quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Os gays de Ahmadinejad


Por Paulo Stekel



Não há gays no Irã!” Esta teria sido a frase dita pelo presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, em setembro de 2007, nos EUA, e que desde então tem causado tanto protesto por parte do Movimento LGBT e pelos defensores dos Direitos Humanos. Mas, o que exatamente ele disse na ocasião? Ele disse (ver fonte): “No Irã, nós não temos homossexuais COMO em seu país. No Irã, nós não temos este fenômeno; eu nem sei quem lhes disse que o temos.”

Leiamos as palavras originais (ver fonte): “In Iran we don't have homosexuals like in your country. In Iran we do not have this phenomenon, I don't know who has told you that we have it.”

Fica claro que Ahmadinejad quis dizer que no Irã não há homossexuais “da mesma maneira” (like) que no Ocidente. Ele se referia a toda a visibilidade LGBT ocidental, ao orgulho e à dignidade da pessoa gay, do “ser gay”, algo que, definitivamente, o Irã não possui. Em certa medida, ele disse a verdade: não há gays visíveis, pleiteando direitos e se reunindo em grupos porque são todos assassinados por seu regime totalitário! Assim, os gays lá existentes – e, existem, sim! - estão todos acuados, trancafiados no armário, com medo da morte. Estes são os gays de Ahmadinejad: uma comunidade inteira sem reconhecimento, sem existência, sem cidadania, sem direitos, sem expressão, sem felicidade, mesmo sendo cerca de 10% da sociedade iraniana – neste país de 75 milhões de habitantes, os LGBT são cerca de 7,5 milhões.

Ahmadinejad é conhecido por sua negação do Holocausto judeu, mas promove um verdadeiro holocausto gay – um “homocausto”, nas palavras de Luiz Mott – em seu país. E, bem aos olhos da ONU e das organizações internacionais de defesa dos Direitos Humanos. A coisa é muito mais séria do que se imagina! Fora isso, ele ainda afirma mentirosamente que há direitos humanos no Irã, que seu povo é muito feliz e livre para expressar o que pensa. Balela! O mesmo discurso de outra ditadura, a Chinesa, para ludibriar os organismos internacionais de defesa dos Direitos Humanos.

Mas, ninguém mais se engana! Salvo alguns poucos marxistas-leninistas dinossauros de uma época utópica que ainda defendem regimes como o da China, Cuba e Irã (todos profundamente homofóbicos), a maior parte da humanidade esclarecida percebe a manipulação e a mentira destes regimes. O que há nestes países é ditadura com todas as letras, e os LGBT ali não têm voz nem vez! Não se trata de uma crítica ao Comunismo ou ao Islamismo, mas o reconhecimento de que nestes países nem sequer o regime é comunista ou republicanismo islamita. São governos corruptos e assassinos. O Capitalismo não é melhor, pois a corrupção também é evidente em muitas democracias capitalistas. Não estamos tratando de preferência política, mas de defesa da vida, de defesa da dignidade humana e de direitos LGBT.

Aliás, há poucos dias, em Nova Iorque, durante uma entrevista para a CNN, Ahmadinejad voltou a ser polêmico ao dizer que apoiar gays é coisa de capitalistas de linha dura, que não se importam com os autênticos valores humanos (ver fonte). “Autênticos valores humanos”? Por acaso, nós, gays, não somos seres humanos? Não temos valores? E, valores autênticos? Quanto discurso nazistoide embasado numa visão religiosa medieval e cruel contra as minorias, mulheres e os de fora da fé (os “infieis”)! E, associar apoio à causa LGBT ao Capitalismo é de uma boçalidade sem tamanho. É fazer dos gays um joguete para atingir o regime capitalista ocidental sem se importar com a dignidade das pessoas. É isso que ensina o Islamismo? Tenho certeza de que a imensa maioria da comunidade islâmica brasileira discorda! Tenho todo o respeito pelas religiões em geral, e pelo Islamismo em particular, mas não posso concordar de forma alguma com a redução da dignidade e do valor da vida humana por conta das diversas orientações sexuais possíveis, algo natural, não anormal, já que 10 a 20% da humanidade manifesta desde a terna idade comportamentos não-heteronormativos. Se a quase totalidade dos livros sagrados não percebeu essa naturalidade, devemos aceitar passivamente ou devemos contra-argumentar, buscando a correção do erro, lutando pelo que temos defendido através do Movimento Espiritualidade Inclusiva – a Inclusão?

Ahmadinejad chamou a homossexualidade de comportamento “muito desagradável” e proibido por “todos os profetas de todas as religiões e todas as fés”. Sim, ser gay sempre é muito desagradável para pessoas que guardam preconceitos hediondos. Mas, ele está errado! Nem todas as religiões proibiram as relações homossexuais. As religiões de matriz africana tratam a questão com bastante naturalidade; as diversas escolas budistas, ainda que apresentem situações pontuais de preconceito, não possuem proibições à sexualidade LGBT; as práticas neo-pagãs são mais abertas ao assunto. E, mesmo que todas as religiões proibissem a homossexualidade, não significaria que estivessem corretas. Apenas evidenciaria que a ignorância é geral no meio religioso.

