quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Constrangimentos de Fim de Ano

Por Paulo Stekel (artigo postado originalmente em http://gayexpression.wordpress.com/2010/12/21/constrangimentos-de-fim-de-ano/)

Uma de minhas maiores tristezas é o fato de que nunca pude revelar a meus familiares a minha condição… Na maior parte do ano, morando em outra cidade, era até fácil esconder a verdade, dar desculpas não checadas, falar de namoradas fictícias e montar discursos satisfatórios de minhas atividades na capital. Mas, então, chegava o período das festas de fim de ano e a angústia se apossava de mim. Viajar ao interior, junto ao seio familiar, sem as “provas” de normalidade tão ansiada por todos, era um suplício. Parecia que eu me dirigia à cadeira elétrica ou que portava uma bomba-relógio que poderia explodir a qualquer momento.
Todos os meus irmãos iam com suas esposas ou namoradas. Independente de seus atos privados, podiam gozar da visão da normalidade tão desejada pelo “clã”. Eu sempre ia sozinho… triste… acuado como um cão culpado por ter feito algo desaprovado por seu dono. De certa forma, isso me tornava o centro das atenções, das perguntas indiscretas e das preocupações de meus pais. O fato de eu ter ido bem na faculdade, de estar trabalhando e de aparentar ótima saúde parecia irrelevante diante da anormalidade de ter vinte e cinco anos e ainda não ter casado, nem de jamais ter sequer levado uma namorada para visitar minha terra natal. Um constrangimento indescritível. Um ano inteiro de apreensão maquinando respostas às perguntas mais astutas sobre minha vida pessoal.
Mas, quando conheci o amor de minha vida, esse teatro de quinta não podia mais continuar. O conheci no início do ano e, antes de junho já morávamos juntos. Para meus familiares, era só um colega de faculdade que dividia o apartamento comigo. Como nunca nos visitavam, era fácil manter a mentira. Contudo, para os familiares dele, tudo era o oposto. Sabiam, aceitavam e aprovavam. Algum alento em meio ao inferno que minha alma enfrentava todo o tempo.
Mais um final de ano e uma decisão difícil: passar o Natal na casa dos pais dele, sendo aceito plenamente, ou ir sozinho para a casa de meus pais, repetindo a peça teatral há tanto tempo em cartaz… Se decidisse ir para a casa dos pais dele, como explicar aos meus minha ausência?
Depressão, sono, remédios e muito choro após, tomei uma decisão aparentemente insana: ir para a casa de meus pais… com ele. E, fomos! Inicialmente o apresentei como o meu colega de apartamento, o que não era de fato uma inverdade. Mas, os olhares indiscretos, já tão constrangedores em outros anos, agora eram como um pelotão de fuzilamento.
Por fim, me decidi a ir para o paredão e, orgulhoso de minha coragem justa, disse minhas últimas palavras: “Pessoal, este homem que veio comigo não é apenas meu colega. É muito mais do que isso. É a força que eu não tinha, a auto-estima que eu buscava e o amor próprio que tinha perdido. Com ele conheci a família que nunca tive. Ele é meu namorado, o homem que eu amo…”
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A vida é mais irônica e cruel que a ficção. Aprendi isso com o tempo. Quando mais jovem, pensava que a ficção forçava a realidade. Depois, vi que a ficção às vezes é até mais leve.
Quando eu o conheci, acho que nossas almas se entenderam imediatamente. Mas, para ele, a força do ambiente era um impedimento enorme. Sua depressão evidenciava a pressão da família para que não nos víssemos mais. Algumas vezes pensava que ele poderia se suicidar. O pai, um militar linha dura daqueles que adora justificar os tempos da Ditadura, um exemplo de marido (quando a esposa não estava por perto para ver seus casos extraconjugais) e um nobre maçom partidário da Igualdade e o resto que se segue – não sei como ele conciliava tudo isso – de tudo fazia para nos afastar, por ter percebido mesmo antes de nós o que estava sendo engendrado em nossos jovens corações. Os embates intelectuais entre eu e ele eram memoráveis… e tensos. Meu amor ficava mudo, sem dizer uma palavra, apenas ouvindo… ou entorpecido pelo medo.
Chegou a época da formatura do meu amor e ele retornou a sua cidade natal. O pai dele comemorava com os olhos um afastamento que julgava ser definitivo, qual uma cura para um mal que – ele insistia em fazer de conta que não percebia – com certeza não estava em mim.
