sexta-feira, 1 de março de 2013

Imediata destituição do Pr. Marco Feliciano da Presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal

Por Espiritualidade Inclusiva


Assine já!!!!


[Comentário racista do Dep. Pastor Marco Feliciano feito no microblog Twitter tempos atrás]


ASSINE A PETIÇÃO:


Pedimos aos Senhores Deputados Federais que destituam da presidência da Comissão de Direitos Humanos, o Pr. Marco Feliciano (Partido Social Cristão; leia-se Assembléia de Deus), conhecido por comentários racistas e homofóbicos, além de não respeitar as religiões de matriz africana. É inaceitável que a comissão fique nas mãos de alguém que irá lutar contra qualquer avanço em direção ao reconhecimento dos direitos humanos no Brasil, uma matéria ainda tão frágil em nosso país. Para se ter um paralelo, imaginemos que países autoritários comandassem o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. Ao designar o Pr. Marco Feliciano para essa posição, os demais parlamentares realizam um ato que contraria a lógica ou o bom senso.


Assinar agora: 


Por que isto é importante:

Em razão da comissão ficar com sua finalidade real engessada.


Informe-se mais:

Para saber mais sobre o pensamento homofóbico de Marco Feliciano, acesse em nosso blogue os artigos de Paulo Stekel rebatendo-o em duas ocasiões:







domingo, 24 de fevereiro de 2013

A renúncia do Papa Bento XVI e os Direitos Humanos: onde estamos e para onde iremos?


Por Luciano Freitas Filho (publicado originalmente em http://www.psb40.org.br/art_det.asp?det=315)


A notícia da renúncia do Papa Bento XVI, a ser oficializada no próximo dia 28 de fevereiro, é de causar estranheza e nos pega de surpresa em plena folia com o Rei Momo, com os Pierrots e as Colombinas. Essa “saída de cena” intriga e provoca reflexões não somente nos católicos, mas também em todas as pessoas ao redor. Sejam quais forem os reais motivos que levaram o líder máximo da Igreja Católica a abdicar do Pontificado, essa renúncia implica em novas possibilidades para as sociedades que, embora laicas, se movem em torno dos preceitos e costumes do Catolicismo.

Justiça seja feita, por mais que tenha certa antipatia e discorde quase que plenamente dos valores difundidos nos discursos e práticas do atual Papa, tiro meu chapéu e aplaudo sua atitude em deixar a vaidade de lado e abdicar do poder. Abrir mão de poder é algo que é fácil no discurso, mas difícil na prática para qualquer que seja a pessoa e sua classe social. Reconhecer a hora de sair e abrir mão do poder tem um gosto amargo de fel .

Por outro lado, mesmo o aplaudindo, considero essa saída um alívio para a Diversidade e os Direitos Humanos, tendo em vista que Bento XVI é uma liderança polêmica, pouco simpática à emancipação da mulher, ao ser e estar dos LGBT, do atuar firmemente na defesa da recuperação dos países africanos ou no combate à exploração dos trabalhadores. Eis um líder que se afasta bastante de uma evangelização progressista que prima pela liberdade das pessoas de serem e estarem enquanto diferentes, do olhar para as pessoas para além do julgar, mas primordialmente colaborar com elas na perspectiva de seu bem-estar e uma vida no e para o amor. Não há como evitar estabelecer um paralelo entre o referido líder e demais líderes Católicos, a ver como exemplo o Papa João Paulo II, Dom Helder Câmara, entre outros. O Bento XVI de longe é um evangelizador carismático como os supracitados, líderes que entoaram o coro de um Catolicismo da libertação.

A notícia em questão nos traz certa esperança de que aquele que está por vir, o sucessor deste, traga aos Cristãos discursos que provoquem reais mudanças sociais. Para além de cultos e discursos “iluminados”, é preciso que o Vaticano mova seus fieis em prol das práticas que agreguem, que consigam ir além do julgar o certo e o errado, o moral e o imoral, porém que apontem uma ética que guie para a felicidade e o amor ao próximo, como é recorrente nas práticas de muitos setores da própria Igreja Católica, de muitos líderes e fieis cristãos. De nada adianta o Conclave quebrar padrões ao eleger uma Papa negro, latino ou oriental, se as práticas e os discursos do próximo eleito persistirem conservadoras, opressoras ou estimulando preconceitos. Desse modo, mudaremos o corpo, mas o espírito de longe será santo.

O que se espera dos Cardeais é o enxergar dos novos caminhos e desafios apresentados pelo Século XXI para a evangelização , um pregar que motive e desperte nas pessoas razões para crer na Palavra com uma fé inabalável, uma fé que se materialize na prática e cotidiano dessas pessoas. É preciso eleger um Papa que seja o porta-voz de propostas e caminhos igualmente para aqueles Ateus ou não Católicos, para que esses passem a não somente respeitar a Igreja Católica, mas também a concordar e simpatizar com ela, colaborar, mesmo que de fora, cooperar com um discurso que garanta a liberdade, a igualdade e uma real fraternidade.


Sobre o autor


Luciano Freitas Filho é Secretário Nacional LGBT do PSB.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Preconceito: retrato de uma sociedade segregária

Por Valéria Nagy


Já dediquei outros posts em meu blog La Strega ao tema "preconceito", mas creio que é um tema que nunca se esgota, haja vista sua epidemia na sociedade. A cada época, momento, dia, hora, é "criado" um novo preconceito. Para quem se preocupa em viver e manter uma sociedade sadia, isso é preocupante.

É fato que os preconceitos existem há milênios, tomando forma especialmente a partir do momento em que a raça humana passa a conduzir a sociedade por meio de conceitos religiosos. De lá para cá (e já faz muito tempo mesmo, acreditem) um número imenso e crescente de preconceitos passou a existir. Atualmente vivemos no que eu chamo de "ditadura do preconceito", pois é ele, o preconceito, com sua grandiosa capacidade de mudar a forma de pensar de pessoas, por meio de suas imposições e julgamentos, quem manda no mundo hoje. Se observamos, notaremos que o pensamento das massas tem fundo em alguma "crença" que "alguém" falou que "leu" em algum lugar etc., etc., etc. E que sempre termina na ideia de que "Deus disse que é assim".

Infelizmente temos que aceitar o fato de que os humanos foram corrompidos pelo mal uso da palavra, pelas crenças e pelo hábito de julgar o próximo.

Em um triste momento da história, o homem (e aqui me refiro ao gênero masculino do ser humano) instituiu, pela força da palavra e blasfemando em nome de Deus, que as mulheres não tinham alma, rebaixando-as a meras reprodutoras e com a "obrigação" de cuidar deles, os homens. Estes homens passaram então a impor que o sexo masculino era naturalmente superior não só em força física, mas em capacidade intelectual e espiritual também. Imagino que isso tenha começado a ocorrer em priscas eras, antes mesmo de Moisés. É fácil notar que o Antigo Testamento da Bíblia é direcionado em totalidade à compreensão exclusivamente masculina, ou seja, foi escrito apenas para os homens. Porém, na Antiguidade isso não era assim, as mulheres eram valorizadas e havia equilíbrio entre os gêneros (como na sociedade celta, por exemplo).

Mas as coisas foram piorando ao longo do tempo, distorcendo o conceito de evolução. A palavra preconceito significa: Conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos adequados. Opinião ou sentimento desfavorável, concebido antecipadamente ou independente de experiência ou razão. Superstição que obriga a certos atos ou impede que eles se pratiquem. Atitude emocionalmente condicionada, baseada em crença, opinião ou generalização, determinando simpatia ou antipatia para com indivíduos ou grupos. Ou seja, preconceito é opinião sem conhecimento. Ora, como posso endossar algo que por si só já me diz que é errado? Afinal, se uma opinião é formada com base em algo que não se conhece, já começa não tendo credibilidade alguma. Portanto, é uma opinião morta, sem fundamento. E preconceito é isso, algo que se expressa sem fundamento algum. Algo que não se pode dar crédito, que não se pode acreditar.

Mas, infelizmente, na realidade, o preconceito, mesmo sem fundamento, tem força e promove a falta de entendimento entre as pessoas. Ele corrói a sociedade e transforma conceitos verdadeiros em erros de interpretação e faz nascer, assim, ódio nos corações. Isso ocorre porque ele foi tão bem "tatuado" na sociedade que se tornou algo quase impossível de ser retirado, isso porque dentro do "preconceito-pai", a origem de um pré-conceito, foram reproduzidos milhares de formas diferentes de preconceito. Uma verdadeira disseminação sem controle. O ódio que cria mais ódio que cria novos ódios e assim sucessivamente.

