sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

É fato: o entrave é o fundamentalismo evangélico!

Por Paulo Stekel

Esta semana dois fatos chamaram a atenção da comunidade LGBT e, por força do que representam, não tivemos como não escrever este artigo.

A primeira notícia foi o suposto veto a uma das peças institucionais em vídeo de prevenção a DST/AIDS elaborada pelo Programa de AIDS, do Ministério da Saúde, para ser exibida durante a campanha do Carnaval. Ainda que isso não tenha aparecido publicamente, muitos ativistas LGBT desconfiaram da “mão fundamentalista evangélica” neste sumiço do vídeo que apresenta dois homens gays em um flerte prestes a culminar em ato sexual sem camisinha, finalizando com um “quase-beijo” diante de uma “fada madrinha da camisinha” que resolve a situação de risco.

Segundo o Ministério da Saúde, não era para o filme ser divulgado na internet, e será exibido apenas em espaços fechados frequentados por homossexuais. Ou seja, ele não teria sido vetado. Exatamente por ter ido parar na internet podemos imaginar a “patrulha da moral religiosa” fazendo pressão para a retirada do mesmo. Fica evidente a tentativa do fundamentalismo evangélico no Brasil de condicionar a guetos tudo o que se refere à Comunidade LGBT, à prevenção de DST/AIDS e à Cultura Gay em geral. Parece que querem “limpar” a sociedade heteronormatizada de qualquer percepção de nossa existência, de nossos direitos e nossas necessidades.

No site do Ministério da Saúde está escrito que a “Campanha busca sensibilizar público para reduzir vulnerabilidade”. Mas, ao que parece, a bancada evangélica mais radical não só não se sensibilizou quanto à necessidade de prevenção, como pode ter forçado uma “limpeza clínica” na campanha original. O mais preocupante é que a campanha, sendo voltada principalmente a jovens gays de 15 a 24 anos durante o Carnaval, e sendo esfacelada deste modo, deixa nossos jovens a mercê da contaminação e de vários riscos sociais, já que de 1998 a 2010, o percentual de casos na população homossexual de 15 a 24 anos aumentou em 10,1%, conforme último boletim divulgado.

A forma como a campanha foi elaborada é bastante inclusiva, pois há um cartaz com dois heterossexuais, outro com dois homossexuais e um com uma travesti (veja abaixo). Então, o ataque por todos os flancos já era esperado.



A segunda notícia tem a ver com as recentes declarações do ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, sobre a necessidade de se travar uma espécie de “disputa ideológica” com os evangélicos. A bancada evangélica ameaçou obstruir pautas até que Gilberto Carvalho se retratasse.

Durante um debate no Fórum Social Temático (FST), ocorrido em Porto Alegre (RS), entre 25 e 29 de janeiro, Gilberto Carvalho teria dito que é preciso montar uma rede para enfrentar de modo ideológico os evangélicos. Para ele, tal segmento religioso possui uma visão de mundo controlada por pastores de televisão. “É preciso fazer uma disputa ideológica com os líderes evangélicos pelos setores emergentes”, disse.

No debate, ao ser questionado sobre o motivo de o governo ser conservador em certos temas como aborto e casamento gay, Carvalho respondeu que o entrave para avançar na discussão eram os evangélicos.

Talvez a afirmação do ministro tenha sido infeliz apenas por ter faltado uma palavra: “o entrave para avançar na discussão são os FUNDAMENTALISTAS evangélicos”. Quando se diz deste modo, se faz uma clara separação entre os evangélicos comuns e os setores mais radicais entre eles, que buscam demonizar gays, impedir acesso a direitos fundamentais e negar-lhes acesso a maior segurança contra ações violentas de homofobia.

Temos toda a clareza necessária para afirmar que não são todos os evangélicos que demonizam gays, ou que são contrários a união civil entre pessoas do mesmo sexo, ou que acham que gays não sofrem tanto preconceito assim para postularem lei especial anti-homofobia (PLC 122). Mas, os que se opõem à agenda LGBT são vociferantes líderes insanos que berram aos quatro cantos em seus programas de TV, colocando a população evangélica em geral contra outros cidadãos que sofrem preconceito em várias frentes (família, escola, trabalho, meio social), sem ter a quem recorrer para sua defesa plena. É, portanto, uma covardia sem limites, um ato impensável quando vindo de cristãos que se consideram “à parte do mundo”, mas tão preocupados em como o mundo do qual se apartaram vive.

Os líderes evangélicos mais radicais, e são estes os barulhentos de plantão, precisam parar de se autodeclarar fiscais daquilo que os que não são evangélicos podem ou não podem fazer. E, como o Estado é laico, isso nem deveria fazer parte de discussões parlamentares.

Estes líderes radicais possuem três frentes de combate muito claras atualmente.

A primeira frente é contra as outras religiões. Demonizam os cultos de matriz africana (Umbanda, Candomblé, etc.), o Espiritismo e as religiões orientais, mais recentes no Brasil. Dizem que os deuses do africanismo são demônios, que os “pais-de-santo” são “pais-de-encosto”, que o Espiritismo deixa baixar diabos no corpo e que as religiões como o Budismo são importação de demônios estrangeiros à nossa terra. Ou seja, não há qualquer abertura para diálogo inter-religioso com esses radicais! Extrapolam a noção de “o estranho é o outro” e a reescrevem “o demônio é o outro”...