No final do ano estava eu longe de quem mais me importava ter por perto. Ele sentia o mesmo. Telefonava-me às escondidas, pois estava sob “vigilância militar”. Decidiu vir vir-me no final do ano. Se impôs pela primeira vez, aumentando o ódio que o pai dele sentia de mim. Mas, ele veio. Passou o Natal comigo. Contudo, sua depressão continuou e eu o fiz retornar a sua família.
Num golpe de coragem extrema eu fui até ele após o ano novo. Enfrentei as ironias do “sogro”, a apatia da “sogra” e o comportamento robotizado/normalizado dos “cunhados”. Filhotes de ditador muito bem treinados… Naquela casa passei uns três dias, me sentindo parte de um experimento do “general” do lugar, que deixou as coisas correrem para ver até onde iríamos. Não fomos muito longe… O medo que um filho pressionado tem de seu pai pode paralisar tudo, até o coração. Ele se afastou, não me atendeu ao telefone, tentou o suicídio. Fracassou… Sobreviveu. Entrou nos “eixos da normalidade” e se anulou para si mesmo. Passados muitos anos, está tão obeso quanto seu pai. Eu, contudo, fiz tudo ao contrário. Revivi, levantei, venci, o esqueci e amei novamente. Escolhas… nada mais que escolhas.
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O que mais importa no final do ano? Celebrar, fofocar ou dar-se à hipocrisia? Todos se consideram cristãos incontestes, mas raramente lembram de quem é o aniversariante no Natal. Esquecem totalmente o amor ao próximo pregado por ele. Então, no que se transformou este dia que quase ninguém ousa não comemorar? Em um teatro de marionetes de péssimo gosto. Sempre me senti uma marionete nesta época. Por isso, deixei de comemorar o Natal ou o Ano Novo com minha família. Não sou o tipo que fica inventando mentiras sobre minha vida pessoal para agradar a hipócritas não-santos que se acham a fina flor da “normalidade familiar”. A normalidade familiar é a podridão da mentira e da hipocrisia, é o que se esconde para aparentar autoridade moral.
Depois de muitos anos passando as festas de fim de ano com amigos em lugares públicos, bares e festas privadas, resolvi naquele ano passar com a família de meu namorado. Ele havia me explicado que, embora nunca tenha se assumido, eles pareciam perceber tudo e nunca interferiam, nem ficavam fazendo perguntas constrangedoras. Perfeito demais, pensei… Mas, vamos lá.
A mãe recebeu-nos com a gentileza típica de quem sempre foi “do lar”, empanturrando-nos com todo o tipo de guloseimas de Natal, algo que ela teve muito tempo de sua mesmice de vida de esposa-empregada do marido e dos filhos para aprender.
O pai havia morrido. Os irmãos tinham suas próprias vidas e não se intrometiam uns nos negócios dos outros. Então, as festas de fim de ano serviam apenas para um rápido relatório das atividades anuais, sem muitos detalhes. Essa era a salvaguarda de meu namorado. A mim, só perguntaram coisas comuns, como estudo, trabalho, gosto musical ou literatura. Religião parecia assunto interdito, apesar do Natal ser a maior festa religiosa do Ocidente…
Pode parecer estranho, mas mesmo não sendo alvejado por perguntas constrangedoras, me sentia constrangido naquela mesa farta. O silêncio constrange tanto ou mais que a palavra cortante.
Por baixo da mesa tentei pegar na mão de meu amor, mas ele a retirou imediatamente, olhando-me com ar de reprovação. Perguntei-lhe no ouvido o motivo de não poder pegar em sua mão. Não me respondeu.
Terminada a ceia-cena-ato cronometrado, rito cumprido para exorcizar demônios inquisitórios arquetípicos, cada um foi se retirando e retornando a sua casa. Eu ainda mantinha meu semblante de indignação por nem sequer poder abraçar quem amo na hora do “Feliz Natal”.
Assim que todos saíram e só ficamos eu, ele e a “sogra-empregada”, perguntei-lhe novamente o motivo de não poder me aproximar. Ele novamente emudeceu, mas a mãe chegou em meus ouvidos e sussurrou: “A regra do pai dele ainda é seguida aqui – faça o que quiser de sua vida, frequente a casa paterna com quem quiser, mas não obrigue minha alma a compartilhar da indecência que deve ficar apenas entre você, Deus e o Inferno…”
Indignado, me pus porta afora, não sem antes dizer em alto e bom som: “Antes o Inferno da Verdade da Alma que o Paraíso da hipocrisia dos salvos autodeclarados!”
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Estas três histórias ilustram muito bem o constrangimento que gays passam junto a seus familiares no período das festas de fim de ano. Duas destas histórias são fictícias; uma delas é verdadeira, e se passou comigo. Deixo para vocês a tarefa de descobrir qual delas é um pedaço de minha vida.