Vivemos assim, no meio de toda essa fábrica de ódios. Pessimista, você pensou? Não, isso é overdose de realismo. Mas não percamos a esperança. Há ainda meios para limpar essa sujeira criada por nós. E o jeito é mudar a mente e o coração. Dá trabalho, muito trabalho. Por certo que fará muitas vítimas ainda, mas a luta não pode ser interrompida.

O retrato da intolerância hoje é vasto, há preconceito contra os negros, os índios, os amarelos, os imigrantes, os migrantes. Há preconceito contra os deficientes físicos, os deficientes mentais, os baixos, os muito altos, os anões, os obesos, os inteligentes, os com inteligência mais limitada. Há preconceito contra os homossexuais, contra os transexuais. Há preconceito contra os judeus, os muçulmanos, os hindus, os espíritas, os umbandistas, os esotéricos. Há preconceito contra as mulheres. Há preconceito contra os pobres, os incultos.

Nomearam preconceitos: xenofobia, homofobia, bulliyng, racismo, etc. Há até preconceito contra quem torce para outro time de futebol, quem gosta de certos estilos musicais, quem gosta de se vestir de determinada maneira, quem tem tatuagem, quem gosta de pintar o cabelo, etc., etc., etc.!

E, com certeza ainda existem outros preconceitos dentro dos próprios preconceitos, que se vão multiplicando como coelhos pelas mentes e corações das pessoas!

Foi determinado que a maioria está certa e a minoria deve ser esmagada. Não se respeita direitos e não se cumpre deveres sociais, quais sejam o respeito, a tolerância entre as pessoas e suas escolhas. E muitos preconceituosos exaltados não se satisfazem apenas em ter o preconceito, precisam expô-lo e forçá-lo, como ocorre em atos violentos de intolerância.

É fácil perceber que preconceito é algo errado, pois se analisarmos morfologicamente, veremos que a preposição que rege a palavra "preconceito" é "contra". E "contra" significa algo em oposição hostil, em luta, na direção oposta. Portanto, o preconceito estará sempre agindo contra alguém ou algo.

Encontrei em alguns sites e blogs, pessoas que espantosamente defendem que existem "preconceitos bons", pois servem como um alerta à sociedade, fazendo com que ela se proteja de algo que não lhe será bom. Ora, como posso aceitar essa ideia? Se o preconceito é algo que se conceitua sem que se tenha conhecimento sobre determinado assunto ou comportamento, e que vai contra pessoas, como dizer que pode haver um lado bom nele? Como uma ideia que não é fundamentada em conhecimento sólido pode ser aceita como correta? Como algo que provoca a intolerância pode ter um lado bom? Portanto, não posso concordar com a ideia de que possam existir preconceitos "camaradas", ou seja, bons.

A meu ver, o primeiro passo para romper preconceitos é perder o medo de enfrentá-los. Não aceitar simplesmente ser excluído da sociedade, mas sim insistir em voltar para o meio e gritar: "Esse lugar é meu e ninguém vai me tirar o direito de existir, só porque acha que não devo existir!" Estamos vivos e temos direito à vida plena!

O muro de Berlim foi quebrado após muita luta e muitas lágrimas derramadas na Alemanha. Mas caiu! Os preconceitos também terão de ser quebrados, derrubados. Será assim feito à custa de lágrimas e sofrimento? Sem dúvida. Mas terá de ser feito! E para isso não precisaremos que enxofre e fogo sejam derramados sobre nossas cabeças, como em Sodoma, não! Serão nossas mãos unidas, nossa voz gritando em uníssono que todos têm direito a viver com respeito e dignidade social.

E Deus, aliás, é o puro Amor. Tenho que refutar quem diz que foi o próprio Deus quem estabeleceu os preconceitos. Refutarei sempre, pois é contraditório e foge à lógica simples acreditar que Deus manda seus filhos odiarem-se. Como se diz por aí: tenha dó!

Preconceito é a desculpa perfeita para justificar a intolerância. Justificar o injustificável é chover no molhado. E por que, então, o preconceito é tão forte e cresce cada vez mais na sociedade? Porque a ser humano tem pouquíssimo conhecimento sobre si mesmo. Essa é a resposta. Quem não conhece a si mesmo repete o que os outros falam, sem questionar e decretando aquilo como a verdade absoluta. Há de se educar as massas, educar com a verdade, para que esses pré-conceitos sejam eliminados, pois educando com a verdade, impedimos que quaisquer preconceitos sequer nasçam naquela mente, e, consequentemente a sociedade vai mudar.

Por fim, este texto foi elaborado para que o leitor desperte o raciocínio e pense sobre os preconceitos, inclusive, os que ele próprio tenha e possa, com isso, refletir sobre o porquê de se ter preconceito seja lá do que for. Refletir, buscar entendimento, adquirir conhecimento e enxergar algo como de fato é, sem suprimir informações nem se basear em profecias bíblicas. Só assim para que possamos exercer nossa religiosidade plenamente e só assim para estabelecermos uma sociedade verdadeiramente fraterna e harmônica em sua diversidade.

Não se deixe excluir. Não exclua ninguém. É preciso ter tolerância no coração. Quanto mais a sociedade muda seus conceitos pré-concebidos, mas a Humanidade vai tornar-se realmente humana.

Que Assim Seja.
Paz Profunda!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Opinião sobre Silas Malafaia no “De Frente com Gabi”


Por Rômulo Neiva


Achei por bem escrever sobre o assunto colocando meu ponto de vista, visto que todos nós gozamos das nossas faculdades mentais e temos o mínimo de instrução para, nos despindo de qualquer preconceito, poder examinar ambos os lados e tirarmos nossas próprias conclusões. Não com soberba, ódio e muito menos pregando a intolerância, mas com a plena certeza de que Deus nos deu um cérebro e inteligência o suficiente para usarmos, principalmente em casos como este, onde alguém se levanta para pregar a intolerância e o ódio, ao invés do evangelho de salvação e do amor de Cristo.

Vamos lá...

Eis o vídeo:



O vídeo por si só já mostra muita coisa, basta observar a expressão de ódio e intolerância quando o Sr. Silas Malafaia entra no assunto da homossexualidade, mas ainda assim gera perguntas e dúvidas de pessoas simples que querem viver uma vida de acordo com a vontade de Deus e estão cansadas de gente julgando e apontando o dedo devido à sua orientação sexual (orientação, não escolha como diz Silas, porque é irracional acreditar que uma pessoa escolha viver debaixo de preconceito e intolerância da sociedade e fanáticos religiosos).

Em primeiro lugar é necessário entender que a Bíblia começou a ser escrita há milênios e foi concluída ainda no primeiro século da Era Cristã. Não foi escrita em Português, foi escrita em hebraico com alguns trechos em aramaico (Antigo Testamento) e grego (Novo Testamento). O grego usado era o grego popular (grego coiné) e não o grego clássico, ou seja, possui trechos de difícil interpretação devido ao desuso de muitas palavras. A partir daí surgiram as traduções em diversas línguas, incluindo o nosso Português.

Em segundo lugar, vale também lembrar que o Sr. Silas Malafaia é envolvido com política e, segundo a Revista Forbes, o terceiro pastor mais rico do Brasil. Segundo a Forbes, a fortuna é avaliada em R$ 300.000.000,00 e segundo o próprio Silas, que disse ser inverídica essa informação, a sua fortuna seria de R$ 4.000.000,00. Independente de fortuna e envolvimento com a política, o que mais chama a atenção é sua veemência em acusar e condenar os homossexuais.

A pior mentira que existe é aquela que está embutida em uma verdade. Sim, muita coisa que ele diz é verdade e não queremos julgar a sua sinceridade em querer servir a Deus. O que estamos buscando aqui é, através da própria Bíblia, enxergar o quanto ele está sendo desonesto em interpretar determinados versículos a bel prazer e simplesmente ignorando outros tantos que sabemos que nenhuma igreja cristã hoje em dia segue.

Diz o Sr. Silas que ninguém nasce gay e que homossexualidade é um comportamento aprendido ou imposto. Diz também que 45% dos homossexuais foram abusados quando crianças e que os outros 54% escolheram ser. Diz também que não existe ordem cromossômica ou genética gay e somente ordem cromossômica de macho e fêmea.

Ora, quem é homossexual sabe muito bem que isso não é opção e muito menos uma escolha, visto que é difícil acreditar que alguém escolha sofrer agressões, preconceito e intolerância. Sabemos também através de nós mesmos e de amigos, quantas vezes passamos por situações ou uma fase da vida em que tentamos seguir por outro caminho, tentamos um relacionamento heterossexual e o quanto isso nos custou, justamente por ser perda de tempo.

