sábado, 25 de fevereiro de 2012

[Notícia] "A Homofobia me machuca” ou mais uma história real de homofobia familiar fundamentalista no Brasil

Por Paulo Stekel

(foto postada por Gustavo Campos no Facebook e mostrando as marcas deixadas pela agressão do irmão pastor pentecostal - É isso o que Deus quer?)

Na tarde de ontem fui surpreendido por uma postagem no Facebook que me deixou bastante sensibilizado. Na quinta-feira (23/fev) um jovem estudante gay de 18 anos da cidade de Contagem – MG decidiu utilizar a rede social para desabafar com seus contatos sobre as agressões homofóbicas que tem sofrido por parte de seu irmão, que é pastor evangélico. As agressões chegam ao ponto de ser físicas!

O rapaz agredido, que se chama Gustavo Campos, descreveu na postagem o que lhe ocorre com frequência:

“Olá, tenho 18 anos, nasci em Belo Horizonte e vivo em Contagem - MG, a algum tempo sempre venho sofrendo agressões por ódio ao homossexualismo e repressão religiosa em minha casa, principalmente pelo meu irmão mais velho (Pastor Pentecostal), que é o culpado pelas agressões,
pois ele me agride e eu posso até ser agredido de novo e muito mais por isso, mas estou cansado, desesperado e perdido, dessa vez resolvi postar e tentar chamar a atenção pra ver se alguma autoridade pode tomar providencias disso, por que já deu polícia militar aqui e não foi só uma vez, mas não adianta de nada, sempre me apelidam como "boiola", "viado", coisas do gênero, e ainda ao invés de aplicar a lei que era o certo a fazer, ficam pregando sobre Jesus Cristo e sobre Religião. Não aguento mais, está acontecendo muita coisa e não sei como fazer, não quero tentar desistir da minha vida novamente, pois eu quero lutar não só por mim mas por todos as outras pessoas que estão sofrendo algo do tipo ou muito pior. Nos ajude. Seja humano, compartilhe esta imagem para ajudar esse problema a ser resolvido.”

No texto, o rapaz deixa claro que já pensou em desistir da própria vida por conta da opressão homofóbica que sofre. Uma das fotos do perfil dele deixa evidente a opressão sofrida (veja abaixo).
Isso é bastante comum em casos de homofobia familiar, especialmente naqueles em que uma homofobia religiosa está incluída. A junção de ambas as formas de homofobia na cabeça de um adolescente é algo incrivelmente angustiante e coloca a pessoa numa situação limite semelhante à da tortura, da prisão, do sequestro e da guerra.

Assim que o rapaz postou seu desabafo no Facebook, uma chuva de comentários solidários e com propostas de ajuda começou a aparecer na rede social. Eis os trechos de alguns:

“Não desista nunca de você, da sua felicidade!”

“Considero um absurdo isso! Vc é uma pessoa incrível, de uma inteligência ímpar e vc sabe que gosto muito de vc! Isso que ele fez envergonha o reino de Deus, não é assim que verdadeiros cristãos agem!”

“Nós deveríamos subir uma tag no twitter e junto postar o link pro seu relato. Assim, mais gente ficaria sabendo, é importante que esse tipo de coisa não passe em branco, precisamos pressionar esses nossos políticos escrotos a aprovarem leis a nosso favor.”

“Campos, seu caso é de polícia. Se a polícia não lhe protege, é caso do Ministério Público. Enquanto este volta do Carnaval, talvez devesse ausentar-se de casa, ir para algum amigo (considerando que é maior de idade) e ir até as últimas instâncias para ter sua dignidade e direitos básicos preservados. Será que não há por aqui algum advogado da região disposto a pegar seu caso agora mesmo???? Sem contar, Gustavo Campos, que o que seu irmão pastor faz é tortura, um crime inafiançável e hediondo! Tortura em nome de Deus! Que bizarro e cruel!”
[este foi o comentário que fizemos na ocasião]

“É a marcha da Extrema-Direita. Em breve, organizações como a Ku-Klux-Klan vão proliferar no Brasil. Que se cuidem gays, mulheres indefesas e negros....Temos que estancar esta onda logo.”