A segunda frente é contra os ateus, aqueles que decidem não praticar qualquer religião e que não acreditam em Deus e nos dogmas e rituais religiosos. Num Estado Laico isso é perfeitamente aceitável. Cada cidadão tem o direito de professar a crença que quiser, ou nenhuma. É o caso dos ateus. Mas, geralmente, vemos evangélicos (e católicos) fundamentalistas dizendo que quem não tem “Deus no coração” é vil, perverso e suscetível ao crime. Então, como ficam os budistas, que não têm “Deus no coração” porque o Budismo não tem a noção de um Deus Criador? E, os ateus? Os ateus humanistas, por exemplo, aceitam uma ética que se assemelha muito à ética professada por praticamente todas as grandes religiões. Alguns conhecem ética e religiões muito mais do que os próprios religiosos.

A terceira frente é contra a comunidade LGBT. Considerando o homossexual como um pecador que age conscientemente em sua orientação sexual, os fundamentalistas evangélicos propõem até “curas gays” pelo Espírito Santo que, conforme “ex-curados”, são uma lavagem cerebral e uma flagelação tão cruel como as torturas medievais ou as experiências nazistas de lobotomia em gays nos campos de concentração. Como bem diz Luiz Mott, há um “homocausto” ocorrendo no Brasil (e em várias partes do mundo) neste momento e, declaramos mais uma vez, os fundamentalistas evangélicos com seu radicalismo nada solidário nem amoroso, estão contribuindo indiretamente para que venha a aumentar.

Ao demonizar as outras religiões, os fundamentalistas evangélicos ressuscitam o proselitismo violento do antigo Judaísmo dentro da Palestina antiga e do Islamismo mais radical. Ao atacar os ateus, desejam reforçar seus dogmas como sendo a Verdade Única. Ao negar direitos aos LGBT, se arvoram de arautos de um moralismo e de costumes que sequer praticam (pesquisem o nível de corrupção entre os membros da bancada evangélica e a história pregressa de muitos destes líderes radicais).

Então, permitir em um Estado Laico que a retórica do Cristianismo mais radical seja argumento para decisões políticas e estabelecimento de políticas públicas que atingem minorias em situação de risco, é uma temeridade. Combata-se o fundamentalismo evangélico, católico ou o que o valha, e estaremos retirando o entrave que impede a cidadania plena da comunidade LGBT. Precisamos urgentemente de uma Declaração de Reafirmação do Estado Laico, antes que seja tarde demais...



Notícias relacionadas: http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/bancada-evangelica-quer-explicacoes-de-gilberto-carvalho/?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter&utm_campaign=Feed%3A+congresso+%28Congresso+em+Foco%29 (“Evangélicos se rebelam e querem retratação de Gilberto Carvalho”); http://colunistas.ig.com.br/poderonline/2012/02/09/gilberto-carvalho-se-desculpa-com-magno-malta (“Gilberto Carvalho se desculpa com Magno Malta”); http://www.youtube.com/watch?v=I_sjiFHwi1w&feature=youtu.be (“Ministério da Saúde Campanha carnaval 2012”); http://oglobo.globo.com/pais/ministerio-veta-video-de-homens-gays-na-campanha-do-carnaval-3916357#ixzz1lqDH93dq (“Ministério veta vídeo de homens gays na campanha do Carnaval”); http://www.aids.gov.br/noticia/2012/saude_mobiliza_jovens_gays_na_prevencao_aids (“Saúde mobiliza jovens gays na prevenção à aids” [Site do Ministério da Saúde]).

4 comentários:

Juliana disse...

"
Ao demonizar as outras religiões, os fundamentalistas evangélicos ressuscitam o proselitismo violento do antigo Judaísmo dentro da Palestina antiga e do Islamismo mais radical. Ao atacar os ateus, desejam reforçar seus dogmas como sendo a Verdade Única. Ao negar direitos aos LGBT, se arvoram de arautos de um moralismo e de costumes que sequer praticam (pesquisem o nível de corrupção entre os membros da bancada evangélica e a história pregressa de muitos destes líderes radicais)."

Excelente! Os fundamentalistas evangélicos estão extrapolando e estão longe, muito longe do que Jesus pregou.

Adorei o blog e quero me colocar à disposição para auxiliá-los na divulgação, bem como na construção do mesmo. Se tiverem interesse, entrem em contato.

Juliana Sardinha
www.dicasblogger.com.br

Espiritualidade Inclusiva disse...

Grato pelo apoio, Juliana Sardinha!

Você pode contribuir muito com nosso blogue e movimento Espiritualidade Inclusiva. Pode escrever artigos para a gente e sugerir matérias, enviar notícias, críticas e o que mais achar adequado. Estamos abertos a todos os que queiram construir um mundo mais cidadão, inclusivo e pleno para todos, independente de gênero e orientação sexual. Abraços!

Juliana disse...

Eu pensei em criar um template exclusivo para este blog. Não sei se vocês viram, mas meu blog é justamente sobre otimização de blogs do Blogger. Vocês poderiam me passar um email para contato? Abraços, Juliana

Espiritualidade Inclusiva disse...

Juliana. Nosso email para contato está no topo do blogue. É espiritualidadeinclusiva@gmail.com

Aguardamos seu contato.

Stekel