Conheço muitos gays que vivem longe de suas famílias. Muitos estudaram, foram ótimos alunos, trabalham e se sustentam, e saíram de suas cidades natais para evitar os constrangimentos típicos de quem ama alguém do mesmo sexo. Na maior parte do tempo o constrangimento é evitado, salvo nas festas de fim de ano. Reencontrar pais, irmãos, primos, tios e sobrinhos é um prato cheio para perguntas totalmente destituídas de inocência. Afinal, nossos parentes nos conhecem muito bem, principalmente nossos pontos fracos. O pai pergunta: “Como vão as namoradas?” (Um pai machista não se sente seguro se for uma só!) A mãe pergunta: “Você está se cuidando?” (O velho clichê da promiscuidade dos gays…) Os irmãos perguntam: “Então, vai casar com mulher ou continuar pagando de veado para todos?” (Esses são os mais sinceros!) Os parentes mais distantes (mas não menos maquiavélicos) perguntam: “Por que não trouxe a namorada desta vez? Você tem namorada, não é? Um rapaz de quase trinta anos sem namorada, já viu, né?” (Vontade de responder: “Veado é seu filho, que tem quinhentas namoradas de fachada e vive dando em cima de mim!”)
A grande verdade é que as festas de fim de ano, especialmente o Natal, são um momento constrangedor para todos, gays ou não. As disputas se acirram, as mágoas se revelam, a hipocrisia reina absoluta, mas o peru tem que estar impecavelmente assado sobre a mesa. E, o aniversariante? Quase nunca é lembrado, salvo em famílias muito religiosas em que alguém ainda lembra que o Natal é a comemoração de um aniversário.

Quando eu era cristão não me indignava tanto com isso como agora, que sou budista. Quando era cristão estava imerso na onda e não percebia o óbvio. Como budista, consigo perceber a deformação e me lembro do aniversariante em sinal de respeito muito mais que muitos cristãos na noite de Natal. O comércio tomou conta da festa, a hipocrisia se tornou a tônica da celebração e o presépio foi susbtituído pelo Papai Noel.
Em geral, meus amigos gays não gostam destas coisas, pois são pessoas inteligentes e percebem a jogada. Gays são pessoas que acabam por aprender a viver sozinhos, a se sustentar, a responder à intolerância e a ironizar a hipocrisia das famílias. A única exceção é um primo meu, formando de Medicina (o julgava culto e inteligente…), que ao saber que não comemoro o Natal por ser budista (ele sabe o que é isso?), largou esta pérola: “Como assim? Todo mundo comemora o Natal! Não conheço quem não comemore!” (Silêncio sepulcral…) [Só para matar a curiosidade de vocês: ele ainda vai sozinho para o interior no final do ano e jura que tem namorada, mas mora com o namorado há anos.]

Nota atual: A pessoa que protagonizou comigo a história verdadeira (vocês deverão deduzir qual é ela) morreu num trágico acidente de carro em abril de 2011, portanto, quatro meses após eu ter escrito este artigo. Foi uma fatalidade. Ele estava na carona do carro da empresa e não resistiu aos ferimentos. Ao Eduardo, seu nome verdadeiro, rendo minhas homenagens póstumas...)

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