto é o que a religião deveria estar fazendo - tanto para homossexuais que estão descobrindo sua verdadeira identidade quanto para heterossexuais que estão atormentados com ansiedades por causa de sua própria orientação sexual -, mas não faz. A religião tradicional, em geral, não está ajudando as pessoas a lidar com a realidade moderna. Isto é em parte o motivo da psicologia estar tomando para si uma função que a religião teria que preencher.

A música "Everything Possible" (Todo o possível), composta pelo cantor e pastor Unitário-Universalista não-gay Fred Small e popularizada pelo grupo gay de canto à capela, The Flirtations, expressa lindamente esta crença de que o amor e a aceitação da homossexualidade poderia mudar positivamente a vida das pessoas. A música é uma canção de ninar, e se cantada pelos pais para suas crianças visivelmente gays, poderia mudar seu mundo - e, talvez, o mundo de todos.

Veja o vídeo e escute a música:

http://www.youtube.com/watch?v=kIQikcYOm5w

You can be anybody that you want to be
You can love whomever you will.
You can travel any country where your heart leads
and know I will love you still.


You can live by yourself,
You can gather friends around,
You can choose one special one.


And the only measure of your words and your deeds
Will be the love you leave behind when you're gone.


Some girls grow up strong and bold,
Some boys are quiet and kind.
Some race on ahead, some follow behind.
Some grow in their own space and time.
Some women love women and some men love men.
Some raise children, and some never do.


You can dream all the day,
never reaching the end
of everything possible for you.


Don't be rattled by names,
By taunts or games,
but seek out spirits true.


If you give your friends the best part of yourself,
they will give the same back to you...


And the only measure of your words and your deeds
Will be the love you leave behind when you're gone.

("Everything Possible" Copyright 1993 letra e música de Fred Small)


Tradução:

Você pode ser qualquer pessoa que desejar ser
Você pode amar quem você quiser.
Você pode viajar a qualquer país onde o seu coração levar
e sei que vou te amar ainda.

Você pode viver por si mesmo,
Você pode reunir amigos à volta,
Você pode escolher uma pessoa especial.

E a única medida de suas palavras e seus atos
Será o amor que você deixar para trás quando você tiver ido.

Algumas meninas crescem fortes e corajosas,
Alguns meninos são calmos e gentis.
Alguns correm na frente, alguns seguem para trás.
Alguns crescem em seu próprio espaço e tempo.
Algumas mulheres amam mulheres e alguns homens amam homens.
Algumas criam filhos, e alguns nunca o fazem.

Você pode sonhar o dia todo,
nunca chegar ao fim
de todo o possível para você.

Não ser abalado por nomes,
Por insultos ou jogos,
mas procure espíritos de verdade.

Se você der a seus amigos a melhor parte de si mesmo,
eles vão dar o mesmo de volta a você ...

E a única medida de suas palavras e seus atos
Será o amor que você deixar para trás quando você tiver ido.

(Tradução de Paulo Stekel)