No final, a grande batalha a ser vencida é a conquista do reconhecimento da naturalidade das diversas orientações sexuais possíveis para um ser humano, de modo que isso interfira definitivamente na obtenção da cidadania plena, do direito igualitário e da inclusão no meio religioso-espiritual.

Na mesma entrevista à CNN, Ahmadinejad ridicularizou os políticos que apoiam os LGBT “apenas para ganhar quatro ou cinco votos a mais”. Também os ridicularizamos, mas com outras intenções, pois sabemos que muitos políticos no mundo ocidental – e, no Brasil, há centenas deles – passam anos atacando gays ou se eximindo de apoiá-los, mas em períodos eleitorais surgem do nada como baluartes dos direitos LGBT e da diversidade. Isso, realmente, é deplorável. Devemos aprender a identificá-los, denunciá-los, não votar neles e defenestrá-los de uma vez por todas da política através da mais poderosa arma que temos: o voto!

Para Ahmadinejad, as pessoas “viram homossexuais” e não nascem assim. Não é o que a experiência tem demonstrado. Ora, 100% dos gays e lésbicas nascem de um homem e de uma mulher. A maioria esmagadora destes pais é heterossexual e educa seus filhos com suas referências heterossexuais. Nenhum pai heterossexual educa seu filho para ser homossexual. Então, como 10% da humanidade é homossexual? Todos nós já vimos crianças de tenríssima idade apresentando sinais de uma sexualidade diversa da heterossexual, com uma orientação diferente da maioria dos seus iguais de gênero. E, isso não é incentivado pelos pais heterossexuais. Pelo contrário, frequentemente isso é motivo de agressividade parental para com o filho LGBT.

O que acontece no mundo islâmico, em maior ou menor grau, é um patrulhamento moral intenso das mulheres, das crianças e das pessoas que pareçam não encaixar-se no modelo “santo” pregado pelas escrituras. Isso, em muitos casos, acaba oprimindo as mulheres, inferiorizando-as e causando enorme depressão e infelicidade, por causa do medo constante da falsa acusação de adultério que possa redundar em apedrejamento. As crianças são tratadas como continuadoras de um sistema predeterminado de opressão (masculina) e submissão (feminina). Quem discorda, só tem duas opções: ou foge, ou aguenta as consequências da lei, que consegue forçar a barra mesmo em locais onde a sharia (a lei islâmica) não é oficial.

O que sobra para gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais? A morte certa! A única exceção no Irã é o caso dos transexuais, aos quais se permite uma vida um pouco menos humilhante, uma vez que as cirurgias de adequação de gênero são permitidas naquele país. O motivo disto é muito simples: o machismo fundamentalista iraniano prefere ver um homem “convertendo-se” oficialmente em mulher, passando a obedecer às regras para mulheres (podendo, inclusive, casar-se normalmente com um homem), do que vê-lo continuar um homem fisicamente, e ver este manter relações com outro homem.

Ahmadinejad defendeu hipocritamente em sua entrevista a resolução dos males da humanidade e a promoção da liberdade e dignidade humanas. Mas, declarou que tal liberdade não pode ser aplicada aos homossexuais porque “a homossexualidade cessa a procriação”. Ora essa, quem disse que os LGBT são estéreis???? Mais uma vez o fundamentalismo generalizante tentando amedrontar a humanidade com o “mal gay”.

Ahmadinejad tem tanto medo dos gays de seu país que os nega até a morte... ou antes, os nega PELA pena de morte... E, os clérigos muçulmanos iranianos são os maiores responsáveis por esta chacina chamada de “ordenamento divino”, que tem a capacidade de condenar ao enforcamento meninos de 12 anos acusados de homossexualidade, e cuja única prova é o fato de terem sido encontrados vestindo calções curtos... A bestialidade humana que mata nossas crianças em nome de um Deus – que se existe, deve estar muito irado – aumenta a cada dia neste mundo caótico e tão carente de amor, compreensão, compaixão e aceitação do outro.

Vamos aproveitar para refletir o quanto nós, aqui no Brasil, também estamos sendo cruéis com pessoas por conta de sua orientação sexual, de seu gênero e de sua identidade sexual. O verdadeiro valor da vida humana está sendo esquecido em nome de supostos princípios religiosos arcaicos e medievais, por pessoas de alma embrutecida que se auto-intitulam arautos de Deus, mas que nada mais são que os mensageiros do Mal na Terra...

Um comentário:

Åsa Heuser - Uma Ateia Humanista disse...

Paulo Stekel.
Fui convidada a dar uma entrevista por uma Sophia Sheimberg, e vi que você também havia dado uma entrevista lá. Queria pedir que me escevesse, gostaria de conversar com você sobre isso. Meu e-mail é asaheuser@yahoo.com.br

Abraço

Åsa Heuser