Sabemos também que esses dados que ele passou são furados, porque milhares de crianças são abusadas diariamente e nem por isso se tornam homossexuais, muito pelo contrário, deram a volta por cima e seguem a sexualidade que sempre tiveram.

E, quanto à ordem cromossômica e gene, ninguém precisa avisá-lo que um homem não deixa de ser homem só porque é homossexual e nem uma mulher deixa de ser mulher porque é lésbica, apenas sente atração por pessoas do mesmo sexo, algo involuntário, não uma escolha, e a ciência até agora não tem nenhuma prova concreta sobre o assunto, nem dizendo que se nasce gay e nem dizendo o contrário.

Em vários momentos ele equipara homossexuais a bandidos e assassinos. É clara a desonestidade dele em relação a isso. A tentativa dele é levar a opinião pública em seu favor, pois Jesus mesmo disse que todo mandamento se resume em dois: Amar ao próximo como a si mesmo e amar a Deus sobre todas as coisas. Tudo se resume nisso. Um homossexual não está prejudicando ninguém por amar uma pessoa do mesmo sexo, mas sabemos muito bem que pedofilia, adultério, assassinato, etc., prejudica uma outra pessoa, e isso sim está fora dos propósitos de Deus.

O Sr. Silas Malafaia também disse que, na visão dele, é muito clara a condenação da Bíblia em relação à homossexualidade e que a Bíblia é para quem quiser crer e, que quem não quiser crer tem todo o direito.

Fica aqui uma pergunta então: se não somos obrigados a crer na bíblia, por que querem impor isso à sociedade impedindo que homossexuais tenham direito ao casamento e proteção?

Outra pergunta: que textos bíblicos são esses que ele tanto fala?

Já sabemos que não podemos interpretar a bíblia sem levar em consideração a língua em que foi escrita, época, autor, cultura da sociedade da época e pra quem aquele texto foi escrito.

Em Levítico, no Antigo Testamento, lemos: “Não te deitarás com homem como se fosse mulher, é abominação”, mas também diz no mesmo livro que é “abominação” comer animais do mar ou do rio sem barbatanas ou escamas. Por que a Igreja condena a homossexualidade mas não a ingestão de mariscos?

No Antigo Testamento também diz para apedrejar até a morte as crianças malcriadas, diz para a mulher no período de menstruação ficar separada do marido, diz para não comer carne de porco, etc... Porque eles usam um texto e simplesmente ignoram e não praticam outros?

Naquela época, quando a Bíblia diz para um homem não se deitar com outro como se fosse mulher, é bem claro que quando uma mulher estava em seu período de menstruação, alguns homens heterossexuais buscavam saciar seu prazer com outros homens que eram homossexuais, não porque eles também eram homossexuais, mas porque queriam se deitar com eles como se eles fossem mulheres para satisfazerem seus desejos. A condenação não está na homossexualidade e sim na promiscuidade e praticar algo que não era de sua natureza.

Quanto a Sodoma e Gomorra, não foram destruídas por causa da homossexualidade como costumam pregar. A Bíblia diz que o povo daquelas cidades abusava dos viajantes, independente de serem homens ou mulheres, simplesmente por prazer também. Não há condenação da homossexualidade e sim da inospitalidade (a hospitalidade era algo muito sagrado para os judeus) e por causa da promiscuidade.

Bom, vimos aqui que usam muito textos do Antigo Testamento para acusar os homossexuais, mas simplesmente ignoram outros textos que eles mesmos acreditam não valer para os nossos dias.

Vamos então ao Novo Testamento.

Trecho do livro de Romanos na versão da Bíblia Almeida Corrigida e Revisada, onde é usada uma linguagem culta e que causa más interpretações (usada pelos evangélicos):

“Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça. Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis; Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis. Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si; Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém. Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro. E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm; Estando cheios de toda a iniqüidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade; Sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães; Néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia; Os quais, conhecendo a justiça de Deus (que são dignos de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que as fazem.” Romanos 1:18-32 (Versão Almeida Corrigida e Revisada)

Agora vamos ver o mesmo trecho do livro de Romanos, só que na versão da Bíblia A Mensagem, onde é usada uma linguagem contemporânea e mais usual para os nossos dias. Diz as mesmas coisas, mas com outras palavras (também usada pelos evangélicos):

“Mas o furor divino é despertado pela falta de confiança do ser humano em Deus, pelos erros repetidos, pela mentiras acumuladas e pela manipulação da verdade. Mas a verdade essencial sobre Deus é muito clara. Abram os olhos e poderão vê-la! Se analisarem com cuidado o que Deus criou, serão capazes de ver o que os olhos deles não enxergam: o poder eterno, por exemplo, e o mistério do ser divino. Portanto, ninguém tem desculpa. Vejam o que aconteceu: a humanidade conhecia Deus perfeitamente, mas deixou de tratá-lo como Deus, recusando-se a adorá-lo, e foi reduzida a um tão terrível estado de insensatez e confusão que a vida humana perdeu o sentido. Eles fingem saber tudo, mas são ignorantes sobre a vida. Trocaram a glória de Deus, que sustenta o mundo, por imagens baratas vendidas na feira. Então Deus se pronunciou: “Se é isso que vocês querem, é o que terão”. Não demorou muito para que fossem viver num chiqueiro, enlameados, sujos por dentro e por fora. Tudo porque trocaram o Deus verdadeiro por um deus falso e passaram a adorar o deus que fizeram no lugar do Deus que os fez - o Deus a quem bendizemos e que nos abençoa. Loucura total! Então aconteceu o pior. Como se recusaram conhecer Deus, logo perderam a noção do que significa ser humano: mulheres não sabiam mais ser mulheres, homens não sabiam mais ser homens. Sexualmente confusos, abusaram um do outro e se degradaram, mulheres com mulheres, homens com homens - pura libertinagem, pois de modo algum isso pode ser amor. Mas eles pagaram caro por isso, e como pagaram: são vazios de Deus e do amor divino, perversos infelizes e sem amor humano. Uma vez que eles não se importaram em reconhecer Deus, Deus desistiu deles e os deixou por conta própria. A vida deles agora é uma confusão só, um mal que desce ladeira abaixo. Eles tomam à força o que é alheio, são ambiciosos e caluniadores. Cheios de inveja, violência, brigas e trapaças, fizeram da vida um inferno. Olhem para eles: são maliciosos, venenosos, críticos ferozes de Deus, brigões, arrogantes, gente vazia e insuportável! Mestres em criar meios de destruir vidas e revoltados contra os pais. Não passam de seres tolos, asquerosos, cruéis e intransigentes. Até parece que eles não sabem o que fazem, mas têm plena consciência de que estão cuspindo no rosto de Deus - e não se importam! Pior ainda, premiam quem faz as piores coisas com eficiência.” Romanos 1:18-32 (Versão A Mensagem)

Ambas as traduções acima são aceitas e usadas pelos evangélicos, mas há uma nítida clareza no segundo texto (versão A Mensagem), onde a tradução e linguagem é muito mais fiel ao original e mostra a verdadeira condenação do texto.

A condenação está na prática da idolatria, trocar a adoração a Deus pela adoração de criaturas. Qualquer pessoa que concluiu o primeiro grau sabe que naquela época, no império romano, as pessoas adoravam vários deuses e praticavam cultos que envolviam a prostituição. Eram pessoas heterossexuais que iam contra a natureza e praticavam a homossexualidade por adoração a outros deuses, essa prática é conhecida como prostituição ritualística e era comum e considerada normal naquela época. Não existe nenhuma condenação aos homossexuais e sim condenação à idolatria e à prática do sexo descontrolado, sem envolvimento de amor, a troca da natureza sexual por outra que não lhe condiz. Está muito claro isso, tanto é que logo em seguida há uma descrição de como são essas pessoas, e isso vale tanto para heterossexuais quanto para homossexuais.

Por isso não devemos interpretar a Bíblia ao pé da letra. Temos que levar em consideração época, língua, cultura e para quem foi escrita (Neste caso em particular, obviamente a carta foi escrita aos romanos).