“A Polícia Civil de Minas inaugurou dia 20 de outubro passado um núcleo de atendimento para lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, na Rua Paracatu, Bairro Barro Preto, Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Essas pessoas vão contar com proteção formal da polícia por meio do Núcleo de Atendimento e Cidadania à População LGBT (NAC), que receberá denúncias de violência e discriminação.”

“Gustavo, perguntei a uma amiga defensora pública em SP se caberia você procurar a defensoria da sua região, e ela me respondeu o seguinte: 'O ideal era ele procurar o MP [Ministério Público] (por causa da parte criminal). Acredito que lá ele terá um atendimento adequado. Aqui em SP temos na Defensoria um núcleo que cuida da questão da discriminação, mas a atuação é na esfera cível. Lá em MG não sei como funciona.'”

“Procura o Carlos Magno do CELLOS de BH ele pode te ajudar ! E, está próximo!!!”

“‎Gustavo, já compartilhei a imagem em vários grupos. Eu fiquei revoltado com o que eu li aí - ignorância em nome de deus, fanatismo religioso puro. Mas por mais difícil que seja, vai ficar melhor. Não desista de você, da sua vida.”

Na sexta-feira à noite (24/fev), militantes do CELLOS (Centro de Luta pela Livre Orientação Sexual) de Contagem - MG (ver site) e de Belo Horizonte - MG (ver site) foram até a casa do rapaz agredido, o retiraram de lá, e o levaram em segurança, conforme relatado num comentário da postagem original:

“A mensagem da Dalcira Ferrão que participou da ação: 'Bom dia, pessoal! Gente, ontem por volta de 21:30h, eu e militantes do CELLOS-Contagem e CELLOS-MG, fomos à casa do rapaz e o buscamos para levá-lo para um lugar seguro. Conversamos um pouco com o pai dele. Quando estávamos saindo o irmão dele, que é pastor evangélico, chegou bastante alterado. Pra evitar um confronto direto nos retiramos. Cheguei em casa por volta de 01h da manhã. Hoje providenciaremos a denúncia formalizada do caso e tentaremos uma abordagem e sensibilização junto à família. Gustavo está bem, mais tranquilo. Está muito emocionado com toda a nossa mobilização e carinho. Está ciente que não está só nessa luta por um mundo sem homofobia!!!'”

Após a ação do CELLOS, o próprio Gustavo retornou ao Facebook e agradeceu a todos pela solidariedade e ajuda, relatando como está agora:


“Poxa, ontem mais cedo eu estava chorando por desespero, e agora realmente estou chorando de alegria por ver o verdadeiro apoio de todos vocês. Vocês são fantásticos. Boa noite pessoal.”

“Para todos aqueles que se preocuparam comigo, saibam que estou bem e protegido, tanto fisicamente como psicologicamente, estou bem comigo mesmo mas ainda sei que a nossa luta não acabou. Vocês me ajudaram a não desistir. Vocês lutaram por mim, agora eu lutarei por vocês. Vocês foram corajosos por mim, agora eu serei corajoso por vocês. Estamos todos juntos nessa e somos uma verdadeira família. Adoro vocês. Beijos beijos, até amanhã pessoal, darei mais notícias a todos vocês.”

“Olá Pessoal, em primeiro lugar estou aqui para agradecer o apoio de todo mundo que ajudou, pois acredite, foi muito importante, todos os grupos, sites, o pessoal querendo entrevistar, as notícias, likes, comentários, compartilhamentos, pessoas do país e de fora do país, muito obrigado mesmo. Em segundo lugar para dizer que estou bem, chegaram a minha casa antes que eu pudesse fazer alguma besteira comigo mesmo, estão me apoiando em tudo, totalmente, me acolheram de uma forma fantástica. Obrigado Grupo Cellos Contagem.”