Outro texto usado no Novo Testamento é o seguinte:

Trecho do livro de I Coríntios na versão da Bíblia Almeida Corrigida e Revisada, onde é usada uma linguagem culta e que causa más interpretações (usada pelos evangélicos):

“Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus.” 1Coríntios 6:9-10 (Versão Almeida Corrigida e Revisada)

Agora vamos ver o mesmo trecho do livro de I Coríntios só que na versão da Bíblia A Mensagem, onde é usada uma linguagem contemporânea e mais usual para os nossos dias. Diz as mesmas coisas, mas com outras palavras (também usada pelos evangélicos):

“Não percebem que esse não é o caminho de se viver? Os injustos, que não se preocupam com Deus, não farão parte de seu Reino. Quem usa e abusa das pessoas, do sexo, da terra e de tudo que nela existe não se qualifica como cidadão do Reino de Deus. Estou falando de libertinagem heterossexual, devassidão homossexual, idolatria, ganância e vícios destruidores.” 1Coríntios 6:9-10 (Versão A Mensagem)

Novamente a segunda tradução deixa muito mais claro o que se refere o texto. Não há condenação aos homossexuais e sim à promiscuidade e devassidão heterossexual e homossexual.

As palavras no original são "Malakoi" e "Arsenokoitai", ficando assim: “Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem “malakoi”, nem “arsenokoitai”, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus.”

Porém, como disse anteriormente, são palavras no grego coiné, grego popular, onde muitas palavras perderam seu sentido com o passar do tempo, significando respectivamente: mole ou “pele macia” e homem-cama.

Difícil entender né? Por isso usamos o contexto para usarmos uma palavra mais adequada em nossa língua. Mole ou “pele macia” naquela época eram homens covardes que agiam como mulheres para fugirem das responsabilidades, e não efeminados como alguns preferiram traduzir, e Homem-cama é relacionado a homens que se prostituíam e eram promíscuos, nada intimamente relacionado com a homossexualidade. Enfim, está relacionado com pessoas covardes e promíscuas (prostituição, pedofilia, pederastas, etc).

Muitos teólogos e igrejas hoje em dia reconhecem essa má interpretação dos textos originais e estão usando versões contemporâneas da Bíblia, justamente para não caírem nesse erro grotesco de condenarem os homossexuais onde a Bíblia não condena. Resultado disso tudo é a aceitação de homossexuais por partes da Igreja Anglicana, Luterana, Presbiteriana, Igrejas Inclusivas, entre outras...

Vimos acima que os evangélicos fanáticos usam versos do Novo Testamento para condenar os homossexuais, mas novamente vem aquela pergunta: por que eles usam uns versos para condenar os homossexuais e esquecem de outros versos com mandamentos claros referentes à igreja e que nenhuma delas praticam hoje em dia?

Exemplo:

“Conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar; mas estejam submissas como também a lei o determina”. I Cor. 14:34.

“Que a mulher aprenda em silêncio, com total submissão. A mulher não poderá ensinar nem dominar o homem.” I Timóteo 2:11-12

Ora, sabemos muito bem que existem pastoras em quase todas as igrejas, e nas igrejas que não tem pastoras tem diaconisas e líderes mulhres que pregam e ensinam.

“Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me.” Mateus 19:21

Opaaaaa, como assim? Tenho R$ 4.000.000,00 em dinheiro e bens, venderei tudo e darei aos pobres??? Ahhh não, melhor pular esse trecho da Bíblia. (Imagino que o Sr. Silas ao ler este trecho deve pensar assim).

Óbvio que determinados conceitos no Novo Testamento não servem para nossos dias. Devemos levar em consideração que as coisas mudam e que permanece apenas o respeito a Deus e ao próximo que devemos ter. Tudo na Bíblia é inspirador e digno de total confiança, o que não se pode é confundir algo que foi escrito para determinada época e cultura e querer viver isso hoje.

Enfim, seria necessário várias páginas para abordar o assunto mais a fundo, mas acredito que as coisas ditas acima são o suficiente para abrir nossas mentes e entendermos mais honestamente o assunto. Existe muito material disponível na internet e que são muito mais esclarecedores.

Espero com isso ter ajudado algumas pessoas e incentivado outras a pesquisarem melhor sobre o assunto e não somente ouvir de um pastor qualquer absurdo grotesco e sair por aí divulgando preconceito e intolerância sem ao menos pesquisar. Existem, sim, muitas pessoas inteligentes pregando o contrário, mas o fato é que a inteligência pode ser usada para o bem e para o mal, cabe a nós escolher um dos caminhos.

Não há erro nenhum em ser homossexual e ser cristão. O erro e ignorância está na cabeça de quem quer acobertar os próprios pecados acusando os outros. Não revide esses tipos de ofensas, a melhor resposta é ignorar e demonstrar amor.

"Com efeito: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor." Romanos 13:9-10


Sobre o autor


Rômulo Neiva tem 30 anos e nasceu em Santo André – SP. Aos 17 anos converteu-se à Igreja Batista, a qual ainda frequenta, mas sem envolvimento em liderança. Cursou Teologia por 4 anos na Faculdade Teológica Batista e hoje defende e crê na Teologia Inclusiva. Se considera apenas um cristão que ama Teologia, mas que dispensa o título de teólogo.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Sou gay... e muçulmano. Como faço?


Por Paulo Stekel


Quando pensamos em gays no mundo muçulmano, imediatamente nosso pensamento se volta para o Oriente. Esquecemos ou sequer nos damos conta de que há muçulmanos no Brasil, brasileiros natos, e muçulmanos.. e, alguns, com certeza, gays.

Esta semana fomos surpreendidos por uma mensagem postada no blogue do Movimento Espiritualidade Inclusiva exatamente por um gay muçulmano brasileiro que resolveu desabafar e compartilhar conosco suas dúvidas, seu sofrimento e suas perspectivas de vida. Prometemos responder-lhe através do presente artigo.

A mensagem deixada por ele, que assinou apenas como “Samir”:

“Boa noite. Sou muçulmano e gostei muito do blog. Contudo, vocês são cristãos ou são um grupo ecumênico? Nada contra mas só queria saber mesmo.

Eu passo por alguns problemas; me desculpem se eu usar o blog para desabafar pois não tenho ninguém para conversar.

Sofro como muçulmano e como gay. Minha identidade muçulmana é forte, rezo, leio o sagrado Quran e faço todos os preceitos que pede a religião. Para muitos muslims (muçulmanos) ser gay é tabu ou pecado; apenas uma minoria é cabeça aberta, aceita ou tolera. Minha família é toda religiosa.

Mas também não me identifico com o mundo gay, quer dizer boates, bares e essas coisas. Primeiro, que bebida alcoólica é haraam (pecaminoso) no islam e eu não bebo pois faz mal à saúde também. O meio gay é marcado por caras que querem só sexo, tem uns que se drogam, é muito triste. Quando eu vejo tal situação, penso e reflito: "não quero isso para mim!" Gostaria de conhecer um cara que fosse gente boa e cabeça aberta mas que também gostasse de um companheirismo, mais que sexo e que tivesse valores com os quais acredito (pode ser muçulmano, cristão, judeu, etc). Mas não gosto da promiscuidade dos meios gays.

Desculpa se falei alguma coisa que você não concorde, só tô falando o que sinto e que não posso falar sem ser apedrejado por ambos os lados (muçulmanos e gays).

Ótima semana a vocês! Jazak Allah Khair!”

O tom respeitoso da mensagem mostra realmente que seu autor é um muçulmano praticante, como pode deduzir qualquer pessoa que tenha estudado um pouco desta religião com olhos sem preconceito ou rotulantes. A perspectiva de seu autor é uma perspectiva religiosa, mas também é a perspectiva de alguém cuja orientação é homossexual. O conflito é evidente.

Então, respondamos a nosso amigo (assim o consideramos) Samir:


Prezado Samir.

Não somos um grupo cristão nem mesmo ecumênico, mas um movimento social laico que busca a inclusão dos LGBT no meio religioso e o confrontamento do preconceito homofóbico.

Você não só pode utilizar nosso blogue para desabafar como deve fazê-lo. Nossa função enquanto Movimento é exatamente dar apoio a todos os LGBT em situação de conflito por sua orientação sexual no tocante à dimensão religiosa. E, é o seu caso. Você é gay, e vai continuar a sê-lo; é muçulmano, e deseja continuar sendo. Tudo bem. Apoiamos integralmente sua aspiração. Contudo, você deve ter a noção do quanto poderá ser – e, provavelmente, será – difícil conciliar ambas as coisas numa base sem conflito. O conflito existirá e, à medida que a afirmação de sua identidade sexual for crescendo, crescerá também o risco do preconceito, do isolamento e da homofobia. Sinto não poder dizer palavras diferentes, mas nosso Brasil é homofóbico, sim, e o meio religioso é o que mais tem fomentado este vil preconceito.

Você diz sofrer duas vezes: como muçulmano e como gay. Entendemos. Como muçulmano, você sofre o preconceito a que se chama Islamofobia, aquele que vê em cada membro de sua religião um homem-bomba em potencial. Como gay, você sofre o preconceito da Homofobia, aquele que vê um ser humano como bom ou mau conforme sua orientação sexual. Então, uns o vêem como um “terrorista”, outros o vêem como um “pervertido”. O que isso evidencia? Evidencia o fato de que o ser humano é naturalmente preconceituoso. Sua causa é sempre o medo do diferente, do ameaçador, daquilo que não se pode rotular, nomear, enquadrar, conter... Mas, invariavelmente, o medo nos impede de conhecer verdadeiramente as pessoas, seu íntimo, sua essência. No final das contas, o medo que gera o preconceito nos impede de ver, de descobrir a Verdade, aquela mesma Verdade buscada por todas as religiões. Que paradoxo, não é mesmo? A Verdade liberta porque elimina o medo, é como entendemos este ditado bíblico. Eliminando o medo, ela nos permite a felicidade. E, em algum momento, você vai ter que vencer o medo, confrontar-se com a sua Verdade, e abrir-se para o mundo, pois só na auto-expressão diante do mundo, no compartilhamento de nossa essência com os demais, é que a felicidade plena se apresenta. No isolamento ela se esconde...

Você diz não se identificar com o “mundo gay”. Mas, não há um “mundo gay”! Há gays em todos os lugares, religiões, partidos políticos e profissões. Os gays da boate, dos bares ou das saunas são apenas uma parcela deles. Se isso não lhe agrada, tudo bem, você não precisa se aproximar destes lugares. Você é um ser livre. Ninguém vai arrastá-lo para onde seu coração não queira. Apenas, não confunda alguns lugares onde se encontram gays como sendo os lugares de todos os gays. Não confunda o comportamento de alguns gays com o comportamento de todos os gays. A condição homossexual não é cultural ou meramente comportamental. É visceral. E, sendo assim, há gays em todos os lugares e situações onde se pode encontrar não-gays: há os religiosos, os ateus, os agnósticos, os prostitutos, os tarados, os assexuados, os drogaditos, os boêmios, os abstêmios, os “pra casar”, os sem compromisso, os promíscuos, os monges, os devassos, os corruptos, os hipócritas e os santos... Encaixe-se onde preferir, ou se expresse de um modo peculiar e não-rotulável, se achar melhor. Mas, não se esconda, principalmente de si mesmo. Nenhum clérigo será mais responsável por sua vida e sua felicidade do que você mesmo, que é o único que sabe a real dor que sente. Nós, apenas, a podemos inferir.

Ficamos muito felizes em perceber que, ao manifestar seu desejo de ter um companheiro, o preconceito não tomou conta de sua mente, já que para você, ele poderia ser muçulmano, cristão, judeu, etc. Isso é grandioso! Significa que você não quer impôr nada a ninguém, nem converter, nem flagelar, mas quer apenas se expressar e permitir a expressão. Isso, em nossa opinião, é divino, se é que podemos usar o termo.

Podemos lhe dar uma boa notícia: com certeza, há outros como você, inclusive dentro da comunidade muçulmana brasileira. E, não devem ser poucos. E, estão na mesma situação que você, imaginamos. A única coisa que precisa acontecer é vocês se encontrarem de algum modo, saber da existência uns dos outros. Não há no Brasil (ainda) um movimento organizado de gays muçulmanos. Caberia aos gays da própria comunidade islâmica brasileira fazer com que este movimento viesse a existir. Quem se habilita?

Não tenha medo de ser apedrejado por ambos os lados – gays e muçulmanos –, pois ambos os lados possuem seus equívocos. Há gays que não aceitam a religião e criticam os gays religiosos. Achamos que há espaço para todos, ateus e teístas, religiosos, ateus e agnósticos. Da mesma forma, há religiosos que não aceitam gays e aqueles que são inclusivos ou, no mínimo, tolerante, o que não é a mesma coisa. Tudo depende de que tipo de pessoas nos aproximamos. Mas, mesmo que possamos escolher as pessoas que nos sejam mais favoráveis, ainda resta a família. E, a sua, pelo que nos relatou, é muito religiosa, o que significou nas entrelinhas que ela tem dificuldade em aceitar a orientação homossexual. Aí está a maior barreira a ser ultrapassada e, todos nós, gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros, já passamos ou ainda vamos passar pelo assumir-se em família. É como um rito de passagem, depois do qual nunca mais seremos os mesmos. Você deve preparar-se para isso, mais dia menos dia.

Poderíamos nos alongar mais, mas não achamos necessário. Nosso conselho final é que, se você pretende continuar sendo um muçulmano religioso, devoto e seguidor dos preceitos, ótimo. Mas, faça isso pensando em seus iguais, seus irmãos gays, e aproveite sua fé para entender sua religião e conciliar sua natureza homossexual com sua natureza religiosa, pois só dentro de você isso pode ser feito a contento. É como uma conversa privada com Deus, só você... e Ele. Sua Jihad maior. Se Ele não lhe condenar, não permita que os homens o condenem. Faça da luta contra o preconceito por orientação sexual dentro de sua religião sua própria Jihad menor, seu esforço, seu empenho, em Nome de Deus!

Nossa nobre aspiração é a de que este texto não inspire apenas ao Samir, mas a todos os muçulmanos no Brasil, e a todos os gays religiosos em conflito em todos os cantos de nosso imenso país.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

[Notícia] Paim: discurso de Obama favorece debate contra homofobia


Por Raíssa Abreu (da Agência Senado, cfe. publicado originalmente em http://www12.senado.gov.br/noticias/materias/2013/01/22/paim-acredita-que-discurso-de-obama-favorece-debate-contra-homofobia/tablet)


Em seu discurso de posse nesta segunda-feira (21), em Washington, o presidente norte-americano, Barack Obama, assumiu o respeito às minorias como principal bandeira de seu segundo mandato. Mulheres, imigrantes e homossexuais estiveram no centro dos pronunciamentos de inauguração dos trabalhos, seja nas palavras do presidente, nas homenagens prestadas ou na benção proferida pelo reverendo.

Na avaliação do senador Paulo Paim (PT-RS), que nos últimos dois anos presidiu a Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), o discurso desta segunda-feira foi “mais um dos pronunciamentos históricos” do presidente norte-americano. Obama deixou claro, na visão do senador, que o Estado deve estar sempre a serviço dos mais fracos.

- Presidente de nenhum país do mundo jamais assumiu uma postura tão ousada, de enfrentamento aos setores conservadores, em seu discurso de posse - observou Paim.

O senador chamou a atenção para a expressão “nossos irmãos gays”, utilizada por Barack Obama no pronunciamento. Essa atitude, disse Paim, sinaliza, em nível internacional, que é preciso combater o preconceito, e deverá contribuir, no Senado brasileiro, com a aprovação do PLC 122/2006, que criminaliza a homofobia. Paim assumiu a relatoria do projeto na CDH no ano passado.

- No Brasil, criou-se uma falsa polêmica entre liberdade de orientação sexual e liberdade religiosa. Isso não tem fundamento e não interessa a ninguém – disse o senador, a respeito do argumento de setores religiosos contrários a aprovação do projeto, segundo os quais o mesmo atentaria contra a liberdade de culto e expressão.

Como relator, Paim afirmou que pretende promover uma série de audiências públicas sobre o assunto nos estados, para que a discussão não fique restrita ao Parlamento.

- Vou trabalhar muito por esse projeto. 2013 vai ser o ano da aprovação do PLC 122 – disse.

Se aprovado pela CDH, o PLC 122/2006 deverá ser encaminhado à análise da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania.


________________________________________________

Nota de Espiritualidade Inclusiva:

Esta notícia, veiculada pela Agência Senado, não deixa dúvidas sobre a posição do Senador Paulo Paim quanto ao PLC 122 e sua atuação no sentido de ajudar a aprová-lo. Realmente, a fala de Obama parece ser um divisor de águas internacional na questão dos direitos LGBT e esperamos que não fique só no discurso. O debate além do Parlamento que será promovido nos estados vai ser bastante intenso e polêmico, temos certeza. Este é o momento das forças pró-direitos humanos e direitos LGBT (que tem gente que insiste em ignorar que fazem parte dos direitos humanos) mostrarem a que vieram e o que realmente estão fazendo em prol de todos os LGBT neste país. Quando falamos destas forças do movimento nos referimos não apenas às ONGs que obtém verbas públicas, mas toda a sociedade civil LGBT e os apoiadores de direitos humanos, bem como os religiosos inclusivos. É hora de levantar das cadeiras e ir para a rua, a imprensa e os púlpitos!