“Como eu prometi, estou aqui no carro com o povo da CELLOS Contagem que estão me apoiando como vocês não imaginam. Estou correndo atrás não só dos meus direitos como dos de todos nós, pois como eu disse, vocês foram fortes por mim e agora eu serei forte, por que vocês me deram forças, mas eu não serei forte só por mim, por que quando eu sair desta, também ajudarei, não deixarei que vocês cheguem ao ponto de tentar fazer merda com vocês mesmos, por que vocês são perfeitos, estamos nessas juntos e não vamos desistir ok? Eu estou super bem, e vamos vencer, por que por mais repercussão que isso tenha tomado, não se trata apenas de direitos dos gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transsexuais, etc, se trata do SEU e do MEU direito por ser HUMANO, porque somos iguais e somos perfeitos, porque ELE sonhou com a gente exatamente do jeito que a gente é antes de nós nascermos. É, somos perfeitos. Eu amo vocês.”


O caso de Gustavo foi denunciado à Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República e está sendo acompanhado pelo Conselho Nacional LGBT.

A princípio, uma história que poderia ser ainda mais trágica, agora com um final feliz! Mas, fico pensando em quantos Gustavos existem por este Brasil sofrendo exatamente as mesmas dores, agressões, torturas, padecendo sob a hipocrisia fundamentalista dos que se consideram preferidos por Deus. Se fôssemos considerar como válidas as justificativas “divinas” (injustificáveis) destes pastores bandidos incitadores do ódio para suas atitudes, teríamos que colocar Deus definitivamente no banco dos réus, como co-autor dos crimes ou, pelo menos, como omisso e conivente pelos atos de seus fiéis. Mas, sabemos que Deus não tem nada a ver com isso! São os homens que mancham a humanidade com seus atos insanos e cruéis. Como não têm a coragem de assumir sua vilania, precisam dividir com Deus a culpa de sua bandidagem que fere, mata e trucida seres humanos apenas por conta do modo como nasceram ou decidiram viver. Isso não é religião, é crime, e dos piores, seja no reino humano ou no Reino dos Céus!

Que o caso de Gustavo, que continuaremos acompanhando, sirva como exemplo para ambos os lados: para os oprimidos, que sirva de encorajamento para irem aos órgãos de defesa (polícia, Ministério Público, organizações LGBT) e levarem tudo a juízo conforme a lei; para os opressores, que sirva de aviso de que a comunidade LGBT brasileira não está mais assistindo passivamente seus membros serem dizimados diariamente por arremedos de seres humanos travestidos de arautos do Senhor, de defensores da família e de reguladores do que seja a “normalidade da Natureza”!

Gustavo, parabéns por sua coragem! Você é um exemplo a ser seguido por todos os jovens adolescentes que, como você, padecem em mãos diabólicas que se apresentam como angelicais. Se há um Deus, certamente ele sabe quem eles são e lhes dará seu verdadeiro e merecido quinhão na hora certa...

3 comentários:

Tatá - Ataulfo Santana disse...

caríssimos!

estou muito feliz por saber o desfecho dessa "história da vida real". parabéns por divulgá-la.

estou com a sensação de que o movimento lgbt, inclusive por meio virtual, funciona!

mais uma vez parabéns pelo engajamento!

bjs do Tatá

Espiritualidade Inclusiva disse...

Grato pelo apoio, Tatá!

O caso do Gustavo Campos é emblemático. Muitos outros jovens estão sofrendo a mesma coisa neste exato momento nas mãos de familiares fanáticos por uma visão religiosa medieval e cruel, que não tem nada a ver com um Deus de amor e misericórdia. Em nome de crenças antiquadas, sem qualquer contextualização, os fanáticos são mesmo capazes de jogar no lixo outras crenças de sua própria religião (como o amor ao próximo, por exemplo) que se praticadas à risca, jamais permitiriam atitudes como as do irmão pastor do Gustavo. Uma lástima que este país esteja infestado de falsos profetas, charlatões e pseudocristãos se autodeclarando o summum bonum de Deus e seus únicos arautos verdadeiros...

Espiritualidade Inclusiva disse...

Uma atualização sobre o caso publicada em MinasG: http://www.minasg.com.br/site/caso-de-homofobia-em-contagem-e-atendido-por-grupos-lgbt-de-contagem-e-bh

(A matéria contém evidente parte de nosso material publicado acima)