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Auto-aceitação - Sobre Guetos, Homofobia Internalizada, Heterossexualidade Presumida e o Sair do Armário


Por Paulo Stekel


Um dia, apoiamos a escravidão... Na Antiguidade, ela era socialmente aceita e os escravos eram de todas as raças, todos os povos, homens, mulheres e crianças. A Bíblia é tão conivente com a escravidão que possui inúmeras regras para o tratamento dos servos. Outros livros sagrados, como o Corão, seguiram a mesma linha. Quando nos damos conta de que há menos de 130 anos ainda havia escravos negros no Brasil, o mal-estar toma conta de nosso espírito...

Um dia, negamos às mulheres direitos mínimos... Desde a Antiguidade, as mulheres eram consideradas servas de seus maridos, propriedades deles, não tinham direito a voz, nem alma... Enfim, não tinham vida nem dignidade. Mais uma vez, a Bíblia e outros livros sagrados foram coniventes, perpetrando uma milenar misoginia religiosa que negou às mulheres a condição de seres humanos completos – algumas seitas indianas vixnuítas consideram a mulher um “meio ser”... Quando nos damos conta de que há menos de 100 anos as mulheres sequer podiam votar, nos envergonhamos...

Um dia, negamos aos gays, lésbicas, bissexuais e todos os “tipos” considerados “anormais”, “inadequados”, “pervertidos” ou “estranhos”, como os travestis e transexuais, qualquer liberdade (como antes, se negou aos escravos), qualquer dignidade e qualquer plenitude cidadã (como antes, se negou às mulheres)... Opa! Um dia? Não! Ainda se lhes nega muito disso, em maior ou menor grau, em todas as absolutas centenas de nações do mundo!

Os LGBT vivem, por conta desta negação de plenitude cidadã, em verdadeiros guetos sociais, à margem da liberdade de expressão, da alegria de viver, de trabalhar, de amar... Por conta do preconceito que todos SABEM que sofrerão, a homofobia internalizada se amplia e, cruel e paradoxalmente, muitos se fazem de algozes de seus iguais, amedrontados pela ideia de serem descobertos e, então, virarem a vítima da vez... Afinal, nos dias de hoje, quem não tem sua heterossexualidade presumida facilmente, é considerado um gay em potencial e, antes mesmo de qualquer confirmação, pode ver seu rosto estilhaçado por lâmpadas de neon, porretes e cusparadas indignadas de hipócritas fiscais do alheio...

Diante deste quadro, fica a pergunta crucial: Qual é a forma mais segura de sair do armário e de construir sua própria identidade sexual num mundo hipócrita que, ainda que não tolere manifestações abertas, vive uma sexualidade fora da própria norma que dita a todo o momento, como nós muito bem sabemos?

O grande problema da sociedade não são os atos, mas a revelação dos atos... Ao sair do armário, um gay sai do ato para sua revelação, e isso afronta a hipocrisia da sociedade. A prova disso é quando pastores evangélicos dizem que não são contra gays terem direitos, desde que façam seu sexo às escondidas, sem pleitearem visibilidade como um bloco em separado. Ou seja, pretendem que tudo continue ocorrendo, mas em segredo, hipocritamente, e sem dignidade... Ao exigir direitos, afrontamos a hipocrisia, o segredo e a inferioridade cidadã, onde não queremos nos encaixar, pois nascemos sob o mesmo sol... “Categorizações” não podem nos definir. Há os gays caricatos, os não-caricatos, os efeminados, os masculinizados, os assexuados, não importa. Por mais categorias que inventemos, elas nunca definirão a totalidade do que é ser LGBT! Mesmo a definição LGBT (e outras similares) é provisória e pode, um dia, quando discriminar um ser humano por sua orientação sexual for considerado abominável, vir a ser abolida. Mas, no momento, ela é útil e necessária. Mas, eu sei que eu não sou um LGBT(TTTXYZ...)! Eu sou simplesmente um SER HUMANO!

Também não sou homossexual, heterossexual ou bissexual, pois um ser humano não pode ser definido apenas por um aspecto de sua vida, o sexual. Há que diferenciar-se, por exemplo, as expressões “homossexualidade” e “homoafetividade”. Da mesma forma, seria adequado pensar-se em “heteroafetividade” mais que em “heterossexualidade”. Por que? Porque o que realmente determina a orientação sexual não é o gênero da outra pessoa com a qual se mantem relações sexuais, mas sim, existindo ou não o ato sexual, o gênero da outra pessoa pela qual se desenvolve um afeto mais profundo, o qual pode incluir aspectos sexuais. Em prisões, por exemplo, relações homossexuais são comuns, o que não significa que os envolvidos sejam gays. Na verdade, nestas situações, os envolvidos se dão a atos homossexuais, mas não estão orientados homoafetivamente. Ao contrário, um homem casado com uma mulher apenas para conformar-se às regras heteronormativas, mas que nutre uma afetividade toda orientada para indivíduos do mesmo sexo, uma homoafetividade que ele sufoca para que não chegue às vias de fato, é, indubitavelmente, gay. Uma pessoa que vivencia tal conflito pode facilmente cair na tendência da heterossexualidade presumida e agir violentamente contra gays por conta de sua homofobia internalizada.

A grande questão é: se o preconceito geral da sociedade heteronormativa com o diferente fosse menor ou inexistente, será que as coisas seriam melhores para quem padece de angústias e conflitos por causa de sua orientação sexual?

Ainda que cada caso seja um caso e nenhum ser humano vivencie sua sexualidade de forma igual a outro, creio que as coisas seriam melhores, sim. Afinal, se a aceitação fosse maior, o ambiente social seria mais amistoso aos gays e isso teria consequências diretas em sua saúde psicológica. Se gays pudessem se assumir sem constrangimentos; se não perdessem seus empregos por se assumirem; se pudessem se comportar como casais em público do mesmo modo que heterossexuais; se pudessem adotar crianças passando pelos mesmos critérios de habilitação de heterossexuais; se tivessem direito à união civil (popularmente chamada “casamento gay”) como qualquer casal não-gay; se tivessem seus direitos à integridade física, moral e psicológica garantidos quando são agredidos por serem gays; se pudessem tudo isso, então todo o sofrimento por serem “diferentes” da norma diminuiria.

Mas, antes de tudo, a auto-aceitação... Devemos aceitar ser quem somos, por mais que tenhamos dificuldade em colocar-nos dentro de uma categoria qualquer, pois, se não nos aceitarmos, o preconceito começará a partir de dentro de nós mesmos e contaminará o nosso entorno, voltando como o preconceito velado ou explícito que vemos todos os dias. Conhecer-se a si mesmo, aceitar-se como se é e agir sem medo são os passos-chave para a conquista da dignidade.

Ao manifestar o desejo de escrever este artigo, ainda no ano passado, pedi que alguns amigos da comunidade LGBT enviassem depoimentos sobre sua auto-aceitação e o sair do armário. Escolhi trechos de quatro deles para embasar os argumentos a seguir, mesclados com o meu próprio depoimento ao longo dos demais.

Depoimento 1: Maurilio

“Desde pequenino eu já sentia uma atração por meninos, quando brincava com meus primos e amiguinhos da escola. (…) queria ficar perto dos meninos. Mas, como eu via meus pais falarem mal dos gays e lésbicas, eu sempre tive medo de ser um também. (…) Até que decidi entrar na Igreja pra ver se isso era coisa do demônio. (…) Fui durante 3 anos coroinha, e nada adiantou. Continuei sendo gay, mas não me assumia pra ninguém. Tinha medo de ser expulso de casa. (...) Tinha uns 9 anos e já era mais ou menos a ovelha negra da família, porque eu era bem afeminado (…) E, era uma coisa tão normal pra mim! Meus pais brigavam comigo por eu ser assim, mas eles também acreditavam que aquilo era coisa de criança e uma fase que iria passar. (…) Numa cidadezinha do Pernambuco onde nasci não tinha muitos gays ou pessoas assim. Quando um se assumia era uma coisa bombástica. A cidade inteira ficava comentando.

(…) Meu pai decidiu vir morar em São Paulo pra ver se amenizava os comentários sobre mim, e também pra tentar uma vida melhor. (…) Chegando aqui em São Paulo meu pai me falou que não era pra mim ficar andando com viado nem fazer amizade com essa gente, senão os bandidos iriam me matar. Eu, com muito medo, nem saía de casa. Mas, resolvi me assumir pros meus pais. (…) Meu pai logo falou: 'Vixe Maria! Vai pro inferno! Não quero isso aqui na minha casa, não!' Minha mãe, muito passiva, falou que não poderia fazer nada, pois ele sustentava a família. (…) Ele não me colocou pra fora de casa ainda, mas parou de falar comigo e de vez em quando soltava um 'patada', me esculachava, e isso ia doendo muito. Me sentia tão mal... Mas, tinha que continuar ali na casa dele, porque era o único lugar que eu tinha pra ficar.

Passaram-se umas duas semanas e a família começou a me criticar, a ir na minha casa só pra falar mal de mim pro meu pais, colocar mais lenha na fogueira. Desse dia em diante meu pai e meu irmão mais velho de 19 anos começaram a me bater todos os dias. Um olhar pro meu pai ou irmão já era motivo de briga. (…) Eu apanhava feito um saco de pancadas. Meu pai me batia com pau, jogava pedra, cinto, chinelo, fios de energia, enfim, tudo o que via pela frente. Me batia pra ver se eu virava homem. Mas, não teve jeito, continuei o mesmo. Daí, ele resolveu me colocar pra fora de casa. Dormi por várias vezes na rua. (…) Até que minha mãe mandou eu voltar pra casa novamente... Voltei pra casa.

Em uma balada na zona leste conheci um cara que me encantou, que me deu carinho, atenção, amor, sei lá. Foi uma coisa muito boa. Ele me tratou muito bem, fez as coisas que ninguém nunca tinha feito por mim. Então, começamos a namorar. Passaram-se uns 2 meses e resolvi contar pra minha mãe sobre o namoro com esse cara. (…) Mais uma vez meu pai, ao saber que eu estava namorando um homem, me colocou pra fora de casa e queimou minhas roupas. Não aguentei e fui morar com esse cara que estou até hoje, que me fez ver que eu nasci assim, que me ama do jeito que eu sou, que me disse que homossexualidade não é coisa do demônio, que eu também sou filho de Deus e sou digno de amor e carinho.

Desde então, ele tem me ajudado muito, e minha auto-aceitação começa daqui. Hoje eu bato no peito e tenho orgulho de dizer 'Eu sou gay'. (…) Hoje eu sou uma pessoa muito feliz e aliviado, pois sou assumido. Eu amo ser gay e, se fosse pra escolher, eu nasceria gay de novo!”

Comentário: O que aconteceu na vida de Maurilio tem acontecido na vida de centenas, milhares de gays pelo Brasil afora. Aqui no RS, onde moro, conheço vários casos de jovens postos para fora de casa ao assumirem sua homossexualidade. Homossexualidade, aliás, já percebida pela família e, enquanto escondida, tolerada, mas assim que expressada abertamente, odiada ao extremo. Meu histórico não é violento com o deste rapaz do Nordeste, mas passei por situações de preconceito sutil de parte do meu pai na infância e início da adolescência. A diferença é que comecei a trabalhar cedo, a me sustentar, e aos 17 anos já morava sozinho. A partir de então, pela filosofia de meu pai, ao sustentar-me, não lhe devia mais qualquer tipo de satisfação de minha vida, de modo que nunca foi “necessário” assumir-me para ele. Ele nunca foi um moralista – nem o poderia, com tantas mulheres que teve além de minha mãe – e disso aproveitei-me para evitar ali qualquer conflito desnecessário. Construí minha identidade a partir de minhas próprias experiências, de minha observação da vida e dos seres humanos, de minha espiritualidade e, principalmente, dos desejos, sentimentos e sensações mais íntimos, e isso tudo sem sentimento de culpa, sem hipocrisias, sem autoflagelação... Mas, sei que com muitos outros é diferente. Gays que sofrem mais preconceito saem da escola sem completar o estudo fundamental, possuem baixa auto-estima, vivem em subempregos, são presas da prostituição, das DSTs e das drogas, e raramente conseguem vislumbrar um futuro digno. Escapar a este quadro é realmente uma dádiva...

Depoimento 2: André

“Tenho 35 anos, e me descobri gay desde criança. Com 04 anos de idade me lembro de sentir atração por um vizinho da mesma idade. Eu inventava brincadeiras com ele só pra ficar ao seu lado e tentava beijá-lo. Até que um dia fui surpreendido pela mãe do garoto que me recriminou, e fiquei um longo tempo com esse sentimento de que estava fazendo algo de errado.

Por volta dos 13 anos de idade, esse sentimento homossexual ressurgiu em um momento em que fui assediado por um conhecido de minha mãe. (…) A partir de então, percebi que eu não sentia atração pelo sexo feminino e comecei a ler sobre o assunto e a comprar clandestinamente revistas de temática gay pra me entender melhor. Também fui identificando entre meus amigos os que tinham a minha preferência sexual, e foram muitos.

A minha aceitação veio naturalmente, mas eu tinha vergonha de me assumir gay perante a família e alguns amigos. Só com 25 anos, quando conheci meu atual companheiro, foi que assumi minha sexualidade perante todos. O amor entre nós é muito forte até hoje, e foi o que me fez tomar coragem diante do preconceito dos outros. Sofri preconceito velado de minha mãe e escancarado do meu irmão.

Mas, ainda assim, persisti na minha condição e enfrentei tudo em nome do meu amor. Não me arrependi em nenhum momento, e conheci pessoas durante essa jornada que me encorajaram a tomar essa decisão.”

Comentário: Este depoimento tem algo em comum com meu histórico, pois também me assumi para os demais apenas com 25 anos. Mas, a primeira vez que senti atração inegável por alguém do mesmo sexo, tinha 19 anos. Digo isso, porque tivera outras experiências na adolescência, por volta dos 13 ou 14 anos e até antes, mas estavam mais relacionadas a curiosidades de meninos do que a sentimentos mais profundos ou orientação sexual. Mesmo porque meus dois irmãos tiveram as mesmas experiências e nenhum deles é gay. Contudo, aos 19 anos, ao ver um amigo seminu, a sensação que tive não me deixou mais dúvidas: os homens me atraíam mais que as mulheres. Mesmo assim, casei-me com uma mulher aos 26 anos, mas a experiência durou somente um ano e meio. Ela tivera relações com uma menina mais velha quando era pré-adolescente, e isso serviu para que tivesse certeza de que lhe interessavam os homens, e não as mulheres. Mas, era uma pessoa sem preconceitos, o que facilitou bastante o processo de separação, de modo que somos amigos até hoje.

Depoimento 3: Daniel

“Meu nome é Daniel, tenho 21 anos, e moro com meus pais em Canoas – RS. Me assumi ao completar 18 anos, exatamente no dia do meu aniversário, com a intenção de que fosse algo que eu jamais esquecesse. Foi mais ou menos assim: eu e minha mãe terminamos de almoçar, sentei
junto a ela que estava a ainda na mesa, e disse: 'Mãe, quero lhe dizer uma coisa!' Ela, sem entender, disse: 'Fala!' Eu, engasgado: '...Eu não sou hétero...' (usei um termo que me senti aliviado em falar, sabendo que ela não entendera claramente) 'Eu sou bissexual... Fico com homem e com mulher.' Nesse momento de extremo nervosismo me senti largando uma pedra que eu carregava todos os dias. Ela se manteve calada, depois disse: 'Tu vais continuar sendo meu filho... Eu te amo...'

Eu pensei que não tinha sido tão ruim assim, mas foi apenas o começo de um longo tempo de luta por respeito e direito pelo qual eu luto até hoje. Pois, no decorrer dos dias, respirar era motivo de briga e discussão, e isso praticamente durou uns 7 meses ou mais! Neste mês completa 3 anos que me assumi para minha mãe, que ainda diz NÃO ACEITAR, mas respeita. E, é algo que eu trabalho todos os dias com ela, o respeito.”

Comentário: Os jovens gays estão se assumindo para a família cada vez mais cedo. Em minha época – eu já tenho 42 anos, gente! – os gays se assumiam lá pelos 25 ou 30 anos. Agora, alguns estão se assumindo aos 15 ou 16 anos, como já vi diversas vezes. Isso reflete a precocidade geral da sociedade. Os adolescentes – héteros ou gays – começam a namorar cada vez mais novos. É natural, portanto, que venham a se assumir precocemente. E, isso é bom? Creio que sim. Isso inicia o processo de auto-aceitação mais cedo também. Quanto mais pessoas de bem com sua sexualidade tivermos, mais “almas” ganhamos para a aceitação da diversidade sexual, se é que me entendem. Quando contei para minha mãe, ela disse já saber sobre minha sexualidade e, num primeiro momento, isso não acarretou problema algum. Mas, à medida que ela foi se tornando evangélica, o preconceito começou a minar sua mente, mas ela manteve seus pensamentos medievais em segredo. Quando um de meus irmãos morreu, a verdade veio à tona: Malafaia a havia contaminado com seu discurso fétido e diabólico! Apenas uma “terapia de choque” poderia corrigir isso. Por sorte, o restante da família materna não padece de homofobia, de modo que esse pessoal foi o responsável pela “terapia” da qual ela necessitava para sair da Idade Média e acordar no Século XXI... No momento, está sob observação...

Depoimento 4: Walter

“Aconteceu quando tinha oito anos; estava ficando escuro e eu no meio daquelas crianças na rua. Um menino da minha idade se aproximou e segurou a minha mão. Foi um gesto de afeto espontâneo e natural entre crianças e foi também o momento em que eu senti uma onda de calor, aconchego e amor incomparáveis; aquilo foi mais gostoso que o toque da minha mãe, mais gostoso que chocolate e iogurte de morango, mais gostoso que o toque das meninas. Ele apertou suavemente minha mão na dele; e segurou transmitindo máscula sensação de proteção.

(…) Não houve, portanto, um trauma, um abuso ou a ausência de algo e de alguém; eu tive pai, dois irmãos, mãe, tios, primos, tias, avós, inúmeros modelos masculinos e possibilidades de integração e identificação heterossexual.

Entretanto, naquela época eu não sabia nada sobre homossexualidade; nordestino, criado em famílias de antigas linhagens patriarcais e católicas, morando em um município onde a televisão a cores era novidade das casas mais abastadas, eu só vi homossexuais em programas de humor, e
entendia mais ou menos que aquele personagem era um tipo de bufão ou palhaço de circo.

Foi a religião que me apresentou a primeira definição de homossexualidade; infelizmente para mim a definição distorcida. Lembro bem que as palavras da Bíblia 'de fora estarão os afeminados e os homens que se deitam com homens' me deixou viva e dolorosa impressão na alma. Eu ia para o inferno e nem sabia exatamente por que.

E lembro-me do terror de ter de esconder dos meus pais que eu era um criminoso igual a um assassino; um viado, um proscrito e alguém sem honra e sem lugar em parte alguma. A sensação de não pertencer a nada sempre recorrente; eu não era mulher e, portanto, não podia sentir atração por homens. Por outro lado, eu não era homem, porque não sentia atração por mulher.

Percorri então a minha Via Crucis; aos doze anos já tinha sinais de depressão, aos dezesseis pensava seriamente em me matar. Deixei a escola, parei de tomar banho, me tranquei dentro de casa. Chorava horas a fio no quarto ou chorava no quintal, entre as árvores e o jardim. Meus pais primeiro se zangaram depois se alarmaram depois se acostumaram.

Não tive coragem de contar sobre minha homossexualidade nem para a psicóloga que eles me arrumaram; não confiava a ninguém aquele segredo monstruoso. Eu tinha vergonha de mim, e tinha nojo. E queria ser igual aos outros garotos.

Foi a psicóloga, porém, que me ajudou inadvertidamente; às vezes ela me dava algumas revistas e livros para ler e numa dessas revistas eu vi uma matéria sobre homossexualidade. O singelo artigo me pareceu extraordinário e me atingiu de forma impactante e inesquecível; dizia que sentir atração pelo mesmo sexo não era doença, nem algo negativo, que homossexuais eram pessoas comuns e que não existia tratamento porque não havia o que curar.

Fui buscar mais informações sobre o assunto; nesse período um boato sobre um ídolo da televisão e dos cinemas, Keanu Reeves, me deixou boquiaberto. Keanu era homossexual e eu queria ser igual a ele.

Lentamente, pois, mais de modo constante, outras salvíticas histórias chegaram até mim viajando através de livros, revistas, seriados e filmes, e no geral pintando uma imagem simpática dos homossexuais, diferentemente dos anos anteriores.

Um sopro de esperança começou a me curar e de dentro da escuridão e desespero da ausência de identidade, eu nasci de novo; uma gestação demorada no ventre dos meus sonhos homoeróticos.

Primeiro surgiu a aspiração cândida do romance com alguém do mesmo sexo; depois o desejo sexual aflorou sem culpa e eu tive meu primeiro orgasmo desprovido de arrependimento. Eu suspirei de alívio; eu era normal, saudável, bonito, estava no lugar certo, eu pertencia a algo.

Decidi então contar para as pessoas que eu era gay. Foi a coisa mais difícil que já fiz, mas depois de fazê-la, abri uma porta que nunca mais se fechou; eu me tornei outro homem, eu pisei firme no
chão, eu ergui os olhos para encarar as pessoas, eu me tornei senhor de mim mesmo, eu digo quem eu sou, as cartas são minhas, ganhando ou perdendo.

Estou recuperando quase tudo que a homofobia cultural, institucional e individual me roubou na vida; há ocasiões em que parece que várias etapas do caminho se cruzam e se confundem por causa do tempo perdido. Sou homem adulto, e também sou menino.

O arrependimento é inútil para mim agora; só me serve o que tenho e o que eu sou neste momento. E o que eu tenho é orgulho, e o que sou é um homem gay."

Comentário: Ah, como este depoimento inspira! Walter Silva – sim, ele não só permitiu, como fez questão da revelação de seu nome – tem, em minha opinião, um dos melhores textos sobre orientação sexual no Brasil. Ele, paraibano, eu, gaúcho, temos em Keanu Reeves um mesmo referencial – também tenho um referencial no falecido River Phoenix, colega de Reeves no filme “Garotos de Programa” (My Own Private Idaho), de 1991. Foi conversando sobre Reeves e Phoenix, este último encontrado morto em 1993 e apenas dois dias mais velho que eu (Phoenix nasceu em 23 de agosto de 1970, e eu no dia 25 de agosto do mesmo ano), que em 1993 iniciou-se meu processo de sair do armário. O objeto de meu amor naquela época também estava a descobrir-se, mas, infelizmente, até sua morte trágica em um acidente de carro, em 2011, não conseguira escancarar o armário... Mas, ensinou-me muito sobre o que é amar alguém do mesmo sexo sem sequer dizer uma palavra sobre o assunto e sem convencionar rótulos... e sem consumar fisicamente este amor... A ausência de tudo isso não conseguia abafar a realidade que ali se percebia... e que as almas entendiam em seus próprios termos... Ele, não conseguia se imaginar assumindo algo que já estava muito claro. Eu, não conseguia imaginar criar um gueto para algo que queria compartilhar com o mundo. Venceu, no mundo relativo, a homofobia paterna. No mundo absoluto, reinou o amor, gritando aos corações que nem a morte pode abafá-lo... O amor é como o elétron, segundo a Física Quântica: deixa marcas eternas por onde passa... Hoje, tais marcas me servem muito bem e as transformei em pilares de sabedoria, compaixão e sinceridade para comigo mesmo.

Então, agora posso dizer: Sou gay e não tenho vergonha de assumir isso para ninguém. E, você, tem coragem de assumir isso também? Ou se mantém num gueto social, simulando uma heterossexualidade que não convence a ninguém? Ou prefere ceder à homofobia internalizada, um modo grosseiro e falho de abafar em si o que vê manifestado em outros? Ou prefere deixar o armário trancafiado a sete chaves, seguindo pela vida infeliz, sem dignidade, sem poder expressar-se em plenitude e, pior de tudo, sem poder amar com toda a sua alma? Desculpe, mas amor e alma são sinônimos. Se você não consegue expressar um, não possui o outro. É um “carma” que impõe a si mesmo, mas que ninguém lhe imputou. Incomoda-lhe a auto-afirmação dos demais? Seja corajoso como eles, então! Afinal, ao incomodar-se com a auto-aceitação alheia, algo lhe atingiu indelevelmente. Você é quem deve decidir se isso será libertador ou uma prisão...

Sair do armário, assumir-se, deve ser produto de muita elaboração mas, principalmente, de um estado de sinceridade tal consigo mesmo que todos os sentimentos, sensações e desejos sejam devidamente expressados, sem obscurecimentos moralistas, escapistas ou enganosos. Não se trata de escolher uma sigla para sua sexualidade, ou algum modelo didático daqueles defendidos por organizações pró-LGBT, mas antes, de saber o que nos atrai de fato. Não há limitações no amor. Ele não depende de siglas. O amor não é uma regra moral, nem mesmo ética. É alma, é vida e mantenedor de vida. Ele deve melhorar nossa auto-estima, não rebaixá-la. Converse com as pessoas na base do amor mais profundo, e seu ativismo será extremamente perigoso para a homofobia reinante, abrindo horizontes, libertando escravos e permitindo gozos... Abaixo a clandestinidade, viva a revelação! Quem deve se acostumar com sua essência são os outros; a você, cabe expressá-la e ser feliz!